Edição 1835 . 7 de janeiro de 2004

Índice
Brasil
Internacional
Economia e Negócios
Geral
Guia
Artes e Espetáculos
Claudio de Moura Castro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Irã
A cidade dos mortos

Terremoto de proporções bíblicas no
Irã devasta uma cidade histórica, Bam,
e mata metade de sua população

 
Reuters
Mulheres de Bam, de véu na cabeça e máscara cirúrgica: corpos enrolados em sacos

Uma bênção e uma maldição se aninham ao mesmo tempo abaixo da vasta superfície do Irã. A bênção é o petróleo, que jorra farto e bom. A maldição também tem origem no coração da terra: os terremotos que assolam o país regularmente, em razão de sua localização, sobre uma das placas tectônicas mais ativas do planeta. Quando a terra tremeu na região sudeste do Irã, um dia depois do Natal, a fatalidade geológica foi agravada por uma infeliz série de coincidências. Era madrugada e todo mundo dormia na cidade de Bam – dentro de casa, o desastre sempre é pior. Com 2 000 anos de existência e raízes na antiga Pérsia, a cidade foi praticamente riscada do mapa. Nos doze segundos que durou o tremor de 6,7 graus na escala Richter, seguido por dias de caos e destruição, estima-se que morreram mais de 40 000 pessoas – quase metade da população. Tudo veio abaixo, as construções novas, porém vulneráveis, e as antigas, erguidas com a milenar técnica dos tijolos de barro. Além de frágeis, eles se dissolvem numa nuvem de poeira que sufoca os eventuais sobreviventes. As 2 000 pessoas tiradas com vida dos escombros, inclusive uma menininha de 6 meses que passou 37 horas protegida pelos braços da mãe morta, foram a exceção. Como é praxe em países pobres, o socorro foi lento e desorganizado. Para piorar, os organismos de assistência, já escassos, concentram-se no norte do país, onde os terremotos são mais freqüentes – havia mais de 1 000 anos a terra não tremia tão violentamente em Bam, cidade cuja única reivindicação a algum tipo de reconhecimento, o título de patrimônio cultural da humanidade, deixou de existir na prática.

Foi o segundo terremoto de grandes proporções no Irã em menos de quinze anos. O último, em 1990, deixou 50.000 mortos. Prever tremores com antecedência ainda é um desafio para a ciência, mas prevenir seus efeitos deletérios é possível – com dinheiro e planejamento. Um exemplo: quatro dias antes da destruição de Bam, houve um abalo de magnitude similar na Califórnia, onde casas, prédios, vias públicas e pontes são feitos de acordo com as normas de segurança específicas para áreas geologicamente instáveis. Número de mortos: duas pessoas. A cidade iraniana, em contrapartida, virou um cemitério a céu aberto, com pilhas de cadáveres enrolados em cobertores estendidos nas ruas. Os mortos tiveram de ser enterrados rapidamente para evitar a disseminação de doenças entre os sobreviventes, que, desabrigados, dormiam ao relento. Foram abertas grandes valas onde eram enterradas cerca de 100 pessoas de cada vez. Devido às dimensões bíblicas da catástrofe, o único mandamento da religião muçulmana que podia ser seguido era colocar os corpos virados para Meca, a cidade santa. Quando possível, filmava-se o rosto das vítimas, para futura identificação.

Se é possível falar em algo de bom em meio a tanto sofrimento, o aspecto positivo foi a maior flexibilidade demonstrada pelo Irã em receber ajuda externa. Eternamente dividido entre moderados e radicais, o governo aceitou até equipes de resgate americanas. O desastre serviu de pano de fundo para gestos mútuos de boa vontade, mas o impasse continua entre os Estados Unidos cada vez mais rígidos de George W. Bush e o regime ainda fundamentalista do Irã, que, se não bastassem todos os seus problemas, alimenta ambições de ter um programa secreto de armas nucleares.

 

 

 
 
 
topo voltar