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Aviso
aos incautos:
o Brasil continua
E
mais: que
seria de
nós sem
as frases, os provérbios e as
metáforas do futebol?
Caso
não se queira mal ao governo Lula, recomenda-se deixar de lado
idéias como "novo começo", "refundação" ou
"nova era". Tais idéias são perniciosas, em primeiro lugar,
porque são grandiosas demais para ser eficazes. Têm ressonâncias
proféticas, místicas, apocalípticas demais para ter
lugar neste imperfeito mundo terreno. Em segundo lugar, num plano mais
miúdo, são perniciosas porque arriscam ocasionar atrasos
indesejáveis na implementação dos programas do novo
governo. Examinemos esses dois pontos, um a um.
As idéias de começar de novo, de partir do zero, conduzem
à de "revolução". Não se pode falar propriamente
em "revolução", no caso da vitória do presidente
Lula, porque ela se deu por meio de eleição, num ambiente
de democracia, e por "revolução" em geral se entende um
processo que se desencadeia pelo assalto súbito ao poder. Mas os
que falam em recomeço, em refundação do Brasil e
em coisas que tais acionam a corda revolucionária no sentido de
que, como nas revoluções, acreditam ter sido transposto
o umbral da nova aurora, do tempo prometido, da idade de ouro. O tempo
em que se imporá a justiça, os bons triunfarão sobre
os maus e a virtude ganhará do vício. Por aí se vê
quanto o conceito de "revolução" tem origem na religião.
Corresponde, no plano político e social, ao conceito religioso
de "conversão". A pessoa se converte para iniciar vida nova. Zera
o acervo que acumulou do passado. Zera-se. E assim cruza o umbral que
a conduzirá à recompensa, quando não ainda nesta
vida, pelo menos na outra. O recomeço, na vida política
e social, precisaria, portanto, tal como ocorre nos recomeços individuais,
de uma espécie de milagre.
O poeta francês Paul Claudel (1868-1955) conheceu a experiência
do recomeço. Foi no Natal de 1886. Até então um católico
pro forma, assistia à missa na Catedral de Notre-Dame, em
Paris, de pé, junto ao "segundo pilar à entrada do coro,
à direita, do lado da sacristia", segundo descreveu, e ouvia o
Magnificat, quando foi invadido por um benfazejo turbilhão
interior. "Em um instante meu coração foi tocado, e eu acreditei."
Há de se convir, no entanto, que não é com todo mundo,
nem a toda hora, que ocorrem milagres. Até a Cúria romana
é cautelosa no reconhecimento deles. E se é assim no plano
individual, em que bastam a fé e a disponibilidade espiritual de
uma só pessoa, com muito mais razão o será no plano
político e social, em que se precisará da fé e da
disponibilidade espiritual de muitos. Lamenta-se informar que o Brasil
não vai começar de novo. Apenas e ainda bem
o Brasil continua.
Quanto ao segundo ponto, o do atraso que a idéia de começar
tudo de novo pode acarretar aos programas de governo, teve-se uma ilustração
dele logo ao anúncio do primeiro projeto de Lula, o de combate
à fome. Ato contínuo, descobriu-se que isso já existe.
Descobriu-se, pelas reportagens de imprensa, o que a primeira-dama Ruth
Cardoso e a coordenadora dos programas de assistência social do
governo, Wanda Engel, andaram fazendo, na constituição daquilo
que chamam de Rede de Proteção Social. Houve considerável
avanço, no setor, com relação aos tempos da demagogia
populista da LBA e da corrupção das cestas básicas.
Agora que não está mais em campanha, o PT já não
precisa fazer crer que o atual governo foi tão ruim quanto insistiu
em dizer que foi, ao longo dos últimos oito anos. Não que
não se deva dar novo impulso ao combate à fome e outras
carências básicas. Mas, já que estamos numa transição
civilizada, seria de bom-tom e economizaria dinheiro e energia
que, em vez de começar do zero, fosse utilizado o que já
existe como ponto de partida.
O
ministro das Relações Exteriores, Celso Lafer, disse na
semana passada que, em matéria de negociações sobre
a Alca, sua função, agora, é "prender a bola no meio
do campo até o juiz apitar o fim do jogo". O presidente Lula, quando
instado a falar sobre o ministério, mais de uma vez comparou-se
a Felipão, na hora de escalar a seleção. Antes, na
campanha, pediu os militantes que não baixassem a guarda até
os noventa minutos do segundo tempo. Também na campanha, o candidato
Ciro Gomes, quando ia bem nas pesquisas, disse uma vez que em time que
está ganhando não se mexe. Outro candidato, José
Serra, cansou de citar o grande Didi "Treino é treino, jogo
é jogo" , ao argumentar que não subia nas pesquisas
porque a verdadeira campanha, travada no horário político
da televisão, ainda não começara. E quantas vezes
citou-se, por todo lado, a pergunta de Garrincha ao técnico: "E
o senhor combinou isso com o adversário?".
Se não fosse o futebol, como nos entenderíamos? Se não
fossem os provérbios do futebol, as frases célebres, as
metáforas nele inspiradas, nós nos veríamos, para
nos comunicar uns com os outros, mais indefesos que goleiro na hora do
pênalti, mais perdidos que time tomando olé.
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