Entrevista Alejandro Toledo

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O anti-Fujimori

O favorito para ser o próximo presidente do
Peru diz que de seu antecessor preservará
apenas as reformas econômicas

Raul Juste Lores

 
AP
"É possível ter preocupação social e dirigir a economia com responsabilidade"

Único político capaz de enfrentar Alberto Fujimori no auge de seu poder, o economista Alejandro Toledo tem boas chances de se eleger presidente do Peru nas eleições marcadas para abril do próximo ano. Com a renúncia de Fujimori, refugiado no Japão, e o sumiço de seu braço direito, Vladimiro Montesinos, o ex-chefe do serviço de inteligência estatal, o país vive um momento de transição. Toledo encarna melhor do que ninguém o sentimento anti-Fujimori e já está em campanha aberta para ocupar a cadeira presidencial. Com 30% das intenções de voto, Toledo fala e age como se fosse candidato único das oposições. Filho de índios que passou a infância engraxando sapatos para completar o orçamento da família, Toledo tirou a sorte grande ao ganhar uma bolsa para estudar nos Estados Unidos. Formou-se economista, trabalhou no Banco Mundial, deu aulas em Harvard e voltou ao Peru para liderar a oposição a Fujimori. Agora está na iminência de se tornar o primeiro descendente das tribos nativas a chegar à Presidência do Peru, um país onde 85% da população é constituída de cholos, como são chamados os índios e mestiços peruanos, em contraste com os pitucos, os brancos da aristocracia de ascendência européia. Na semana passada, Toledo recebeu VEJA em sua bela casa, situada em um condomínio fechado de Lima, onde seus vizinhos são os pitucos, que, ele acredita, ainda temem um cholo no poder.

Veja – Os defeitos todos sabem quais são. Apesar disso, o senhor reconhece algo de bom que Fujimori tenha feito?
Toledo –
Reconheço que ele dirigiu bem a economia em seu primeiro mandato. Reduziu a hiperinflação de 7.000% para os 3% ou 4% de agora, e reinseriu o Peru na comunidade financeira internacional. Reconheço também que avançou muito na luta contra o terrorismo e fez bem em selar acordos fronteiriços com Chile e Equador. São conquistas importantes de meu principal adversário. Mas ele apagou com a mão direita o que fez com a esquerda. Por manter a corrupção e a ditadura, foi obrigado a sair do governo pela porta de trás e nem teve coragem de renunciar aqui.

Veja – Como se poderá desmantelar o esquema de poder armado por Fujimori e por Vladimiro Montesinos, seu principal conselheiro e elo com os militares?
Toledo – Os gângsteres poderosos de Fujimori e Montesinos, que agiam como gêmeos siameses, tinham tudo na mão, as Forças Armadas, o Poder Judiciário, o Ministério Público, o Tribunal Constitucional. Esse esquema terá de ser desmontado antes que o presidente a ser eleito em abril assuma. Não será fácil, mas conheço oficiais honestos, preocupados com a credibilidade das Forças Armadas e que deverão chegar à cúpula de comando agora.

Veja – O governo brasileiro errou ao reconhecer a vitória de Fujimori nas eleições?
Toledo – Fujimori foi protegido por alguns governos da América Latina. O argumento do presidente brasileiro para respeitar o resultado das eleições fraudadas foi o de que ele não concorda com intervenções externas. Entendo a posição dele, mas discordo do argumento. Não gosto de ficar olhando para o passado. O que foi feito, feito está. Há três semanas, tive uma reunião extraordinariamente produtiva e franca com o presidente Cardoso. Ele teve a generosidade de me receber, havia algumas contas pendentes e eu fui o mais franco e respeitoso possível com ele. O fato é que Fujimori não cumpriu o que prometeu no que diz respeito à democratização do Peru e o presidente do Brasil acabou desiludido com ele.

Veja – Então o senhor é favorável a intervenções externas?
Toledo – Se você diz que o Brasil é a favor do livre comércio, das finanças e da economia globalizadas, mas, quando chega o tema da democracia, alega que isso é assunto interno de cada país, eu discordo. Você não pode ser seletivamente globalizado. Se há uma razão que justifica a globalização é a democracia, a liberdade e os direitos humanos. Sim, que venham o FMI, a internet, a CNN e a globalização. Mas que venha a democracia também, ora. A democracia e os direitos humanos não têm fronteiras nem nacionalidade.

Veja – Peru e Brasil têm alguma coisa em comum?
Toledo – Temos muitos interesses comuns. Temos com o Brasil nossa maior fronteira. A estrada Brasil–Peru, por exemplo, permitirá que mercadorias brasileiras sejam exportadas para a Ásia sem passar pelo Canal do Panamá. O Brasil compra fosfato do Marrocos a um preço muito caro e o Peru pode exportá-lo em melhores condições. Além disso, temos de enfrentar juntos o problema da pobreza e o desafio de fortalecer as instituições democráticas na América Latina.

Veja – Se o senhor for eleito presidente, o Peru vai pleitear o ingresso no Mercosul?
Toledo – Sim. Sem prejuízo para as negociações da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), trataria de persuadir os demais sócios do Pacto Andino a se incorporar ao Mercosul. Juntos, a comunidade andina e os países do Mercosul podem posicionar melhor seus produtos na Europa e na Ásia.

Veja – Os peruanos se habituaram ao assistencialismo de Fujimori e esperam que o próximo presidente faça a mesma coisa. O senhor não teme decepcionar seu eleitorado suspendendo esse tipo de política?
Toledo – Fujimori deveria sentir-se profundamente envergonhado por ter criado uma nova categoria social, a classe das pessoas totalmente dependentes do governo. Eu me rebelo contra isso. Reconheço que há bolsões de pobreza extrema que me preocupam, compostos de minha gente. Como eu, 95% desses pobres do Peru profundo são cholos, como são chamados os índios e os mestiços. Mas nunca perdoarei Fujimori por ter tentado roubar o orgulho e a dignidade das pessoas, dando peixe em vez de lhes ensinar a pescar. Com o assistencialismo, Fujimori chantageava o povo.

Veja – Mas como se pode alimentar esses famintos, sem cair no assistencialismo?
Toledo – Vida digna se conquista com trabalho, não com um prato de comida. Temporariamente, temos de dar comida. Mas o povo não quer esmola, quer trabalhar.

Veja – Fujimori foi maliciosamente associado ao neoliberalismo pela esquerda latino-americana. E o senhor, como se classifica?
Toledo – Sou um defensor da terceira via, adaptada à América Latina e ao Peru. Não somos a Inglaterra, nem a Alemanha, claro. Mas é possível dirigir a economia com responsabilidade, ter uma política fiscal e monetária disciplinada, manter os preços estáveis, não gastar mais do que se arrecada, dar a devida importância ao setor privado, favorecer as privatizações, reativar o consumo interno e as exportações. Sou economista, trabalhei muitos anos no Banco Mundial, lecionei em Harvard e aprendi que não há divórcio entre a preocupação social e o manejo responsável da economia.

Veja – Mas a terceira via não está em baixa na Europa justamente por não ter conseguido realizar esse casamento?
Toledo – São realidades diferentes e eu vou adaptar essa política à realidade peruana. Sou economista, logo meu ministro da Economia terá dificuldades porque vou me intrometer o tempo inteiro. Vou usar o instrumento de política econômica mais eficaz que conheço, que é a estabilidade jurídica. Com a globalização, os capitais se movem com grande facilidade, mas procuram os países que tenham estabilidade política, econômica, social e, fundamentalmente, estabilidade jurídica. Precisamos respeitar as regras do jogo para atrair investimentos naqueles setores nos quais o Peru tem enormes vantagens comparativas, e só precisa de tecnologia para transformá-las em vantagens competitivas.

Veja – Que setores?
Toledo – A agropecuária, a agroindústria, o turismo, a pequena e microempresa, a construção, a indústria. Setores que demandam mão-de-obra intensiva, geram empregos. O governo terá políticas tributárias favoráveis para os empresários que quiserem investir na agroindústria e no turismo. Não quero mais dar comida ao povo. A economia tem de crescer para que todos tenham trabalho. Para isso, são necessárias decisões duras. Não dá para fazer tortillas sem quebrar ovos.

Veja – O senhor não se arrepende de ter renunciado ao segundo turno das últimas eleições?
Toledo – Não. Hoje tenho mais razão para saber que foi a melhor decisão. Se tivesse participado das eleições até o fim, depois que os observadores internacionais disseram que não havia condições para um pleito justo e transparente, teria me tornado cúmplice de um processo fraudulento e não teríamos alcançado o que conseguimos agora. Nossa retirada foi o início da queda da ditadura. Naquela oportunidade, abrimos a janela para deixar ver quão corrupto era o governo.

Veja – O que terá de fazer o governo de transição que acaba de ser empossado?
Toledo – Em primeiro lugar terá de consertar os rombos econômicos e morais e preencher o vazio institucional deixados pelo governo Fujimori. Desmontar o serviço secreto de Montesinos e a engrenagem fraudulenta do sistema eleitoral e da Justiça que operaram nas eleições passadas é tarefa fundamental. Lutamos muito para que o Peru voltasse a ser um país democrático, livre e regido pelo Estado de direito. Não vamos deixar agora que uma partilha de poder entre partidos que já estavam caducos arruíne tudo. A democracia é como uma planta, que precisa ser regada e cuidada.

Veja – Depois de lutar pela queda de Fujimori, não acha que seu partido deveria participar do governo de transição?
Toledo – Demos todo nosso apoio ao novo presidente, mas ele precisa de liberdade para governar com independência. O fato de termos derrubado Fujimori e Montesinos não nos dá o direito de lotear o poder. Cuidado, este é um governo transitório para desmantelar o autoritarismo e promover eleições limpas. Não é um governo para fazer campanha ou tomar partido.

Veja – Por que as pesquisas eleitorais lhe são menos favoráveis hoje do que na época das últimas eleições?
Toledo – Em abril, o destino me colocou na linha de frente para devolver ao Peru a sua liberdade. Alejandro Toledo arrastou multidões, as fez gritar pela liberdade. Isso assustou muita gente. Diziam: "Cuidado, Toledo é violento, agressivo, desestabilizador". Outros diziam: "Cholo, você é jovem, pode esperar". Eu me desgastei, é certo, mas não era minha candidatura que estava em jogo, era a democracia. Acabei provando que a teimosia vale a pena. Derrubamos um presidente.

Veja – O que sua candidatura oferece aos peruanos?
Toledo – Vou trabalhar pela unidade. Precisamos da união não só dos partidos políticos, mas da sociedade civil, em torno de um único candidato. Tudo bem que Fujimori caiu, mas agora temos outros objetivos. Temos de vencer a recessão, o desemprego, a desigualdade e a pobreza.

Veja – Por que o senhor defende a candidatura única?
Toledo – Porque vamos enfrentar desafios muito grandes. Quem vencer receberá o país totalmente destroçado. Temos de ser grandes e humildes para reconhecer que não há pessoa, homem ou mulher, que possa sozinha enfrentar tantos problemas. Já unimos o país para vencer a ditadura. Agora peço que nos unamos em nome da governabilidade, para que a economia cresça, para resolver o problema do emprego, do investimento social. Mas, se não houver um candidato de unidade nacional, competiremos sozinhos.

Veja – O senhor se sente discriminado por ser cholo?
Toledo – A elite peruana, os pitucos, ainda não consegue tragar a possibilidade de que um índio governe o Peru. Eles têm medo disso. Preferem um japonês, um japonês, a um índio do Peru profundo, mesmo que os indígenas constituam 85% da população peruana. Se ganharmos, será a primeira vez em 500 anos, desde a chegada dos espanhóis, que um índio é eleito presidente. Isso significa uma responsabilidade porque há uma enorme esperança, quem sabe até expectativas demais. Expectativa de um povo que quer ser compensado por ter sido alijado do poder durante toda sua história. Já vencemos Fujimori, também venceremos o preconceito.

Veja – Caso o senhor vença, acredita que o escritor Mario Vargas Llosa voltará ao Peru? Há lugar para ele em seu governo?
Toledo – Seria uma honra, adoraria. Temos óticas distintas em algumas coisas, mas Vargas Llosa é um general da democracia. Eu sou apenas um soldado. Ele foi um homem muito consistente lutando pela democracia, desde 1992. E é um democrata, ninguém duvida. O filho dele, Álvaro, já é um colaborador muito próximo a mim.

Veja – Que papel terá sua mulher no governo?
Toledo – Ela é uma profissional muito competente, trabalhou no Banco Mundial por dez anos, na Europa e em Israel. Conhece bem o sistema financeiro, especialmente o setor agropecuário. Não assumirá nenhum posto porque é francesa, mas será uma assessora importante. Não será uma primeira-dama tradicional.

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