Edição 1835 . 7 de janeiro de 2004

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Livros
140 histórias de amor

Esse é o número de obras já lançadas
pela americana Nora Roberts, grande
sucesso da ficção romântica


Marcelo Marthe


John Earte

Nora: "No futuro valorizarão meus livros como hoje se valorizam as novelas de Jane Austen"

Outros trechos de Dançando no Ar


No fim dos anos 70, a americana Nora Roberts vivia uma fase de vazio profissional. Ela acabara de ser demitida do cargo de secretária num escritório de advocacia, por ter dificuldades com datilografia. Assumiu, então, o papel de dona-de-casa: vivendo numa região rural dos Estados Unidos, sua principal ocupação era cuidar dos filhos pequenos e dos cavalos de sua propriedade. Durante uma nevasca, ficou tão entediada em casa que foi em busca de uma válvula de escape. E assim desandou a escrever histórias de amor açucaradas. De lá para cá, Nora produziu 140 romances – uma média de seis por ano. Tornou-se um fenômeno editorial: já vendeu 145 milhões de livros (500.000 deles no Brasil) e desde os anos 90 tem uma espécie de assento permanente nas listas americanas de best-sellers. Atualmente, Nora é a estrela mais vistosa da ficção romântica, um filão no qual também fazem sucesso autoras como as americanas Danielle Steel e Barbara Delinsky e a escocesa Rosamunde Pilcher. Voltado para o público feminino, o gênero foi responsável por 53% das vendas de ficção em formato popular nos Estados Unidos em 2002. Pode-se dizer que, dentre todos os gêneros literários, esse é o mais artificial. Do enredo ao cenário, tudo é codificado. "Minhas leitoras sabem que meus romances não são sobre mulheres em busca de homens, e sim sobre uma mulher muito especial que procura o homem de sua vida", explicou Nora em entrevista a VEJA.

Chega às livrarias nesta semana o 27º título da autora no país. Dançando no Ar (tradução de Renato Motta; Bertrand Brasil; 380 páginas; 39 reais) narra a história de uma moça que, depois de padecer nas mãos de um marido abusivo, recomeça sua vida sob nova identidade, numa ilha de visual deslumbrante. Ela se apaixona pelo xerife local, mas terá de livrar-se do antigo cônjuge para encontrar a felicidade. Para tanto, irá se valer dos poderes mágicos nos quais é iniciada na tal ilha. Como toda ficção romântica que se preze, trata-se de um conto de fadas desbragado e sem medo de ser piegas. Mas Nora tem um diferencial: ela capricha nas cenas de sexo, coisa que até alguns anos atrás era tabu no gênero.

Fustigada pela crítica em razão do excesso de clichês, a ficção romântica hoje dispõe de uma entidade que zela por sua imagem nos Estados Unidos. É a Romance Writers of America, uma espécie de sindicato da categoria que reúne 8.600 escritores – ou melhor, escritoras, porque não chegam a dez os homens em seus quadros. A associação promove cursos e palestras para ensinar os truques do gênero a autoras novatas, edita uma revista especializada e criou até uma certa normatização. Em sua definição "oficial", um livro só pode ser considerado ficção romântica autêntica se tiver no centro da trama uma heroína à procura de sua cara-metade. Também é obrigatório que a obra tenha final feliz. "A pior traição às nossas leitoras é um livro que termina sem a consumação do romance pelo qual elas estão torcendo tanto", informa Charis Calhoon, porta-voz da entidade.

A fórmula da ficção romântica inclui outro item importante: o cenário. Quanto mais pitoresca a paisagem em que se desenrola a história, melhor. E cada época é marcada por uma tendência nessa área. Por exemplo: nos anos 90, estavam em alta os romances ambientados nos Estados Unidos dos tempos coloniais. Atualmente, o quente são as histórias contemporâneas, seja na zona rural americana, seja numa ilha exótica. Alguns cenários, no entanto, estão sempre na moda: é o caso da Escócia, com seus castelos e montanhas. Nora Roberts já explorou as mais variadas locações, mas tem predileção por fazendas e haras. As pesquisas de comportamento mostram que o público valoriza esse tipo de locação. As pesquisas fornecem também outras indicações curiosas. As leitoras – que se concentram na faixa dos 35 aos 44 anos e são em grande parte casadas – admiram nas heroínas qualidades como força de caráter. Nora Roberts segue isso à risca. "Não escrevo sobre mulheres fracas", diz.

Na vida real, Nora também viveu uma paixão de conto de fadas: conheceu seu segundo e atual marido quando ele foi contratado para instalar prateleiras em sua biblioteca, em 1985. Hoje com 53 anos, a autora tem um faturamento anual estimado em 20 milhões de dólares. Só uma coisa a irrita: o fato de os críticos classificarem seus livros de literatura de segunda classe. Ela julga que um dia sua obra será vista com outros olhos. "No futuro as pessoas valorizarão meus livros como hoje se valorizam as novelas de Jane Austen", diz ela, comparando-se à autora que no século XIX expôs os anseios femininos e os maneirismos da aristocracia inglesa em clássicos como Razão e Sensibilidade. Difícil essa história ter final feliz para Nora.

 

 

 
 
 
 
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