Edição 1835 . 7 de janeiro de 2004

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Televisão
Beleza negra

Taís Araújo é heroína de uma novela pela
segunda vez e faz história na televisão


Ricardo Valladares

 
Oscar Cabral
Taís Araújo: salário de 35 000 reais e 215 mililitros de silicone nos seios

Taís Araújo, Camila Pitanga, Adriana Lessa, Ildi Silva, Viviane Porto travam duas batalhas particulares. Uma, de apelo bem popular, envolve a discussão sobre qual seria a musa negra da TV brasileira. Como todas são lindas, eleger uma delas com base em atributos físicos é o tipo de proposta que causaria uma guerra em qualquer roda de amigos. A outra batalha diz respeito ao espaço que elas conquistaram no meio artístico. Nesse caso, Camila Pitanga e Taís Araújo deixam o resto do grupo para trás. E que os fãs de Camila nos perdoem, mas a coroa, pelo menos neste momento, tem tudo para ser entregue a Taís Araújo. Até hoje, só se contam duas novelas nacionais com uma personagem negra como protagonista. A primeira foi Xica da Silva, que a extinta TV Manchete exibiu em 1996. A segunda é Da Cor do Pecado, folhetim das 7 que estréia na Rede Globo no fim deste mês. Em ambas as ocasiões, a tarefa de interpretar a protagonista coube a Taís. Por causa disso, ela é dona de um currículo único, e só por isso já se pode dizer que cravou seu nome na história da TV brasileira.

Quando Xica da Silva foi ao ar, Taís Araújo não havia saído da adolescência. Ela completou 18 anos durante as gravações, e a data foi celebrada com uma cena especial: um banho de cachoeira em que ela aparecia nua, e que causou um compreensível estardalhaço. Desde então, Taís fez outros nove trabalhos em televisão, três peças de teatro e três filmes. Foi eleita uma das mulheres mais bonitas do mundo pela revista americana People, em 2000 (Xica da Silva fez sucesso nos Estados Unidos nesse ano), e tornou-se embaixadora da paz em Angola. Seu carisma é comprovado. Quanto aos dotes físicos, pode-se dizer que ela se tornou ainda mais faceira. Aos 25 anos, Taís faz pouca ginástica e come tudo o que quer. Sua beleza é um dom quase que inteiramente natural. Quase. Em 2002, ela colocou uma prótese de 215 mililitros de silicone nos seios.

Nascida em família de classe média alta, a atriz tem pai branco e economista e mãe negra e pedagoga. Ela estudou em colégios caros no Rio de Janeiro, e, como todos os demais negros de classe média, passou por algumas situações explícitas de preconceito. "Perguntavam se era a patroa de minha mãe quem pagava as mensalidades", afirma Taís. "Eu não tinha modelos negros em quem me espelhar, crescia encantada com a Xuxa, e acabei entrando numa fase de muita timidez. Finalmente uma professora me deu um chacoalhão e eu aprendi a levantar a cabeça", conta ela. Taís começou a trabalhar como modelo aos 11 anos e fez sua primeira ponta na televisão aos 15. Ela ainda mora com os pais, no Recreio dos Bandeirantes, no Rio. Ganha 35.000 reais por mês na Globo e estima ter um patrimônio de 800.000 reais. "Ela rende um bom dinheiro", brinca sua mãe, Mercedes, que virou sua assessora. Durante quatro anos, Taís teve um relacionamento tumultuado com o cantor e apresentador de TV Netinho. Certo dia ela descobriu, por intermédio da secretária de Netinho, que ele havia engravidado outra mulher. Atualmente, ela mantém relações cordiais com o ex. Sua cara-metade é o lutador de jiu-jítsu Márcio Feitosa, de 27 anos. Os dois noivaram recentemente.

Uma das maiores reclamações dos movimentos negros no Brasil é que apenas os atores brancos acabam sendo escalados para interpretar certos papéis. Aos negros são reservados alguns tipos sociais específicos. Quando não são escravos em uma produção de época, são pobres numa trama contemporânea. Apesar do crescimento da classe média negra, raros são os personagens como o de Camila Pitanga em Mulheres Apaixonadas, em que ela era neurocirurgiã. Desse ponto de vista, a personagem de Taís Araújo em Da Cor do Pecado poderá causar reclamações. Seu nome é Preta, e seu ganha-pão é a venda de ervas medicinais numa feira. Preta viverá uma paixão com o biólogo Paco (Reynaldo Gianecchini). Durante o romance, os dois vão enfrentar as intrigas de uma loira má (Giovanna Antonelli, de cabelos tingidos) e o preconceito do pai do galã (Lima Duarte). O tema do preconceito racial, contudo, não deve ficar em primeiro plano. "Não sou o Manoel Carlos e essa não é uma novela polêmica. Quero contar uma história romântica", afirma o autor João Emanuel Carneiro. A idéia de uma novela com heroína negra foi do próprio Carneiro e, segundo ele, o fato de uma atriz carismática como Taís Araújo encabeçar a produção pode ter mais impacto social do que forçar a mão na temática do preconceito. Além de Taís, há outros cinco atores negros em Da Cor do Pecado. Juntos, eles representam 25% do elenco. "Há um projeto no Congresso que transforma essa porcentagem em cota obrigatória nas produções de TV, mas a novela se antecipou e isso é muito positivo", comemora Joel Zito Araújo, autor do livro A Negação do Brasil – O Negro na Telenovela Brasileira.

 

Da cor do sucesso

Atrizes negras têm cada vez mais espaço na tela

 
Rafael Campos
Rede Globo/divulgação
Marco de Bari
CAMILA PITANGA: médica em Mulheres Apaixonadas VIVIANE PORTO: revelação em Chocolate com Pimenta ILDI SILVA: olhos verdes encantaram em Agora É que São Elas

 

 
 
 
 
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