Edição 1835 . 7 de janeiro de 2004

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Esporte
Isca para milionários

A caça ao marlim reúne os
endinheirados no sul da Bahia


Adriana Negreiros, de Canavieiras

 
Fotos Pisco Del Gaiso/Fotosite
ALBERT ADÈS: champanhe, perfume, toalhas mentoladas, charutos e, de vez em quando, até um peixe no anzol para animar as pescarias mundo afora

As águas profundas do litoral baiano são um ponto privilegiado para a observação de cardumes de milionários. Embarcados em lanchas suntuosas, eles torram milhões para saciar seu instinto de caça. Sua presa é o marlim-azul, um peixe que pode pesar 1 tonelada e nada a mais de 90 quilômetros por hora. Canavieiras, pequeno município de 35.000 habitantes no sul da Bahia, é um dos melhores lugares do mundo para fisgar essa presa. A menos de 30 quilômetros da costa, existe um banco de areia cuja borda se inclina e atinge até 3.000 metros de profundidade, em águas que alcançam 30 graus e têm alimentos em grande quantidade para predadores. Num único dia, o cais da cidade chega a juntar mais de 16 milhões de dólares em embarcações. Os proprietários desembolsam mais de 2.000 reais num passeio de horas e gastam pequenas fortunas para manter o iate na marina, pagar tripulação e arcar com o seguro.

O nível de sofisticação a bordo destoa do vigor da captura do marlim. "É como pegar um boi numa linha de náilon", descreve o banqueiro de investimentos Albert Adès, de 61 anos, pescador que cultua o glamour do esporte. Nascido no Cairo, Adès viveu nos Estados Unidos, na França e na Inglaterra – além do Brasil – e mantém quatro barcos, o mais caro deles de 250.000 dólares, enquanto espera que fiquem prontos outros três, no valor total de 1,5 milhão de dólares. A bordo, durante o tempo em que aguarda que um marlim encontre sua isca, ele beberica champanhe Veuve Clicquot, belisca salame italiano e queijos finos e fuma charutos cubanos, Punch ou Romeo y Julieta. Ao fim da pescaria, manda borrifar perfume francês na cabine, banha-se, veste-se com requinte e se deixa recepcionar no cais por secretárias que lhe servem mais champanhe e toalhas molhadas aromatizadas com menta.

 
Jimmy Heldt, com Karen: um navio só para levar os barcos aos melhores pontos de pesca

Fala-se de festas animadíssimas a bordo nessas pescarias, mas ninguém assume que as realiza. "Esse esporte é bruto e não combina com farra", diz o publicitário baiano Fernando Barros, de 51 anos, que pesca na companhia dos filhos Leonardo, de 24 anos, e Vítor, de 14. Outro pescador, o americano Thomas Spears, de 55 anos, dedica um fim de semana por mês a esse lazer. Pode ser no México, no Panamá, na Costa Rica ou nas águas frias do Alasca. Na Bahia, Spears participou da avaliação de um projeto de 30 milhões de dólares que pode transformar Canavieiras numa espécie de resort a ser vendido no sistema de cotas. Por 19.000 dólares, mais 200 dólares mensais, o cotista poderá passar cinco dias por ano no local, com direito a um jatinho para transportá-lo de São Paulo. Outro americano, Jimmy Heldt, de 49 anos, tem boas lembranças de Canavieiras. Campeão do torneio de pesca oceânica em novembro, foi premiado com duas cotas do empreendimento. Doou o prêmio e ficou apenas com a cabeça de um marlim que capturou. Caso raro de pescador que viaja com a patroa, Karen, Heldt possui um navio de 50 metros só para carregar os barcos que usa nas pescarias ao redor do mundo. Sua lancha Heldter Skeldter, utilizada no campeonato, está avaliada em 1,5 milhão de dólares.

Os sem-barco também podem se divertir em Canavieiras. Do aeroporto de Ilhéus até lá, o transporte em vans custa 200 reais por pessoa, ida e volta. O Ilha de Atalaia Resort cobra diárias de 236 reais para casal, e cada dia de pesca a bordo de um barco de 37 pés alugado pela empresa Artemarina custa 1100 dólares, para quatro pescadores, com tripulação, bebidas e lanches incluídos no pacote.

 
 
 
 
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