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Edição 1 776 - 6 de novembro de 2002
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Luiz Felipe de Alencastro

A pompa e a
circunstância

"Bush telefonou para prestigiar Lula, mas
também para vender seus aviõezinhos,
antes que Jacques Chirac, o presidente
francês, pusesse suas manguinhas de
fora em favor da Dassault"



Ilustração Ale Setti


A eleição de Lula para a Presidência da República ocorre num cenário paradoxal. De um lado, a transferência de poder entre o atual e o futuro governo se desenrola na mais inédita civilidade. De várias partes do mundo chegam saudações à maturidade política do país. De outro lado, paira o espectro da crise econômica. De várias partes do mundo, ecoam alertas à bancarrota financeira, à retaliação dos "mercados" contra o veredicto das urnas.

A extravagância da situação aparece retratada nas declarações de Paul O'Neill, secretário do Tesouro dos Estados Unidos. No ano passado, O'Neill dissera que a Alcoa – empresa estabelecida no Brasil e dirigida por ele há alguns anos – havia incorporado à modernidade operários brasileiros que "viviam no século XIV". Agora, quando um ex-metalúrgico chega à Presidência, O'Neill adverte que os mercados examinarão cuidadosamente as declarações de Lula "para assegurar-se de que ele não é uma pessoa maluca". Há mesmo muita maluquice no ar. Tivemos uma boa prova disso, logo no dia seguinte à eleição presidencial. Ao felicitar Lula, o presidente Bush, num telefonema de quinze minutos – descontado o tempo da tradução sobraram uns sete minutos de conversa –, deu uma cavadinha em favor dos aviões americanos F-16, da Lockheed, concorrendo à licitação da FAB. Trata-se de um contrato de 800 milhões de dólares. Empresas de vários países estão no páreo, num jogo pesado que transcorre há algum tempo (veja-se o site www.defesanet.com.br).

No ano passado, Lula tomou posição em favor do avião Mirage 2000 Mk2, da firma francesa Dassault, sócia da Embraer. Os franceses se propõem a transferir a tecnologia para a fábrica da Embraer em Gavião Peixoto (SP), destinada a tornar-se a maior unidade industrial do gênero na América Latina. Na Gazeta Mercantil (17 de setembro de 2001), Lula sublinhava as vantagens da proposta francesa, redundando na geração de empregos e na exportação futura de aviões de alta tecnologia fabricados no Brasil. No final, ele concluía: "Espero que a concorrência não se decida depois de um telefonema da Casa Branca para o Palácio do Planalto a favor dos caças americanos..." Na época, ele temia uma decisão precipitada da parte de FHC. Mas o contrato será decidido pelo próximo governo. Por isso, a Casa Branca nem esperou o novo presidente assumir suas funções no Palácio do Planalto e telefonou direto para a casa de Lula em São Bernardo. Detalhe: os F-16 são produzidos em Fort Worth, no Texas, terra de Bush.

Boa parte do noticiário brasileiro a respeito do telefonema de Bush não se referiu à conversa sobre os caças americanos. Tampouco há menção do assunto no comunicado da Casa Branca.

Nas antigas cortes européias, o tempo que o soberano dedicava a cada um dos nobres se transformava em medida de prestígio e hierarquia de nobreza. Um grande escritor francês, o duque de Saint-Simon (1675-1755), deixou oito volumes em que explica em detalhe como o cerimonial articulava o poder do rei Luís XIV sobre a nobreza na corte de Versalhes. No mundo da hiperpotência americana, um telefonema de Bush pode marcar a sina de um governante e o rumo de uma nação. Há poucas semanas, depois das eleições alemãs, Bush não ligou para felicitar o primeiro-ministro Gerhard Schroeder, manifestando assim seu desagrado pela recusa do governo alemão em engajar-se na cruzada americana contra o Iraque. Na eleição de Lula, houve gente observando quantas horas Bush levaria para felicitar o novo presidente, e cronometrando em seguida o tempo da conversa entre os dois dirigentes.

Os cálculos devem agora levar em conta que Bush telefonou para prestigiar Lula, mas também para vender seus aviõezinhos antes que Jacques Chirac, o presidente francês, pusesse suas manguinhas de fora em favor da Dassault. Como diria o duque de Saint-Simon, especialista em manguinhas e cortes imperiais, é preciso sempre fazer uma distinção entre a pompa e as circunstâncias do poder político.

 

Luiz Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris – Sorbonne (lfa@workmail.com)


 
 
   
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