Edição 1835 . 7 de janeiro de 2004

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Cinema
Promessa é dívida

Em 21 Gramas, Alejandro Iñárritu
cumpre todas
as expectativas que
gerou com Amores Brutos


Isabela Boscov

 
Fotos divulgação
Penn e Naomi: às voltas com a matemática inexorável da vida

Trailer e fotos do filme

Apesar de seu arrojo visual e narrativo – e do tremendo impulso que deu à carreira do diretor mexicano Alejandro González Iñárritu –, o festejado Amores Brutos, de 2000, escondia um segredo pouco original: um roteiro esquemático, do qual só um bom ator como Gael García Bernal tirava alguma veracidade. Já 21 Gramas (21 Grams, Estados Unidos, 2003), que estréia nesta sexta-feira no Brasil, não padece desse mal. O segundo trabalho de Iñárritu concretiza todas as expectativas suscitadas por sua estréia, e mais um pouco. Como em Amores Brutos, ele filma numa película granulada, quase lavada de cores, e com uma câmera que parece estar sempre no ponto cego dos atores – aquele lugar a partir do qual eles não sabem estar sendo observados, e para o qual estão mais vulneráveis. Novamente também, o diretor reorganiza o tempo de forma imprevisível com sua montagem. Mas agora o faz não por puro virtuosismo, e sim para mirar no coração de sua história: a idéia de que há na vida algo inexorável, uma matemática que promove certos acontecimentos apenas para que se possa chegar a outros.

Assim, de início é difícil discernir em que ponto de sua trajetória Sean Penn está à morte numa UTI, se antes ou depois de receber um transplante de coração – ou como essa cena se encaixa com Benicio Del Toro, um marginal que encontrou Cristo ao voltar à prisão, ou ainda com Naomi Watts bêbada, chorando enquanto lava roupas sozinha em casa. Iñárritu não tem pressa de resolver essas dúvidas. Mas, à medida que as peças caem em seus lugares, esses dramas convergem com uma inevitabilidade que raras vezes o cinema evocou com tanta força.

 
Del Toro, com Melissa Leo: interpretações soberbas

O título, um tanto enigmático, vem da afirmação de que cada ser humano perde exatos 21 gramas no momento da morte. Esse seria o peso da, por assim dizer, essência que a marcha dos acontecimentos quer extrair de cada um. Esclarecer as ligações que levarão a esse resultado seria tirar muito do fascínio do trabalho de Iñárritu e frustrar o próprio tema do filme – o de que, ainda que não sejamos capazes de enxergar uma conexão, isso não significa que ela não esteja em pleno curso. Basta dizer, assim, que o diretor põe seus personagens em situações extremas, e que tira do seu trio central atuações que talvez sejam as melhores de suas respectivas carreiras. 21 Gramas, é verdade, pesa 1 tonelada – mas vale cada grama dela.

 
 
 
 
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