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Brasil
O governo começa agora
A
tradição e o duro ajuste feito
no ano passado mostram que são
grandes as chances de Lula ter em
2004 um ano
melhor do que 2003

Alexandre
Oltramari
Tasso Marcelo/AE
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Lula:
2003 foi um sufoco. Obrigação de acertar em
2004
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A democracia
brasileira ainda não criou um padrão para definir
o segundo ano dos mandatos presidenciais. O sociólogo Marcos
Coimbra, do Instituto Vox Populi, costuma afirmar que buscar esse
padrão é quase como fazer pesquisa de opinião
pública ouvindo apenas meia dúzia de pessoas. "É
o ônus de uma tradição democrática muito
curta. Dos cinco presidentes que o Brasil teve depois da redemocratização,
em 1985, dois não se elegeram pelo voto direto", diz. Na
história política de um país, dezoito anos
é mesmo um tempo exíguo, em especial se nesse período
se viveu até a rara experiência de um impeachment presidencial,
mas alguns ensinamentos já podem ser extraídos
e um deles indica que o segundo ano dos presidentes brasileiros
costuma ser melhor que o primeiro. Com variações de
intensidade, foi o que aconteceu no decorrer da era democrática,
de José Sarney ao segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso.
É nessa fase que o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva entra agora e levando ao seu lado a tendência
favorável da história recente e o começo efetivo
de seu governo. Sim, o governo Lula está começando
agora, já que no primeiro ano o presidente e os ministros
dedicaram toda a sua energia à anulação do
clima de instabilidade, provocado pelo próprio temor da eleição
de um governante petista.
Nos
próximos doze meses, Lula terá de enfrentar uma gama
ampla de desafios da mudança da legislação
trabalhista à autonomia do Banco Central, da necessidade
premente de impulsionar o crescimento ao combate ao desemprego ,
mas contará com uma vantagem relevante: seu governo não
precisa mais provar sua capacidade para comandar a economia e evitar
o naufrágio das finanças públicas. A administração
petista colheu um belo resultado nesse campo. Aplicou um severo
ajuste fiscal e reverteu os maus números da economia a patamares
anteriores à campanha presidencial. Em alguns casos, alcançou
desempenho até superior, como na queda do risco Brasil e
na valorização dos títulos públicos
no exterior. Além disso, conseguiu concluir reformas fundamentais,
como a previdenciária e a tributária, às quais,
aliás, o PT opôs cerrada oposição durante
o governo anterior. Por tudo isso, por ter desobstruído o
terreno e acumulado um bom capital de credibilidade na administração
da economia, o governo começa para valer agora. E sob condições
mais favoráveis que as da época da posse.
Paulo Pinto/AE
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Antonio
Palocci: desafio é crescer sem inflação
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Especialistas ouvidos por VEJA dizem que 2004 será um ano
melhor para alguns, muito melhor que o anterior. Outro
grupo de analistas consultados pela revista ajudou a compor o quadro
abaixo, em que se listam os principais desafios que o governo enfrentará
neste ano, tendo como objetivo central promover o crescimento econômico
sustentado. "É hora de deixar a macroeconomia de lado e se
concentrar em medidas que tragam resultados rápidos em duas
áreas: investimentos e queda responsável dos juros",
diz o ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega, sócio
da consultoria Tendências. Todos os especialistas se referem,
por exemplo, à necessidade de produzir um ambiente de segurança
para atrair os investidores estrangeiros e, nesse quesito, mencionam
a importância da autonomia do Banco Central. Como, de vez
em quando, ainda há vozes dentro do próprio governo
pregando atalhos exóticos para chegar ao crescimento, a autonomia
do BC seria um obstáculo às aventuras, e deixaria
o Brasil mais atraente para o capital externo do que países
concorrentes. "O que se deve buscar com a autonomia do BC é
uma blindagem institucional para essa e futuras administrações.
É uma medida que diminui a vulnerabilidade do país",
diz José Guilherme Reis, pesquisador do Instituto de Estudos
do Trabalho e Sociedade (Iets) e ex-secretário de Política
Econômica
Pouco
se fala, no entanto, de um tema antes recorrente, a redução
do tamanho do Estado e do poder do Executivo. As melhores experiências
mundiais de boa governança apontam para o fortalecimento
do papel regulador do Estado em moldes contrários ao que
tem sido feito no Brasil ou seja, aqui se tenta aumentar
o poder de Brasília sobre as agências reguladoras,
enquanto nos países mais avançados a tendência
é tolher o poder do Executivo sobre elas. Essa foi a saída
encontrada por aqueles países, como Inglaterra, Suécia
e Estados Unidos, para estabelecer a garantia do cumprimento dos
contratos. Sem essa garantia, o risco Brasil pode ir a zero que
ainda assim, com a enorme concorrência externa por investimentos,
as empresas e o governo brasileiro podem ter dificuldades crescentes
em se financiar. Aos investidores, é importante ter a segurança
de que estão firmando um contrato com o Estado brasileiro,
e não com o governo da hora.
O
projeto de regulação saído da Casa Civil, na
medida em que submete as agências reguladoras aos respectivos
ministérios, trai frontalmente essa expectativa. Nesse quesito,
a reforma do Judiciário é outro ponto relevante que
não poderá ser adiado indefinidamente. Uma reforma
não apenas agilizaria decisões judiciais e tornaria
o sistema mais eficiente, mas também poderia resultar em
garantias mais sólidas para quem nos observa de fora, com
os cofres cheios de dinheiro à procura de onde investir com
segurança. Os juízes brasileiros, na visão
das grandes corporações estrangeiras, seriam uma espécie
de justiceiros sociais, que não decidem pelo que reza um
contrato, mas pelo que lhes parece socialmente mais conveniente.
No caso mais recente, o contrato das operadoras telefônicas
com a Anatel, a agência reguladora do setor, previa reajustes
por um determinado índice, mas a Justiça, provocada
para decidir a questão, determinou a aplicação
de outro índice, que pesava menos no bolso dos consumidores.
À primeira vista, parece um contra-senso exigir que os juízes
tomem decisões ignorando o lado social das questões.
Não é essa a questão. Tornar os contratos letras
mortas ou sujeitos à cordialidade de outro magistrado acaba
encarecendo todo o processo empresarial de tal modo que o custo,
cedo ou tarde, será repassado para os consumidores a quem
os juízes pensam estar protegendo. "Uma agenda definidora
de país responsável tem de incluir obrigatoriamente
o que chamamos de marco regulatório", diz Paulo Leme, economista
do banco de investimentos Goldman Sachs, de Nova York.
O
governo Lula ainda enfrentará, neste ano, o desafio de conjugar
uma retomada econômica responsável com as malícias
de um ano eleitoral. É provável e desejável
que o governo dê ênfase à área
social, na qual o PT prometia uma revolução mas produziu
apenas um desastre, a começar pela estréia mambembe
de seu principal projeto social, o Fome Zero. É uma medida
provável porque a área social talvez seja o único
terreno capaz de manter a base do PT unida e coesa, condição
essencial para enfrentar a disputa eleitoral do ano. E é
também uma medida desejável diante da desoladora paisagem
social do país. As exigências do ajuste fiscal, que
felizmente o governo não dá sinais de pretender abandonar,
bem como o conjunto da atual política econômica responsável,
vão demandar criatividade do governo, pois o dinheiro continuará
escasso. O caminho mais sensato, já que gastos novos serão
difíceis, será buscar eficiência na execução
dos programas sociais, fazendo com que o dinheiro público
realmente chegue ao destinatário final.
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Os
desafios de Lula neste ano
Crescimento econômico
No ano passado, estima-se que o Brasil tenha crescido
0,2%, e, neste ano, as projeções variam
de 2% a 4% do PIB. O desafio do governo, para crescer,
é aumentar a produção industrial,
atrair investimentos e ampliar as exportações.
O sucesso da estabilização econômica
do ano passado facilita a retomada do desenvolvimento,
mas, sozinho, não é garantia de prosperidade
Desemprego
A taxa de desemprego só tem crescido e, em 2003,
atingiu seu ponto mais alto, chegando a 15% em São
Paulo, segundo o IBGE. Os sinais de retomada da atividade
econômica devem reduzir o desemprego, mas é
improvável que o impacto seja significativo.
A flexibilização das leis trabalhistas,
que facilita tanto a contratação quanto
a demissão, pode alterar esse quadro
Diplomacia
No primeiro ano do governo Lula, a diplomacia brasileira
optou por uma linha que produz mais barulho que resultado,
em especial quando prioriza relações com
a África e com o roteiro de ditaduras do Oriente
Médio e emperra as negociações
da Alca. A diplomacia tem o desafio de retomar o pragmatismo
econômico, no qual as relações com
os Estados Unidos e
a Europa exercem um papel absolutamente decisivo
Custo das transações
Tudo o que o governo fizer para reduzir o custo das
transações econômicas terá
repercussão positiva. A Lei de Falências,
que inibe a ação de credores privados,
precisará ser mudada. O respeito aos contratos,
com a plena garantia de seu cumprimento, é outro
dado fundamental para reduzir riscos e, conseqüentemente,
baratear custos
Área social
No
campo social, em que se prometia uma revolução,
o governo fez pouco e mal, a começar pelo vexame
inicial e desenvolvimento lentíssimo do Fome
Zero. O desafio do governo será avançar
na área social, talvez o único terreno
em que tenha chance de produzir coesão dentro
do PT, mesmo diante das limitações impostas
pelo ajuste fiscal
Vulnerabilidade externa
Com
uma economia fortemente dependente do capital externo,
o governo terá um desafio duplo pela frente:
impulsionar ainda mais as exportações,
que chegaram a 72 bilhões de dólares no
ano passado, e ao mesmo tempo tentar reduzir a vulnerabilidade
brasileira às alterações do cenário
externo. O primeiro passo, nesse quesito, pode ser a
recomposição das reservas cambiais do
Banco Central
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Com reportagem de Eduardo Salgado
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