Edição 1835 . 7 de janeiro de 2004

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Exportação
O efeito vaca louca

No embalo dos surtos da doença no exterior,
o Brasil aumenta a venda de carne bovina e
se firma como o maior exportador do mundo

 
Robson Fernandes/AE
Frigorífico em Mato Grosso do Sul: novos negócios com a vaca louca americana

O ano de 2003 foi um marco histórico na exportação de carne bovina no Brasil. Os números da Confederação da Agricultura e da Pecuária, entidade que reúne os produtores nacionais, indicam que as exportações atingiram 1,4 milhão de toneladas de carne e renderam 1,5 bilhão de dólares, o triplo do que se vendia cinco anos atrás. Com essa performance, o Brasil fechou o ano em primeiro lugar entre os países exportadores, superando a Austrália e os Estados Unidos, que exportaram 1,25 milhão e 1,19 milhão de toneladas, respectivamente. Agora, os produtores de carne brasileiros querem mais. Embalados pelo caso de doença da vaca louca identificado nos Estados Unidos na semana retrasada, pretendem ocupar os mercados que estão rejeitando a carne americana. Nos últimos dez dias, 31 países embargaram a compra de carne dos Estados Unidos, o que equivale a 95% do total exportado. A partir desta semana, o Ministério da Agricultura vai traçar uma estratégia para permitir que a carne brasileira conquiste mais compradores. "Com a ausência dos Estados Unidos, o mercado internacional de carne deve passar por um rearranjo", explica José Vicente Ferraz, sócio da consultoria de agronegócios FNP. "Isso abrirá um espaço enorme para a carne nacional, mesmo que alguns países não comprem o produto brasileiro por exigências sanitárias", avalia Ferraz. A Austrália deve alterar suas exportações e direcionar boa parte do que produz para o Japão e a Coréia do Sul, os maiores compradores dos Estados Unidos. O Brasil tem chance de crescer nas brechas deixadas pelos australianos.

As doenças fitossanitárias e as crises de produção em outros países têm beneficiado muito as exportações brasileiras. A partir de 1996, a epidemia de vaca louca na Inglaterra abriu as portas da Europa e de mercados que eram atendidos pelos europeus. Em 2001, o Chile parou de comprar carne da Argentina por causa de uma epidemia de febre aftosa e passou a comprar a carne bovina brasileira. No ano passado foi a vez de problemas climáticos dizimarem boa parte do rebanho americano e do australiano, o que deu outro empurrão nas exportações brasileiras. O resultado é que há quatro anos o Brasil vendia carne em quarenta mercados internacionais e hoje está presente em mais de 100. A doença da vaca louca é uma das piores ameaças à pecuária. É mortal tanto para os animais como para quem consome a carne contaminada. Desde que foi descoberta, em 1986, causou a morte de mais de 5 milhões de animais e de pelo menos 140 pessoas na Europa. A contaminação se dá por meio de ração enriquecida com proteína animal, recurso comum na criação de gado confinado. No Brasil, a possibilidade de acontecer uma epidemia da doença é ínfima. A grande maioria dos bois é criada no pasto, comendo capim. É o chamado "boi verde", que se alimenta em pastagens.

Uma das boas notícias relativas ao aumento das exportações de carne bovina brasileira é que ele não se sustenta apenas no insucesso alheio. Seria uma posição bastante precária. Um programa de vacinação praticamente erradicou o risco de febre aftosa em 90% do rebanho, uma medida fundamental para a exportação. O Brasil é um dos países que mais utilizam a inseminação artificial, técnica que melhora o perfil genético do gado. No ano passado, cerca de 4 milhões de vacas matrizes – 10% do total – foram inseminadas. Esse é o dobro do índice americano. Ao usarem sêmen de touros com genética superior, os produtores criam animais que ganham mais peso em menos tempo. A idade média de abate do boi caiu de 4 para 3 anos, aumentando a produtividade. Em algumas fazendas, novilhos superprecoces são abatidos entre 1 e 2 anos. Os frigoríficos apostam em cortes especiais que custam mais caro e vão direto para a mesa do europeu, o maior mercado para as vendas brasileiras. Nos últimos cinco anos, o Friboi, o segundo maior frigorífico do país, aumentou em quase sete vezes o faturamento com exportações de carne. A empresa fatura mais de 1 bilhão de reais por ano, dos quais cerca de um terço é proveniente das exportações de carne enlatada e de cortes especiais. São vantagens assim que colocaram a carne brasileira em mercados como Rússia, Egito, Arábia Saudita, Israel e Argélia, países acostumados com carne de qualidade, como a européia.

 

O bife que ninguém quer

 
Fotos AFP
McDonald's na Coréia avisa que a carne é australiana. Na fazenda onde vivia a vaca doente, animais estão em quarentena

A campanha para recuperar a credibilidade da carne bovina americana chegou à Casa Branca. "Eu comi carne hoje e vou continuar comendo", declarou o presidente George W. Bush, durante o feriado de Ano-Novo. O objetivo é convencer os americanos de que não há riscos de contaminação. Os Estados Unidos têm o maior mercado consumidor de carne do mundo, que movimenta 40 bilhões de dólares por ano, e exportam 3,5 bilhões de dólares anuais. Desde a divulgação do primeiro caso da vaca louca, os principais importadores de carne americana embargaram a entrada do produto. Uma comissão de técnicos viajou para o Japão e a Coréia do Sul a fim de convencer os países a aceitar a carne, mas não teve sucesso. Na sexta-feira, o governo tentava liberar o produto no México. O argumento usado pelos americanos é que a vaca doente foi importada do Canadá há dois anos e provavelmente se contaminou em seu país de origem. É pouco. Eles precisam provar para os importadores que estão livres de uma epidemia.

 
 
 
 
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