Edição 1835 . 7 de janeiro de 2004

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Estados Unidos
Bush pós-Saddam

O presidente americano depende
mais da economia do
que de vitórias
militares para ganhar a reeleição


Diogo Schelp

AP
George W. Bush: prisão do ditador dá maior realismo ao projeto de fomentar a democracia no Oriente Médio


Na política americana, o sucesso do presidente em garantir prosperidade econômica para o país atrai mais votos do que vitórias militares. George Bush, o pai, expulsou as tropas de Saddam Hussein do Kuwait em 1991. Foi uma vitória espetacular, praticamente sem baixas entre a soldadesca americana. O único senão foi permitir que o ditador continuasse no poder em Bagdá. No âmbito doméstico, seu governo foi marcado a fogo pela recessão econômica e pelo aumento do desemprego. O resultado: perdeu as eleições para o governador de um Estado sem importância e com fama de mulherengo chamado Bill Clinton. George W. Bush, o filho, completou o que o pai queria ter feito: tirou Saddam do poder e, antes do Natal, colocou o tirano na cadeia. A questão óbvia é a seguinte: a prisão do ditador transforma a reeleição do presidente americano em fato consumado? Pela experiência paterna, ele sabe que esmagar os inimigos externos não é suficiente para os eleitores. Eles também querem prosperidade dentro de casa. E por aqui param as analogias com a trajetória de seu pai, pois o atual presidente é um caso singular. Sempre que um presidente americano entra em campanha para reeleição, o que acontece é mais um referendo sobre ele próprio do que um julgamento do opositor. Esse truísmo é levado ao extremo com George W. Bush. Ele é um caso de amor e ódio, sem muito espaço para indecisos ou indiferentes.

As pesquisas eleitorais mostram uma divisão no eleitorado quase meio a meio – a mesma das últimas eleições. O que evoluiu de lá para cá foi o radicalismo das opiniões. De modo esquemático, metade dos americanos vê Bush como o líder ideal para o momento de crise, em que a vontade da superpotência precisa se impor sobre um mundo de caos. A outra metade tem vergonha de sua rusticidade e o enxerga como um usurpador, que chegou ao Gabinete Oval apesar de derrotado na votação popular. Num artigo recente, a revista Time comparou o dilema americano à personificação em um só homem de um teste psicológico para que os eleitores decidam não apenas o presidente, mas em que tipo de nação querem viver. O país de Bush é aquele que fala grosso, anda pelo mundo com um porrete, não pede desculpas nem dá muita atenção à diplomacia. Quando assumiu o governo, em 2001, George W. Bush era ridicularizado como um caipira despreparado culturalmente, dono de um palavreado rudimentar e com uma visão de mundo simplista. Eleito em uma votação controversa, esperava-se que ao menos não atrapalhasse a já bem azeitada máquina da economia americana, da qual depende o andar da carruagem em todo o globo. Ele se mostrava pouco disposto a se embrenhar em conflitos nos confins do mundo – aliás, política externa era um assunto que parecia ausente de sua cabeça. Os atentados de 11 de setembro mudaram tudo.

AFP
O ditador preso: falta Bin Laden


Nenhum presidente americano enfrentou ataque inimigo tão devastador no coração da nação. O governo teve de formular uma nova estratégia de segurança nacional segundo a qual a maior ameaça aos Estados Unidos não são exércitos regulares, mas tecnologias de destruição na mão de uma minoria – um grupo terrorista transnacional como a Al Qaeda ou um ditador como foi Saddam Hussein. Bush dividiu o mundo entre bons e maus, entre os que estão com os Estados Unidos e os que não estão. É um maniqueísmo tolo, mas funcionou para unir os americanos em torno dos objetivos nacionais. Na nova estratégia desenvolvida pelos neoconservadores, grupo liderado pelo vice-presidente Dick Cheney, pelo secretário de Defesa Donald Rumsfeld e pela assessora de Segurança Nacional Condoleezza Rice, a regra passou a ser defender os pontos de vista americanos a qualquer custo. Afinal, para que se preocupar com o aval da ONU, se os Estados Unidos têm um poder militar maior que o de todos os outros países reunidos? Sem paciência para negociações demoradas pelo apoio de seus aliados europeus, o presidente mandou às favas a aprovação internacional e fez chover bombas em Bagdá. É um tipo novo de imperialismo, em que o que vale não é conquistar territórios, mas conquistar mercados e, além disso, impor os valores americanos de democracia e economia de mercado a nações marcadas por teocracias e ditaduras. É uma proposta positiva, mas acaba em tumulto se for imposta pelas armas. Daí a imagem de arrogante e turrão que Bush passa inclusive a aliados históricos.

Faltam dez meses para as eleições presidenciais nos Estados Unidos e Bush toca a campanha pela reeleição a todo o vapor. "Os presidentes têm vantagens tremendas em uma campanha eleitoral: nome reconhecido por toda a população, controle da organização partidária, uma vasta rede de apoio e a experiência necessária para enfrentar o embate eleitoral", diz Kathryn Dunn Tenpas, especialista em eleições americanas da Universidade da Pensilvânia. Do lado democrata, a corrida para valer começa em fevereiro com a realização das primeiras primárias para escolher o desafiante de Bush. O mais cotado para atrair os votos de oposição é Howard Dean, ex-governador de um dos menores Estados, Vermont. Seu cavalo de batalha é a oposição à guerra no Iraque. Bush e o primeiro-ministro inglês Tony Blair são acusados de terem feito a guerra no momento errado, da maneira errada e pelo motivo errado. Afinal, mesmo depois de meses de ocupação, as armas de destruição em massa, que ambos sustentavam existir no Iraque, ainda não foram encontradas. E esse era o principal argumento dos aliados para derrubar o ditador iraquiano.

 
AP
AFP
O inglês Tony Blair e soldados americanos de luto no Iraque: maior credibilidade, apesar das baixas e da reconstrução difícil

A prisão de Saddam não resolveu a questão da justificativa para a guerra, mas tornou mais realista o projeto de livrar o Oriente Médio de um déspota violento e de abrir caminho para a democracia na região. Bush e Blair pós-Saddam têm maior credibilidade porque seus soldados conseguiram, finalmente, prender um ditador acuado, humilhado e barbudo. O presidente americano estaria melhor se a presa fosse ainda mais barbuda e se chamasse Bin Laden. Afinal, foi por causa dele que tudo começou. Após a prisão do ditador, a taxa geral de aprovação do presidente subiu um pouco, sem afetar de modo significativo as intenções de voto. Em parte, isso se deve ao fato de que nove em cada dez entrevistados pelos institutos de pesquisas acreditam, com realismo, que a encrenca iraquiana está longe de ter terminado, como mostrou um levantamento do jornal Washington Post. "A peça-chave que falta a Bush para completar o quadro favorável à reeleição é o crescimento do emprego", disse a VEJA o brasileiro José Alexandre Scheinkman, professor de economia da Universidade Princeton, nos Estados Unidos. As empresas estão conseguindo aumentar a produtividade sem precisar contratar mais trabalhadores e a economia não cresce na velocidade necessária para conter o aumento do desemprego. É uma situação que os eleitores americanos não engolem com facilidade, mas mesmo isso não ofusca o favoritismo de Bush.

Em seu livro Ascensão e Queda das Grandes Potências, o historiador Paul M. Kennedy, da Universidade Yale, explica o mecanismo de funcionamento dos impérios: a nação precisa de riqueza para lutar contra seus inimigos, mas, se gastar dinheiro demais na guerra, a riqueza tende a estagnar. Segundo essa teoria, o investimento na indústria de armamento é menos estimulante a longo prazo para o crescimento da economia do que o investimento em setores que satisfazem as demandas dos consumidores. Bush tentou fazer as duas coisas. Aprovou para este ano o maior orçamento militar de todos o tempos, de 401 bilhões de dólares. E, em 2003, em vez de reduzir as despesas para financiar a guerra, criou um déficit orçamentário de 400 bilhões de dólares, equivalente a 90% do PIB brasileiro, através da redução de impostos que privilegia os contribuintes mais ricos. Com isso, Bush dilapidou o dinheiro que Bill Clinton deixou em caixa, fruto dos anos de fartura da década de 90. Depois de uma desaceleração em 2001, a economia americana voltou a crescer, e Bush garante que o corte de impostos teve um papel importante nisso. Três fatores podem atrapalhar sua reeleição: um atentado de grandes proporções nos Estados Unidos, um fracasso com muitos americanos mortos no Iraque e a incapacidade de juntar ao crescimento econômico a geração de empregos. Ou se Saddam fugir. Mas aí seria azar demais.

 

 
 
 
 
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