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Especial
É de lei: o direito à
beleza
Melhores, mais acessíveis e mais
baratos, os
tratamentos estéticos se disseminam e criam
uma nova utopia: hoje, em prestações ou no
cartão, todo mundo pode ser mais bonito

Bel
Moherdaui
Fotos Pedro Rubens
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MISS
RETOQUE
Em pagamentos parcelados, Juliana Borges deu uma geral: retocou
orelhas, seios, cintura e maxilares. Ganhou o título de miss
Brasil 2001 |
Todas
as pessoas têm direito à vida e à liberdade,
rezam as cartas fundamentais das democracias. A americana vai além
e garante até o direito à busca da felicidade. Nem
as utopias mais arrebatadas, porém, falam numa conquista
que está cada vez mais se insinuando na lista de prerrogativas
da humanidade: o direito à beleza. O que era obra da natureza,
fruto do acaso genético, sem possível intervenção
humana basicamente, rosto sem marcas, corpo com medidas proporcionais,
pele viçosa, dentes perfeitos , foi sendo decifrado
e aprimorado pela medicina e pela tecnologia e agora pode ser adquirido
na clínica de estética mais próxima, com desconto
à vista ou em suaves prestações mensais. Acontece
assim que a beleza, como antes dela o automóvel, a TV em
cores, o walkman, o celular e, logo (espera-se), a TV de plasma,
se tornou artigo tão cobiçado, e por tanta gente,
que baixou do olimpo dos preços proibitivos para o maracanã
das promoções acessíveis a uma boa parte dos
mortais. No país que inventou o pré-datado, o trinta
dias fora o mês e outras obras de criatividade financeira,
a plástica em doze vezes no cartão é um dos
passaportes para a disseminação do direito à
beleza.
Não se trata aqui de comprar a estampa excepcional de uma
Gisele Bündchen ou uma Vera Fischer mesmo porque quem
imagine ser possível fazê-lo sofre de carências
que bisturi nenhum pode atender. O direito à beleza hoje
é varrer ruguinhas desde sempre consideradas inevitáveis,
empinar seios cadentes, domar dentes desalinhados. Enfim, melhorar
aquilo que a natureza nos deu e, assim, enfrentar a estrada da vida
com um pouco mais de satisfação. Todo mundo quer ser
bonito, inclusive os que dizem nunca, jamais ter pensado nessas
coisas. E quase todo mundo pode, hoje, fazer algo em favor da própria
aparência. As facilidades são tantas que até
quem aparentemente não tem o que melhorar sempre encontra
algum espaço para o aperfeiçoamento. Veja-se a beldade
gaúcha que ilustra estas páginas. Juliana Borges,
1,78 metro de altura, 58 quilos, tinha um patrimônio estético
básico e uma idéia em mente: ser miss Brasil. Para
melhorar suas chances, fez uma espécie de joint venture.
Parcelou o pagamento do material cirúrgico, enquanto seu
empresário cobriu os honorários médicos. De
uma só vez, Juliana se submeteu a três cirurgias: corrigiu
orelhas ligeiramente abertas, realizou uma lipoaspiração
e colocou prótese nos seios. Para completar, removeu algumas
pintas e fez preenchimento nos dois lados do maxilar "para dar mais
ângulo ao rosto". Em 2001, conquistou o título cobiçado.
Precisava fazer tudo isso? Provavelmente não. Mas, em existindo
a possibilidade, e ainda por cima para alguém que está
no ramo da beleza, é difícil resistir. "Acho que é
muito gostoso melhorar a aparência e isso, hoje, está
bem acessível", atesta a ex-miss, atualmente modelo.
Juliana
é prova das mudanças de comportamento que fizeram
desabar os pilares sobre os quais se apoiavam as regras da primeira
onda da era das intervenções estéticas. Eram
elas: 1) adolescentes têm espinhas e sofrerão muito
com isso; 2) menores de 20 podem, no máximo, corrigir o nariz
e as orelhas; 3) plástica de mamas, só depois de amamentar
o último filho; 4) plástica no rosto é aceitável,
sob sigilo absoluto, a partir dos 55 ou mais; 5) barriga e culote
se escondem com cinta; e 6) homem que é homem não
liga para a aparência. Nesta época de lipoaspiração,
Botox, lifting sem corte, lifting com corte mais sutil e malhação
de resultados, tudo isso parece coisa do século passado.
E é mesmo. A médica mineira Daniela Mendes tinha 28
anos, um ex-marido e uma filha quando, há pouco mais de um
ano, fez sua primeira plástica, para colocar prótese
de mama. Na mesma ocasião, aproveitou a anestesia e fez um
"miniabdômen" (lipoaspiração com retirada das
sobras de pele). "Sabe quando você sai do hospital e o peão
da obra já está mexendo? Foi assim", conta, entusiasmada.
No ano seguinte, lá estava ela de volta à mesa de
operação, dessa vez para uma lipoescultura da axila
ao joelho. "Sem dúvida, vou fazer outra no ano que vem. Só
não sei o quê talvez uma de nariz", planeja
a médica, que ainda faz drenagem linfática duas a
três vezes por semana e já passou por algumas sessões
de depilação a laser.
Nas clínicas de estética que vão de
minicentros cirúrgicos aos fundos do salão de cabeleireiro
da esquina , a lista de tratamentos é variada, os preços,
também, os métodos, mais ainda. Alguns são
tão obviamente ilusórios (como é, afinal, que
se "quebra" uma célula de gordura?) que só podem ser
atribuídos ao eterno desejo humano de encontrar respostas
fáceis para questões difíceis. Mas é
raro achar quem, não tendo caído nas mãos de
um charlatão ou cedido às promessas enganosas, saia
insatisfeito. A era da beleza para todos está em plena expansão.
"Está havendo uma espécie de socialização
da indústria da beleza e da cosmética", avalia Vera
Lúcia Marques, coordenadora da área de estética,
cosmetologia e perfumaria do Senac de São Paulo. "A oferta
de serviços não pára de crescer, e as pessoas
aproveitam." Um indício dessa revolução é
o número de profissionais dedicados à promoção
da ótima aparência. O curso de estética do Senac
do Rio de Janeiro forma 2.200 alunos por ano. No Senac de São
Paulo, que em trinta anos formou 50.000 esteticistas, organizava-se
um curso de aperfeiçoamento por ano; hoje, é mais
de um por mês. A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica
registra um total de 4.000 médicos filiados, quase o dobro
de dez anos atrás. Na conceituada Faculdade de Medicina da
Universidade de São Paulo, a plástica é, entre
as cirurgias, a especialização mais cobiçada
cinco anos antes, havia dez candidatos às quatro únicas
vagas do curso; no ano passado, foram 45.
Calcula-se que existam cerca de 5.000 clínicas de estética
só em São Paulo. A maior rede do Brasil, a Onodera,
criada em 1981 a partir de uma academia de judô, tem 51 unidades
espalhadas por São Paulo, Rio de Janeiro, Paraíba
e Paraná, nas quais oferece cerca de quarenta tratamentos,
que vão de uma simples limpeza de pele (por volta de 40 reais)
a uma sonoríssima hidrolipoclasia ultra-sônica, de
cerca de 2.000 reais que vem a ser a injeção
de soro fisiológico nas áreas de concentração
de gordura, seguida de aplicação de ultra-som com
o fim de promover a celebrada "quebra" das células de gordura.
Os procedimentos na Onodera podem ser parcelados em até seis
vezes sem juros. "Todo mundo cultua o corpo e a beleza. Nós
conseguimos mostrar que os tratamentos estéticos são
acessíveis", orgulha-se Lucy Onodera, diretora executiva
da empresa.
Das salas de cirurgia aos consultórios dos dentistas, da
lipo e do Botox aos tratamentos antiacne e à dupla imbatível
ginástica-dieta, há muito que fazer em prol de uma
figura mais bonita. "Os tratamentos de odontologia estética
deixaram de ser coisa de rico e estão acessíveis à
classe média", afirma o dentista paulista Fábio Bibancos,
que cuida do sorriso de Ana Paula Arosio, Fabio Assunção
e Marcello Antony, entre outras estrelas. Acessíveis, em
termos dentes perfeitos continuam caros, embora bem menos
que antigamente. Segundo Bibancos, um tratamento com aparelho ortodôntico
custa em torno de 1.200 reais, com manutenção de 120
a 150 reais por mês. "Dez anos atrás, só o aparelho
custava cerca de 2.000 dólares e tinha de ser importado",
compara. No campo da cirurgia estética, as técnicas
evoluíram, as cicatrizes e o tempo de recuperação
diminuíram e os preços, para alegria geral, estão
caindo. "Diversos fatores têm contribuído para reduzir
custos, como o fato de nem sempre o paciente precisar ficar internado
e quase não se usar mais anestesia geral. Além disso,
é possível negociar e parcelar o pagamento do cirurgião,
do anestesista e da clínica", explica Luiz Carlos Garcia,
presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica.
Se nem isso for suficiente para a sonhada recauchutagem, há
empresas que financiam as cirurgias em até 48 vezes, funcionando
como intermediárias entre médicos (aqueles devidamente
registrados em seu cadastro) e pacientes que disponham de pouca
verba. A Master Health, de São Paulo, intermedeia cerca de
2.500 cirurgias por ano; a Higiia, de Santa Catarina, contabiliza
400 cirurgias anuais. As formas de pagamento incluem financiamento
bancário e, em muitos casos, uma inexorável carência
exige que metade do pagamento esteja quitada antes de ser marcada
a operação. "Antigamente, só fazia plástica
quem era da classe A ou, pelo menos, da B. Nós atendemos
auxiliar de escritório, ascensorista, empregada doméstica",
diz Susete Moreira, diretora da Master Health.
As associações médicas de elite evidentemente
não estimulam esse tipo de financiamento. "Essas empresas
mercantilizam a relação médico-paciente. Quem
tem contato com o paciente é a empresa, não o cirurgião,
o que é prejudicial para ambos", alerta o médico Garcia,
da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. O alerta, no
entanto, não dissuade quem sonha com a plástica a
prestação. A gaúcha Bárbara Reiter,
36 anos, que aparece na capa de VEJA, conta que financiou sua cirurgia
e cuidou, sim, da relação médico-paciente:
não gostou do primeiro cirurgião indicado pela empresa
e exigiu consultar-se com um segundo, que lhe agradou. Médico
escolhido, colocou prótese de silicone e pagou em doze parcelas
de 300 reais no cartão de crédito. Quitada a última
prestação, lá foi ela de novo para a mesa de
operação: uma lipoaspiração e mais doze
parcelas de 300 reais no cartão. Bárbara ainda parcelou
aplicações de Botox, preenchimento de vincos e peeling.
"Deus não foi muito generoso comigo. Tenho de fazer o melhor
que posso com a matéria-prima de que disponho", analisa,
muito pragmaticamente.
Fazer
uma plástica, gostar e repetir virou esporte nacional. "Calculo
que metade de meus pacientes volte para uma segunda cirurgia", diz
o cirurgião Volney Pitombo, do Rio de Janeiro. E ainda levam
as amigas, entusiasmadas com os resultados alegremente propagados.
É difícil acreditar, mas houve um tempo em que fazer
plástica era meio vexaminoso, por ranço moralista,
que via isso como uma futilidade condenável, ou desvio esquerdista,
pelo qual as mulheres eram consideradas vítimas de uma pérfida
indústria da beleza fadada a perpetuar sua exploração.
Até a especialidade médica não era bem vista.
"Nos anos 50, quando comecei, a cirurgia plástica era uma
especialidade nova e ainda desconhecida por muitos médicos",
lembra Ivo Pitanguy, um dos mais antigos e conhecidos cirurgiões
plásticos do país. "Existia um certo preconceito,
como se o cirurgião plástico fosse menos médico
que os outros", confirma o gaúcho Mauro Deos, 43 anos, no
ramo há quinze. Atualmente, cirurgião plástico
é praticamente uma celebridade e as operadas trocam idéias
com as amigas sobre o antes, o durante e o depois da cirurgia. A
funcionária pública Lilian Costa Cardoso, 44 anos,
duas a três vezes por ano viaja de Criciúma, em Santa
Catarina, até Porto Alegre, no vizinho Rio Grande do Sul,
com quatro amigas para juntas refazerem suas aplicações
de Botox e preenchimentos. "Marcamos todas no mesmo dia e uma fica
esperando a outra. Os maridos também vão, mas em dias
separados", entrega Lilian. No salão de beleza Scenario,
em São Paulo, procedimentos estéticos são feitos
mais ou menos em série: a proprietária Luciana Alvarez
uma lipoescultura, uma plástica de abdômen,
uma correção de orelhas e uma cirurgia para colocar
próteses de mama no currículo estético
inspirou sua sócia, que inspirou a esteticista, que inspirou
uma amiga e catorze clientes. "Aqui tem sempre alguém sem
blusa no banheiro, mostrando o resultado da cirurgia às outras",
diz Luciana.
Em 2003, segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica,
o Brasil atingiu a impressionante marca de 400.000 cirurgias realizadas,
mantendo-se firme na segunda posição do ranking, atrás
apenas dos Estados Unidos. Os dois países competem prótese
a prótese pela liderança nos procedimentos estéticos,
sendo que as mulheres daqui provavelmente são mais vaidosas,
mas as de lá têm mais dinheiro. De 2002 para 2003,
o mercado de Botox cresceu 40% na América Latina, onde o
Brasil é, de longe, o maior consumidor regional. Com um detalhe:
no cômputo geral, 60% do Botox vendido no mundo é utilizado
para fins terapêuticos; aqui, 65% são injetados com
fim puramente estético. A Allergan, fabricante do Botox,
calcula que 7% das brasileiras já usaram o produto desde
2001, quando ele foi autorizado para uso cosmético no país.
Próteses de silicone, outra preferência nacional que
as americanas, coitadas, estavam proibidas de usar até recentemente
por força de regulamentos do governo, também fazem
a festa dos fabricantes. A nacional Silimed registrou um salto de
9.850 unidades vendidas em 1998 para 38.000 em 2003. Não
que todas as brasileiras sejam iguais dependendo da região,
o ideal de beleza pode estar mais em cima ou mais embaixo. "A carioca,
pelo fato de expor mais o corpo na praia, quer próteses mais
volumosas e mais contorno corporal (leia-se: cintura fina, seios
e bumbum grandes). A mineira e a paulista preferem um efeito mais
natural", analisa o cirurgião plástico mineiro Alexandre
Senra, que tem consultório em São Paulo, Belo Horizonte
e Rio de Janeiro. "No Rio Grande do Sul, por causa da influência
de italianos e alemães, as mulheres têm estatura maior,
tronco mais largo e fazem muita lipo para remover gordura das costas.
Outra particularidade é a pele muito clara, por um lado mais
suscetível ao envelhecimento e, por outro, mais receptiva
a peelings, com menos risco de ficar manchada", complementa o cirurgião
Deos, presidente da regional do Rio Grande do Sul da Sociedade Brasileira
de Cirurgia Plástica.
Os
números sempre crescentes dos tratamentos estéticos
confirmam algumas verdades estabelecidas: os brasileiros tendem
a valorizar bastante a aparência, têm grande flexibilidade
cultural para encampar novidades e, claro, adoram modismos. "Tem
paciente que me liga dizendo que quer ser cobaia de qualquer novo
tratamento em estudo", conta a dermatologista Dóris Hexsel,
coordenadora do departamento de cosmiatria da Sociedade Brasileira
de Dermatologia. Nem sempre foi assim. "Quando introduzimos os tratamentos
estéticos, só as clientes européias faziam
alguma coisa", conta Monica Nishikawa, do Instituto de Fisioterapia
Mizuki, um dos mais tradicionais de São Paulo, fundado em
1954. Janine Goossens, sócia da rede de salões de
beleza Jacques Janine e responsável pela área de estética
na empresa desde sua criação, confirma: "Se eu recomendava
algum tratamento, elas se ofendiam: 'Você está querendo
dizer que minha pele não está bonita?'". Hoje, o esforço
é inverso, diz Janine: "Temos de convencê-las de que
o excesso de tratamentos também não é benéfico".
Não é mesmo. Mas, em meio a abusos eventuais, até
compreensíveis em face do natural entusiasmo diante do novo,
prevalece a constatação assim resumida por Ivo Pitanguy:
"Entre as várias conquistas do ser humano moderno está
a do direito de escolher sua aparência". Que se faça
bom uso dele.
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Envelhecer?
Depois dos 70
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NEOFEMINISMO
Leilah Assumpção: "Mulher deve fazer plástica para
agradar a si mesma" |
A
peça Fala Baixo Senão Eu Grito
foi um marco do movimento pela libertação
da mulher nos anos 70, mas a dramaturga Leilah Assumpção
não carregou nenhum dos senões do feminismo.
Hoje com 60 anos, ela leva algum tempo para listar as
intervenções estéticas a que já
se submeteu. Só de lipo, foram três, "mas
acho que não funciona muito bem, porque voltou
tudo". Também ergueu os seios, corrigiu o nariz
e, há três anos, passou por um minilifting.
Seu depoimento:
"A
oposição das feministas à plástica
era uma reação extremada aos excessos
de vaidade. Viam a cirurgia como uma coisa que a mulher
era obrigada a fazer para se encaixar nos cânones
de beleza, para agradar aos homens. Eu acho que a mulher
deve fazer plástica, sim, mas para agradar a
si mesma e só. Não é fútil,
como não é fútil vestir-se bem,
passar perfume e ir ao cabeleireiro. Fazer plástica
é se cuidar se a pessoa sente falta, deve
fazer. Eu pretendo envelhecer com dignidade dos 70 anos
em diante. Vou fazer mais um minilifting e depois deixar
que a natureza siga seu curso. Pode ser que chegando
lá eu mude de idéia, mas por enquanto
esse é o meu limite".
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Com reportagem de Tatiana Schibuola
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