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Ministério
Quem
vai aplaudir
depois da troca?
Na reforma, o PT atrai o PMDB.
O
ministério fica igual, mas a base
do governo cresce no Congresso

Policarpo
Junior
Dida Sampaio/AE
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| O
presidente Lula, com os ministros: para dar cargos ao PMDB,
o governo vai ter de dispensar alguns personagens desta foto
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O PMDB está prestes a virar o primeiro partido político
da era democrática a completar vinte anos consecutivos de
poder federal. Desde 1985 se aloja no poder, às vezes ocupando
poltrona na primeira classe, às vezes numa vaga do compartimento
de cargas. Nesta semana, se tudo ocorrer de acordo com o previsto,
o PMDB finalmente fará seu ingresso formal na base de apoio
de Lula, no bojo da primeira reforma ministerial do PT. O partido
já apresentou ao Palácio do Planalto uma lista com
nomes de dez peemedebistas para ocupar cargos e, com a nomeação
dos indicados, estará atendida a regra básica do ritual
que, na política brasileira, marca a adesão ao governo.
Com isso, o esquadrão palaciano no Congresso sobe para 331
deputados e 54 senadores, presenteando o Planalto com a possibilidade
matemática de aprovar qualquer matéria. A ampliação
da base parlamentar do governo não é a principal mudança
produzida pela adesão do PMDB. É a única.
A exemplo dos partidos que o antecederam, o PT promove a mesma barganha
de cargos por votos. Essa operação tem uma grande
utilidade prática. Ela acaba com a incerteza que sempre existe
às vésperas de uma votação decisiva
para o governo no Congresso. Ter maioria entre os parlamentares
dá grande estabilidade política ao governo e maior
fluidez na realização dos projetos que ele tem para
o país. Mas essa troca de cargos por votos no Congresso em
nada altera a filosofia do governo, como ocorre em democracias maduras.
Em seu primeiro ano no governo, o PT aparelhou a máquina
estatal, num processo tão voraz, de ares soviéticos,
em que até secretárias, ascensoristas e zeladores
chegaram a ser substituídos por petistas nas repartições
públicas. Para abrigar a multidão de companheiros,
o governo fez nomeações pouco técnicas, criou
ministérios desnecessários e fatiou atribuições
que poderiam ou deveriam estar sob comando único.
Afinal, qual a diferença essencial entre o trabalho da ministra
Benedita da Silva, da Assistência Social, e o do ministro
José Graziano, do Fome Zero, além do fato de nada
terem feito de concreto no primeiro ano de governo? Mesmo entre
os mais bem informados, é difícil alguém ser
capaz de explicar o que faz o ministro das Cidades, Olívio
Dutra. Ou quais são as atribuições ministeriais
repetindo: ministeriais da ex-senadora Emília
Fernandes, da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres.
A reforma ministerial seria uma boa ocasião para enxugar
a máquina federal, extinguindo meia dúzia de ministérios
e fundindo outra meia dúzia. Mas tudo indica que a reforma
se limitará a despachar alguns ministros de volta para casa
com o objetivo de ocupar seus cargos com peemedebistas, sem nenhuma
alteração na genética do poder. Espera-se apenas
que os novos ministros evitem copiar o exemplo do PT, introduzindo
o maior número de apaniguados possível dentro de suas
pastas.
Nas democracias desenvolvidas, as alianças costumam se materializar
na campanha eleitoral, lastreadas em discussões programáticas,
e raramente se modificam depois do pleito. Na Inglaterra, se os
conservadores decidissem apoiar um governo trabalhista, o saldo
não se limitaria a uma nova contabilidade parlamentar, mas
produziria reflexos sociais importantes. No Brasil, isso não
acontece. Durante a gestão de Itamar Franco, por exemplo,
o PFL resolveu sentar-se na bancada da oposição
e tal postura teve alguma repercussão no mundo parlamentar,
com pefelistas tentando complicar a vida do governo no Congresso,
mas não produziu uma única mudança na sociedade
em geral. As reivindicações do movimento sindical,
os pleitos do empresariado, as agitações rurais
tudo ficou tal como era antes. Agora, com a chegada do PMDB ao governo
Lula, o fenômeno deve repetir-se.
"Na
Europa, os partidos se unem, principalmente, com base em programas
sociais de interesse comum. No Brasil, a discussão se limita
a cargos", diz Moreira Franco, um peemedebista contrário
ao desembarque de seu partido na base do governo. Essa característica
se deve, em parte, ao perfil do próprio PMDB, legenda que,
nascida como uma frente parlamentar contra a ditadura militar, perdeu
gradualmente a identidade com a volta do regime democrático.
"Hoje, o partido é formado basicamente por políticos
profissionais", diz Antônio Augusto de Queiroz, diretor do
Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), entidade
que acompanha a vida do Congresso. Em grande medida, porém,
o fenômeno é resultado do processo histórico
de formação dos partidos brasileiros. No Brasil, ao
contrário de países europeus, os principais agentes
sociais empresários, operários, proprietários
rurais, universitários, agricultores, intelectuais
adquiriram identidade coletiva através de suas próprias
organizações ou de seus laços diretos com o
poder federal, e não por intermédio dos partidos políticos.
Entre os maiores partidos do país, apenas o próprio
PT constitui uma exceção quanto à origem histórica,
já que surgiu como alternativa político-partidária
do sindicalismo urbano. Mas, no exercício do poder, o PT
tem-se comportado sem nenhuma peculiaridade histórica. Esse
traço recente da legenda de Lula deverá se confirmar
na próxima reforma ministerial.
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