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Irã
A cidade dos mortos
Terremoto de proporções bíblicas
no
Irã devasta uma cidade histórica, Bam,
e mata metade de sua população
Reuters
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| Mulheres
de Bam, de véu na cabeça e máscara cirúrgica:
corpos enrolados em sacos |
Uma
bênção e uma maldição se aninham
ao mesmo tempo abaixo da vasta superfície do Irã.
A bênção é o petróleo, que jorra
farto e bom. A maldição também tem origem no
coração da terra: os terremotos que assolam o país
regularmente, em razão de sua localização,
sobre uma das placas tectônicas mais ativas do planeta. Quando
a terra tremeu na região sudeste do Irã, um dia depois
do Natal, a fatalidade geológica foi agravada por uma infeliz
série de coincidências. Era madrugada e todo mundo
dormia na cidade de Bam dentro de casa, o desastre sempre
é pior. Com 2 000 anos de existência e raízes
na antiga Pérsia, a cidade foi praticamente riscada do mapa.
Nos doze segundos que durou o tremor de 6,7 graus na escala Richter,
seguido por dias de caos e destruição, estima-se que
morreram mais de 40 000 pessoas quase metade da população.
Tudo veio abaixo, as construções novas, porém
vulneráveis, e as antigas, erguidas com a milenar técnica
dos tijolos de barro. Além de frágeis, eles se dissolvem
numa nuvem de poeira que sufoca os eventuais sobreviventes. As 2
000 pessoas tiradas com vida dos escombros, inclusive uma menininha
de 6 meses que passou 37 horas protegida pelos braços da
mãe morta, foram a exceção. Como é praxe
em países pobres, o socorro foi lento e desorganizado. Para
piorar, os organismos de assistência, já escassos,
concentram-se no norte do país, onde os terremotos são
mais freqüentes havia mais de 1 000 anos a terra não
tremia tão violentamente em Bam, cidade cuja única
reivindicação a algum tipo de reconhecimento, o título
de patrimônio cultural da humanidade, deixou de existir na
prática.
Foi o segundo terremoto de grandes proporções no Irã
em menos de quinze anos. O último, em 1990, deixou 50.000
mortos. Prever tremores com antecedência ainda é um
desafio para a ciência, mas prevenir seus efeitos deletérios
é possível com dinheiro e planejamento. Um
exemplo: quatro dias antes da destruição de Bam, houve
um abalo de magnitude similar na Califórnia, onde casas,
prédios, vias públicas e pontes são feitos
de acordo com as normas de segurança específicas para
áreas geologicamente instáveis. Número de mortos:
duas pessoas. A cidade iraniana, em contrapartida, virou um cemitério
a céu aberto, com pilhas de cadáveres enrolados em
cobertores estendidos nas ruas. Os mortos tiveram de ser enterrados
rapidamente para evitar a disseminação de doenças
entre os sobreviventes, que, desabrigados, dormiam ao relento. Foram
abertas grandes valas onde eram enterradas cerca de 100 pessoas
de cada vez. Devido às dimensões bíblicas da
catástrofe, o único mandamento da religião
muçulmana que podia ser seguido era colocar os corpos virados
para Meca, a cidade santa. Quando possível, filmava-se o
rosto das vítimas, para futura identificação.
Se é possível falar em algo de bom em meio a tanto
sofrimento, o aspecto positivo foi a maior flexibilidade demonstrada
pelo Irã em receber ajuda externa. Eternamente dividido entre
moderados e radicais, o governo aceitou até equipes de resgate
americanas. O desastre serviu de pano de fundo para gestos mútuos
de boa vontade, mas o impasse continua entre os Estados Unidos cada
vez mais rígidos de George W. Bush e o regime ainda fundamentalista
do Irã, que, se não bastassem todos os seus problemas,
alimenta ambições de ter um programa secreto de armas
nucleares.
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