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Estados
Unidos
Bush
pós-Saddam
O presidente americano depende
mais da economia do
que de vitórias
militares para ganhar a reeleição

Diogo
Schelp
AP
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| George
W. Bush: prisão do ditador dá maior realismo ao projeto de fomentar
a democracia no Oriente Médio |
Na política americana, o sucesso do presidente em garantir
prosperidade econômica para o país atrai mais votos
do que vitórias militares. George Bush, o pai, expulsou as
tropas de Saddam Hussein do Kuwait em 1991. Foi uma vitória
espetacular, praticamente sem baixas entre a soldadesca americana.
O único senão foi permitir que o ditador continuasse
no poder em Bagdá. No âmbito doméstico, seu
governo foi marcado a fogo pela recessão econômica
e pelo aumento do desemprego. O resultado: perdeu as eleições
para o governador de um Estado sem importância e com fama
de mulherengo chamado Bill Clinton. George W. Bush, o filho, completou
o que o pai queria ter feito: tirou Saddam do poder e, antes do
Natal, colocou o tirano na cadeia. A questão óbvia
é a seguinte: a prisão do ditador transforma a reeleição
do presidente americano em fato consumado? Pela experiência
paterna, ele sabe que esmagar os inimigos externos não é
suficiente para os eleitores. Eles também querem prosperidade
dentro de casa. E por aqui param as analogias com a trajetória
de seu pai, pois o atual presidente é um caso singular. Sempre
que um presidente americano entra em campanha para reeleição,
o que acontece é mais um referendo sobre ele próprio
do que um julgamento do opositor. Esse truísmo é levado
ao extremo com George W. Bush. Ele é um caso de amor e ódio,
sem muito espaço para indecisos ou indiferentes.
As pesquisas eleitorais mostram uma divisão no eleitorado
quase meio a meio a mesma das últimas eleições.
O que evoluiu de lá para cá foi o radicalismo das
opiniões. De modo esquemático, metade dos americanos
vê Bush como o líder ideal para o momento de crise,
em que a vontade da superpotência precisa se impor sobre um
mundo de caos. A outra metade tem vergonha de sua rusticidade e
o enxerga como um usurpador, que chegou ao Gabinete Oval apesar
de derrotado na votação popular. Num artigo recente,
a revista Time comparou o dilema americano à personificação
em um só homem de um teste psicológico para que os
eleitores decidam não apenas o presidente, mas em que tipo
de nação querem viver. O país de Bush é
aquele que fala grosso, anda pelo mundo com um porrete, não
pede desculpas nem dá muita atenção à
diplomacia. Quando assumiu o governo, em 2001, George W. Bush era
ridicularizado como um caipira despreparado culturalmente, dono
de um palavreado rudimentar e com uma visão de mundo simplista.
Eleito em uma votação controversa, esperava-se que
ao menos não atrapalhasse a já bem azeitada máquina
da economia americana, da qual depende o andar da carruagem em todo
o globo. Ele se mostrava pouco disposto a se embrenhar em conflitos
nos confins do mundo aliás, política externa
era um assunto que parecia ausente de sua cabeça. Os atentados
de 11 de setembro mudaram tudo.
AFP
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| O
ditador preso: falta Bin Laden |
Nenhum presidente americano enfrentou ataque inimigo tão
devastador no coração da nação. O governo
teve de formular uma nova estratégia de segurança
nacional segundo a qual a maior ameaça aos Estados Unidos
não são exércitos regulares, mas tecnologias
de destruição na mão de uma minoria
um grupo terrorista transnacional como a Al Qaeda ou um ditador
como foi Saddam Hussein. Bush dividiu o mundo entre bons e maus,
entre os que estão com os Estados Unidos e os que não
estão. É um maniqueísmo tolo, mas funcionou
para unir os americanos em torno dos objetivos nacionais. Na nova
estratégia desenvolvida pelos neoconservadores, grupo liderado
pelo vice-presidente Dick Cheney, pelo secretário de Defesa
Donald Rumsfeld e pela assessora de Segurança Nacional Condoleezza
Rice, a regra passou a ser defender os pontos de vista americanos
a qualquer custo. Afinal, para que se preocupar com o aval da ONU,
se os Estados Unidos têm um poder militar maior que o de todos
os outros países reunidos? Sem paciência para negociações
demoradas pelo apoio de seus aliados europeus, o presidente mandou
às favas a aprovação internacional e fez chover
bombas em Bagdá. É um tipo novo de imperialismo, em
que o que vale não é conquistar territórios,
mas conquistar mercados e, além disso, impor os valores americanos
de democracia e economia de mercado a nações marcadas
por teocracias e ditaduras. É uma proposta positiva, mas
acaba em tumulto se for imposta pelas armas. Daí a imagem
de arrogante e turrão que Bush passa inclusive a aliados
históricos.
Faltam
dez meses para as eleições presidenciais nos Estados
Unidos e Bush toca a campanha pela reeleição a todo
o vapor. "Os presidentes têm vantagens tremendas em uma campanha
eleitoral: nome reconhecido por toda a população,
controle da organização partidária, uma vasta
rede de apoio e a experiência necessária para enfrentar
o embate eleitoral", diz Kathryn Dunn Tenpas, especialista em eleições
americanas da Universidade da Pensilvânia. Do lado democrata,
a corrida para valer começa em fevereiro com a realização
das primeiras primárias para escolher o desafiante de Bush.
O mais cotado para atrair os votos de oposição é
Howard Dean, ex-governador de um dos menores Estados, Vermont. Seu
cavalo de batalha é a oposição à guerra
no Iraque. Bush e o primeiro-ministro inglês Tony Blair são
acusados de terem feito a guerra no momento errado, da maneira errada
e pelo motivo errado. Afinal, mesmo depois de meses de ocupação,
as armas de destruição em massa, que ambos sustentavam
existir no Iraque, ainda não foram encontradas. E esse era
o principal argumento dos aliados para derrubar o ditador iraquiano.
AP
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AFP
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| O
inglês Tony Blair e soldados americanos de luto no Iraque: maior
credibilidade, apesar das baixas e da reconstrução difícil |
A
prisão de Saddam não resolveu a questão da
justificativa para a guerra, mas tornou mais realista o projeto
de livrar o Oriente Médio de um déspota violento e
de abrir caminho para a democracia na região. Bush e Blair
pós-Saddam têm maior credibilidade porque seus soldados
conseguiram, finalmente, prender um ditador acuado, humilhado e
barbudo. O presidente americano estaria melhor se a presa fosse
ainda mais barbuda e se chamasse Bin Laden. Afinal, foi por causa
dele que tudo começou. Após a prisão do ditador,
a taxa geral de aprovação do presidente subiu um pouco,
sem afetar de modo significativo as intenções de voto.
Em parte, isso se deve ao fato de que nove em cada dez entrevistados
pelos institutos de pesquisas acreditam, com realismo, que a encrenca
iraquiana está longe de ter terminado, como mostrou um levantamento
do jornal Washington Post. "A peça-chave que falta
a Bush para completar o quadro favorável à reeleição
é o crescimento do emprego", disse a VEJA o brasileiro José
Alexandre Scheinkman, professor de economia da Universidade Princeton,
nos Estados Unidos. As empresas estão conseguindo aumentar
a produtividade sem precisar contratar mais trabalhadores e a economia
não cresce na velocidade necessária para conter o
aumento do desemprego. É uma situação que os
eleitores americanos não engolem com facilidade, mas mesmo
isso não ofusca o favoritismo de Bush.
Em
seu livro Ascensão e Queda das Grandes Potências,
o historiador Paul M. Kennedy, da Universidade Yale, explica o mecanismo
de funcionamento dos impérios: a nação precisa
de riqueza para lutar contra seus inimigos, mas, se gastar dinheiro
demais na guerra, a riqueza tende a estagnar. Segundo essa teoria,
o investimento na indústria de armamento é menos estimulante
a longo prazo para o crescimento da economia do que o investimento
em setores que satisfazem as demandas dos consumidores. Bush tentou
fazer as duas coisas. Aprovou para este ano o maior orçamento
militar de todos o tempos, de 401 bilhões de dólares.
E, em 2003, em vez de reduzir as despesas para financiar a guerra,
criou um déficit orçamentário de 400 bilhões
de dólares, equivalente a 90% do PIB brasileiro, através
da redução de impostos que privilegia os contribuintes
mais ricos. Com isso, Bush dilapidou o dinheiro que Bill Clinton
deixou em caixa, fruto dos anos de fartura da década de 90.
Depois de uma desaceleração em 2001, a economia americana
voltou a crescer, e Bush garante que o corte de impostos teve um
papel importante nisso. Três fatores podem atrapalhar sua
reeleição: um atentado de grandes proporções
nos Estados Unidos, um fracasso com muitos americanos mortos no
Iraque e a incapacidade de juntar ao crescimento econômico
a geração de empregos. Ou se Saddam fugir. Mas aí
seria azar demais.
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