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Luiz
Felipe de Alencastro
A pompa e a
circunstância
"Bush
telefonou para prestigiar Lula, mas
também para vender seus aviõezinhos,
antes que Jacques Chirac, o presidente
francês, pusesse suas manguinhas de
fora em favor da Dassault"
Ilustração Ale Setti
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A eleição de Lula para a Presidência da República
ocorre num cenário paradoxal. De um lado, a transferência
de poder entre o atual e o futuro governo se desenrola na mais inédita
civilidade. De várias partes do mundo chegam saudações
à maturidade política do país. De outro lado, paira
o espectro da crise econômica. De várias partes do mundo,
ecoam alertas à bancarrota financeira, à retaliação
dos "mercados" contra o veredicto das urnas.
A extravagância
da situação aparece retratada nas declarações
de Paul O'Neill, secretário do Tesouro dos Estados Unidos. No ano
passado, O'Neill dissera que a Alcoa empresa estabelecida no Brasil
e dirigida por ele há alguns anos havia incorporado à
modernidade operários brasileiros que "viviam no século
XIV". Agora, quando um ex-metalúrgico chega à Presidência,
O'Neill adverte que os mercados examinarão cuidadosamente as declarações
de Lula "para assegurar-se de que ele não é uma pessoa maluca".
Há mesmo muita maluquice no ar. Tivemos uma boa prova disso, logo
no dia seguinte à eleição presidencial. Ao felicitar
Lula, o presidente Bush, num telefonema de quinze minutos descontado
o tempo da tradução sobraram uns sete minutos de conversa
, deu uma cavadinha em favor dos aviões americanos F-16,
da Lockheed, concorrendo à licitação da FAB. Trata-se
de um contrato de 800 milhões de dólares. Empresas de vários
países estão no páreo, num jogo pesado que transcorre
há algum tempo (veja-se o site www.defesanet.com.br).
No ano passado,
Lula tomou posição em favor do avião Mirage 2000
Mk2, da firma francesa Dassault, sócia da Embraer. Os franceses
se propõem a transferir a tecnologia para a fábrica da Embraer
em Gavião Peixoto (SP), destinada a tornar-se a maior unidade industrial
do gênero na América Latina. Na Gazeta Mercantil (17
de setembro de 2001), Lula sublinhava as vantagens da proposta francesa,
redundando na geração de empregos e na exportação
futura de aviões de alta tecnologia fabricados no Brasil. No final,
ele concluía: "Espero que a concorrência não se decida
depois de um telefonema da Casa Branca para o Palácio do Planalto
a favor dos caças americanos..." Na época, ele temia uma
decisão precipitada da parte de FHC. Mas o contrato será
decidido pelo próximo governo. Por isso, a Casa Branca nem esperou
o novo presidente assumir suas funções no Palácio
do Planalto e telefonou direto para a casa de Lula em São Bernardo.
Detalhe: os F-16 são produzidos em Fort Worth, no Texas, terra
de Bush.
Boa parte
do noticiário brasileiro a respeito do telefonema de Bush não
se referiu à conversa sobre os caças americanos. Tampouco
há menção do assunto no comunicado da Casa Branca.
Nas antigas
cortes européias, o tempo que o soberano dedicava a cada um dos
nobres se transformava em medida de prestígio e hierarquia de nobreza.
Um grande escritor francês, o duque de Saint-Simon (1675-1755),
deixou oito volumes em que explica em detalhe como o cerimonial articulava
o poder do rei Luís XIV sobre a nobreza na corte de Versalhes.
No mundo da hiperpotência americana, um telefonema de Bush pode
marcar a sina de um governante e o rumo de uma nação. Há
poucas semanas, depois das eleições alemãs, Bush
não ligou para felicitar o primeiro-ministro Gerhard Schroeder,
manifestando assim seu desagrado pela recusa do governo alemão
em engajar-se na cruzada americana contra o Iraque. Na eleição
de Lula, houve gente observando quantas horas Bush levaria para felicitar
o novo presidente, e cronometrando em seguida o tempo da conversa entre
os dois dirigentes.
Os cálculos
devem agora levar em conta que Bush telefonou para prestigiar Lula, mas
também para vender seus aviõezinhos antes que Jacques Chirac,
o presidente francês, pusesse suas manguinhas de fora em favor da
Dassault. Como diria o duque de Saint-Simon, especialista em manguinhas
e cortes imperiais, é preciso sempre fazer uma distinção
entre a pompa e as circunstâncias do poder político.
Luiz
Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris Sorbonne (lfa@workmail.com)
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