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Exportação
O efeito vaca louca
No embalo dos surtos da doença no exterior,
o Brasil aumenta a venda de carne bovina e
se firma como o maior exportador do mundo
Robson Fernandes/AE
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| Frigorífico
em Mato Grosso do Sul: novos negócios com a vaca louca americana
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O
ano de 2003 foi um marco histórico na exportação
de carne bovina no Brasil. Os números da Confederação
da Agricultura e da Pecuária, entidade que reúne os
produtores nacionais, indicam que as exportações atingiram
1,4 milhão de toneladas de carne e renderam 1,5 bilhão
de dólares, o triplo do que se vendia cinco anos atrás.
Com essa performance, o Brasil fechou o ano em primeiro lugar entre
os países exportadores, superando a Austrália e os
Estados Unidos, que exportaram 1,25 milhão e 1,19 milhão
de toneladas, respectivamente. Agora, os produtores de carne brasileiros
querem mais. Embalados pelo caso de doença da vaca louca
identificado nos Estados Unidos na semana retrasada, pretendem ocupar
os mercados que estão rejeitando a carne americana. Nos últimos
dez dias, 31 países embargaram a compra de carne dos Estados
Unidos, o que equivale a 95% do total exportado. A partir desta
semana, o Ministério da Agricultura vai traçar uma
estratégia para permitir que a carne brasileira conquiste
mais compradores. "Com a ausência dos Estados Unidos, o mercado
internacional de carne deve passar por um rearranjo", explica José
Vicente Ferraz, sócio da consultoria de agronegócios
FNP. "Isso abrirá um espaço enorme para a carne nacional,
mesmo que alguns países não comprem o produto brasileiro
por exigências sanitárias", avalia Ferraz. A Austrália
deve alterar suas exportações e direcionar boa parte
do que produz para o Japão e a Coréia do Sul, os maiores
compradores dos Estados Unidos. O Brasil tem chance de crescer nas
brechas deixadas pelos australianos.
As doenças fitossanitárias e as crises de produção
em outros países têm beneficiado muito as exportações
brasileiras. A partir de 1996, a epidemia de vaca louca na Inglaterra
abriu as portas da Europa e de mercados que eram atendidos pelos
europeus. Em 2001, o Chile parou de comprar carne da Argentina por
causa de uma epidemia de febre aftosa e passou a comprar a carne
bovina brasileira. No ano passado foi a vez de problemas climáticos
dizimarem boa parte do rebanho americano e do australiano, o que
deu outro empurrão nas exportações brasileiras.
O resultado é que há quatro anos o Brasil vendia carne
em quarenta mercados internacionais e hoje está presente
em mais de 100. A doença da vaca louca é uma das piores
ameaças à pecuária. É mortal tanto para
os animais como para quem consome a carne contaminada. Desde que
foi descoberta, em 1986, causou a morte de mais de 5 milhões
de animais e de pelo menos 140 pessoas na Europa. A contaminação
se dá por meio de ração enriquecida com proteína
animal, recurso comum na criação de gado confinado.
No Brasil, a possibilidade de acontecer uma epidemia da doença
é ínfima. A grande maioria dos bois é criada
no pasto, comendo capim. É o chamado "boi verde", que se
alimenta em pastagens.
Uma das boas notícias relativas ao aumento das exportações
de carne bovina brasileira é que ele não se sustenta
apenas no insucesso alheio. Seria uma posição bastante
precária. Um programa de vacinação praticamente
erradicou o risco de febre aftosa em 90% do rebanho, uma medida
fundamental para a exportação. O Brasil é um
dos países que mais utilizam a inseminação
artificial, técnica que melhora o perfil genético
do gado. No ano passado, cerca de 4 milhões de vacas matrizes
10% do total foram inseminadas. Esse é o dobro
do índice americano. Ao usarem sêmen de touros com
genética superior, os produtores criam animais que ganham
mais peso em menos tempo. A idade média de abate do boi caiu
de 4 para 3 anos, aumentando a produtividade. Em algumas fazendas,
novilhos superprecoces são abatidos entre 1 e 2 anos. Os
frigoríficos apostam em cortes especiais que custam mais
caro e vão direto para a mesa do europeu, o maior mercado
para as vendas brasileiras. Nos últimos cinco anos, o Friboi,
o segundo maior frigorífico do país, aumentou em quase
sete vezes o faturamento com exportações de carne.
A empresa fatura mais de 1 bilhão de reais por ano, dos quais
cerca de um terço é proveniente das exportações
de carne enlatada e de cortes especiais. São vantagens assim
que colocaram a carne brasileira em mercados como Rússia,
Egito, Arábia Saudita, Israel e Argélia, países
acostumados com carne de qualidade, como a européia.
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O
bife que ninguém quer
Fotos AFP
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| McDonald's
na Coréia avisa que a carne é australiana. Na fazenda
onde vivia a vaca doente, animais estão em quarentena
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A
campanha para recuperar a credibilidade da carne bovina
americana chegou à Casa Branca. "Eu comi carne
hoje e vou continuar comendo", declarou o presidente
George W. Bush, durante o feriado de Ano-Novo. O objetivo
é convencer os americanos de que não há
riscos de contaminação. Os Estados Unidos
têm o maior mercado consumidor de carne do mundo,
que movimenta 40 bilhões de dólares por
ano, e exportam 3,5 bilhões de dólares
anuais. Desde a divulgação do primeiro
caso da vaca louca, os principais importadores de carne
americana embargaram a entrada do produto. Uma comissão
de técnicos viajou para o Japão e a Coréia
do Sul a fim de convencer os países a aceitar
a carne, mas não teve sucesso. Na sexta-feira,
o governo tentava liberar o produto no México.
O argumento usado pelos americanos é que a vaca
doente foi importada do Canadá há dois
anos e provavelmente se contaminou em seu país
de origem. É pouco. Eles precisam provar para
os importadores que estão livres de uma epidemia.
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