Edição 1835 . 7 de janeiro de 2004

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Em Nome de Deus expõe uma
nódoa
escandalosa na história
recente da Irlanda católica


Isabela Boscov

 
As "Madalenas" irlandesas: regime de escravidão em plena Europa do século XX

O Vaticano se indignou e condenou Em Nome de Deus (The Magda-lene Sisters, Irlanda/Inglaterra, 2002), em cartaz a partir de sexta-feira. Mas o fato é que a cada ano surgem mais evidências de um escândalo na Irlanda católica, o regime de escravidão e terror a que foram submetidas as cerca de 30.000 jovens que passaram pelos reformatórios das Madalenas, instituições religiosas em que se recolhiam moças que viraram motivo de vergonha para suas famílias. Em geral, as mulheres "selecionadas" eram mães solteiras, vítimas de estupro, por exemplo, ou simplesmente consideradas tentadoras demais para ficar à solta. O nome dos reformatórios homenageava Maria Madalena, a prostituta que se arrependeu da profissão que abraçara. Perdão, contudo, não era uma prioridade na pauta das freiras que gerenciavam os reformatórios. Segundo os testemunhos, os estabelecimentos eram lavanderias lucrativas, em que as moças trabalhavam sem remuneração, sob maus-tratos e não raro até morrer. Dirigido pelo ator escocês Peter Mullan, Em Nome de Deus segue quatro personagens moldadas em figuras verídicas, dos "delitos" que elas cometem até os anos passados numa rotina de sadismo, durante a década de 60.

Com uma história dessas, uma direção segura e excelentes atrizes, Em Nome de Deus merece, em boa parte, a atenção de que é alvo desde que ganhou o Festival de Veneza. Por incrível que pareça, as cenas mais aterradoras não são aquelas passadas no interior do reformatório, e sim os momentos iniciais, em que as famílias decidem que mais vale sacrificar uma filha do que conviver com um embaraço, e dão as costas ao desespero das meninas. É aí, nesse ambiente social em que reformatórios como esses pareciam um recurso aceitável – e num país europeu, em pleno século XX –, que está a verdadeira insanidade. Não sem razão, Mullan comparou a opressão experimentada pelas jovens irlandesas àquela em que vivem as mulheres de países islâmicos linha-dura. Mas o fez em entrevistas, não na tessitura de seu filme – e assim confirmou a sensação que Em Nome de Deus provoca, a de que faz a crônica de um sintoma e deixa de lado a doença.

 
 
 
 
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