Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 776 - 6 de novembro de 2002
Artes e Espetáculos Ensaio
 

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Índice
Seções
Brasil
Internacional
Economia e Negócios
Geral
Guia
Artes e Espetáculos
  Madame Satã, de Karim Aïnouz
Dívida de Sangue, de Clint Eastwood
Os sucessos do U2 nos anos 90
Moacyr Scliar é copiado no exterior
A Marca Humana, de Philip Roth
O Homem Duplicado, de José Saramago
Xuxa educa e lucra
C.S.I. Miami, o novo seriado da Sony
Seinfeld volta aos shows-solo

colunas
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Luiz Felipe de Alencastro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
Radar
Holofote
Contexto
VEJA on-line
Veja essa
Arc
Gente
Datas

VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Arquivo 1997-2002
Reportagens de capa
2000|2001|2002
Entrevistas
2000|2001|2002
Busca somente texto
96|97|98|99|00|01|02


Crie seu grupo




 

Aviso aos incautos:
o Brasil continua

E mais: que seria de nós sem
as frases, os provérbios e as
metáforas do futebol?

Caso não se queira mal ao governo Lula, recomenda-se deixar de lado idéias como "novo começo", "refundação" ou "nova era". Tais idéias são perniciosas, em primeiro lugar, porque são grandiosas demais para ser eficazes. Têm ressonâncias proféticas, místicas, apocalípticas demais para ter lugar neste imperfeito mundo terreno. Em segundo lugar, num plano mais miúdo, são perniciosas porque arriscam ocasionar atrasos indesejáveis na implementação dos programas do novo governo. Examinemos esses dois pontos, um a um.

As idéias de começar de novo, de partir do zero, conduzem à de "revolução". Não se pode falar propriamente em "revolução", no caso da vitória do presidente Lula, porque ela se deu por meio de eleição, num ambiente de democracia, e por "revolução" em geral se entende um processo que se desencadeia pelo assalto súbito ao poder. Mas os que falam em recomeço, em refundação do Brasil e em coisas que tais acionam a corda revolucionária no sentido de que, como nas revoluções, acreditam ter sido transposto o umbral da nova aurora, do tempo prometido, da idade de ouro. O tempo em que se imporá a justiça, os bons triunfarão sobre os maus e a virtude ganhará do vício. Por aí se vê quanto o conceito de "revolução" tem origem na religião. Corresponde, no plano político e social, ao conceito religioso de "conversão". A pessoa se converte para iniciar vida nova. Zera o acervo que acumulou do passado. Zera-se. E assim cruza o umbral que a conduzirá à recompensa, quando não ainda nesta vida, pelo menos na outra. O recomeço, na vida política e social, precisaria, portanto, tal como ocorre nos recomeços individuais, de uma espécie de milagre.

O poeta francês Paul Claudel (1868-1955) conheceu a experiência do recomeço. Foi no Natal de 1886. Até então um católico pro forma, assistia à missa na Catedral de Notre-Dame, em Paris, de pé, junto ao "segundo pilar à entrada do coro, à direita, do lado da sacristia", segundo descreveu, e ouvia o Magnificat, quando foi invadido por um benfazejo turbilhão interior. "Em um instante meu coração foi tocado, e eu acreditei." Há de se convir, no entanto, que não é com todo mundo, nem a toda hora, que ocorrem milagres. Até a Cúria romana é cautelosa no reconhecimento deles. E se é assim no plano individual, em que bastam a fé e a disponibilidade espiritual de uma só pessoa, com muito mais razão o será no plano político e social, em que se precisará da fé e da disponibilidade espiritual de muitos. Lamenta-se informar que o Brasil não vai começar de novo. Apenas – e ainda bem – o Brasil continua.

Quanto ao segundo ponto, o do atraso que a idéia de começar tudo de novo pode acarretar aos programas de governo, teve-se uma ilustração dele logo ao anúncio do primeiro projeto de Lula, o de combate à fome. Ato contínuo, descobriu-se que isso já existe. Descobriu-se, pelas reportagens de imprensa, o que a primeira-dama Ruth Cardoso e a coordenadora dos programas de assistência social do governo, Wanda Engel, andaram fazendo, na constituição daquilo que chamam de Rede de Proteção Social. Houve considerável avanço, no setor, com relação aos tempos da demagogia populista da LBA e da corrupção das cestas básicas. Agora que não está mais em campanha, o PT já não precisa fazer crer que o atual governo foi tão ruim quanto insistiu em dizer que foi, ao longo dos últimos oito anos. Não que não se deva dar novo impulso ao combate à fome e outras carências básicas. Mas, já que estamos numa transição civilizada, seria de bom-tom – e economizaria dinheiro e energia – que, em vez de começar do zero, fosse utilizado o que já existe como ponto de partida.

 

O ministro das Relações Exteriores, Celso Lafer, disse na semana passada que, em matéria de negociações sobre a Alca, sua função, agora, é "prender a bola no meio do campo até o juiz apitar o fim do jogo". O presidente Lula, quando instado a falar sobre o ministério, mais de uma vez comparou-se a Felipão, na hora de escalar a seleção. Antes, na campanha, pediu os militantes que não baixassem a guarda até os noventa minutos do segundo tempo. Também na campanha, o candidato Ciro Gomes, quando ia bem nas pesquisas, disse uma vez que em time que está ganhando não se mexe. Outro candidato, José Serra, cansou de citar o grande Didi – "Treino é treino, jogo é jogo" –, ao argumentar que não subia nas pesquisas porque a verdadeira campanha, travada no horário político da televisão, ainda não começara. E quantas vezes citou-se, por todo lado, a pergunta de Garrincha ao técnico: "E o senhor combinou isso com o adversário?".

Se não fosse o futebol, como nos entenderíamos? Se não fossem os provérbios do futebol, as frases célebres, as metáforas nele inspiradas, nós nos veríamos, para nos comunicar uns com os outros, mais indefesos que goleiro na hora do pênalti, mais perdidos que time tomando olé.

   
canaldecompras
O que é canal de compras
CDs DVDs Vídeos
Saraiva.com.br
 
Livros
Saraiva.com.br
Livraria Nobel
 
Ingressos
Ingresso.com.br
 
   
  voltar
   
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS