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Cinema
Mais
roupa suja
Em
Nome de Deus expõe uma
nódoa
escandalosa na história
recente
da Irlanda católica

Isabela
Boscov
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| As
"Madalenas" irlandesas: regime de escravidão em plena Europa
do século XX |
O
Vaticano se indignou e condenou Em Nome de Deus (The
Magda-lene Sisters, Irlanda/Inglaterra, 2002), em cartaz a partir
de sexta-feira. Mas o fato é que a cada ano surgem mais evidências
de um escândalo na Irlanda católica, o regime de escravidão
e terror a que foram submetidas as cerca de 30.000 jovens que passaram
pelos reformatórios das Madalenas, instituições
religiosas em que se recolhiam moças que viraram motivo de
vergonha para suas famílias. Em geral, as mulheres "selecionadas"
eram mães solteiras, vítimas de estupro, por exemplo,
ou simplesmente consideradas tentadoras demais para ficar à
solta. O nome dos reformatórios homenageava Maria Madalena,
a prostituta que se arrependeu da profissão que abraçara.
Perdão, contudo, não era uma prioridade na pauta das
freiras que gerenciavam os reformatórios. Segundo os testemunhos,
os estabelecimentos eram lavanderias lucrativas, em que as moças
trabalhavam sem remuneração, sob maus-tratos e não
raro até morrer. Dirigido pelo ator escocês Peter Mullan,
Em Nome de Deus segue quatro personagens moldadas em figuras
verídicas, dos "delitos" que elas cometem até os anos
passados numa rotina de sadismo, durante a década de 60.
Com uma história dessas, uma direção segura
e excelentes atrizes, Em Nome de Deus merece, em boa parte,
a atenção de que é alvo desde que ganhou o
Festival de Veneza. Por incrível que pareça, as cenas
mais aterradoras não são aquelas passadas no interior
do reformatório, e sim os momentos iniciais, em que as famílias
decidem que mais vale sacrificar uma filha do que conviver com um
embaraço, e dão as costas ao desespero das meninas.
É aí, nesse ambiente social em que reformatórios
como esses pareciam um recurso aceitável e num país
europeu, em pleno século XX , que está a verdadeira
insanidade. Não sem razão, Mullan comparou a opressão
experimentada pelas jovens irlandesas àquela em que vivem
as mulheres de países islâmicos linha-dura. Mas o fez
em entrevistas, não na tessitura de seu filme e assim
confirmou a sensação que Em Nome de Deus provoca,
a de que faz a crônica de um sintoma e deixa de lado a doença.
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