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Marajó
= Amazônia
+ Pantanal
A ilha selvagem, dos búfalos,
peixes-elétricos
e jacarés, já
tem opções para quem quer
ter dias de aventura e
noites
confortáveis de sono
Leonardo
Coutinho
Fotos Luiz Braga
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| Baía
e barcos de pescadores na região de Salvaterra: água doce ou salgada,
conforme a época do ano |
Quase todo turista que esteve na Amazônia saiu de lá com
a sensação de ter visto muito pouco de uma paisagem enorme,
com distâncias invencíveis, animais e plantas espalhados
demais. O Arquipélago de Marajó, no Pará, tornou-se
boa alternativa para quem procura um resumo amazônico num espaço
menor e ainda oferece brindes: uma pitada de pantanal, praias,
mangues e campos. Em mais de 1 000 ilhas, o cenário vai do mais
absoluto deserto a densas florestas, numa área com o mesmo clima
e a mesma latitude da região amazônica. Em 50.000 quilômetros
quadrados, tem-se um ecossistema ainda quase desconhecido. Trata-se do
maior arquipélago marítimo-fluvial do mundo, mas nem mesmo
o total de ilhas que o compõem é conhecido com precisão.
Com tanto a oferecer, faltava na área o elemento mais importante
para atrair turistas: hospedagem variada, de qualidade e com boas alternativas
de passeios. Muitos fazendeiros locais começam a suprir essa deficiência,
transformando as sedes de suas propriedades em confortáveis pousadas.
Luxo não há, mas a maioria das acomodações
não decepciona nem exige espírito aventureiro. As
pousadas nascem em razão de uma daquelas gangorras da economia.
Voltada para a pecuária, que abastece basicamente o mercado paraense,
a atividade econômica local passou nos últimos anos a sofrer
a concorrência da carne bovina de outras regiões e a bater
também nos seus limites de produtividade.
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| A
Praia do Pesqueiro, em Soure: areia branca e aspecto de paraíso do
Nordeste na foz do Rio Amazonas |
Uma
boa saída para os fazendeiros tem sido a diversificação
para o ramo hoteleiro. Algumas fazendas já operam assim. A mais
famosa é a São Jerônimo, utilizada como cenário
para as gravações do programa No Limite, da Rede
Globo. Com ar-condicionado, água quente, praia particular e quadras
esportivas, a pousada oferece pacotes que permitem conhecer de perto a
vida rústica dos vaqueiros que tocam búfalos pelos campos
do Marajó. Pode-se montar os animais, passear de canoa e pescar.
Na Fazenda Sanjo, uma das mais antigas da ilha, o visitante tem também
expedições a cavalo aos lugares mais belos das redondezas
(veja
alternativas de hospedagem no quadro).
Fisicamente, Marajó também é resultado de uma gangorra.
Uma gangorra geológica. Há 1 milhão de anos deu-se
na região o descolamento de uma placa de terra maior do que o território
da Escócia até então pregada no continente. Nesse
movimento, essa borda interna afundou e sobre ela avançou, em dois
braços, o Rio Amazonas. Esse aguaceiro tinha força para
encher uma Baía de Guanabara em minutos e arrastou floresta e animais
por centenas de hectares. Ao mesmo tempo, do lado do mar, a parte até
então submersa dessa plataforma se levantou, formando um pedaço
da ilha principal e diversas ilhotas. "Foi como se uma tábua sobre
a água recebesse peso apenas em uma das extremidades", descreve
o geólogo Paulo Edson Leal Bezerra, chefe da divisão de
geociências do IBGE. Ainda há transformações
decorrentes desse fenômeno. Plantadas sobre uma região com
intensa atividade tectônica do planeta, as ilhas mudam de tamanho,
desaparecem e nascem o tempo todo. Em imagens de satélite dos anos
70 comparadas com fotos atuais, vê-se que tanto elas como os rios
e os lagos variam de forma, de posição e de tamanho. O próprio
nível da ilha se altera, mudando o sentido de vazão das
águas, os depósitos de sedimentos e a orientação
da erosão natural.
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| Revoada
de guarás: o tom avermelhado das plumas aumenta conforme cresce seu
consumo de crustáceos |
Na
estação das chuvas, que vai de dezembro a abril, Marajó
se transforma em um grande pantanal. Com mais da metade de sua área
encoberta pelas águas, os campos tornam-se um restaurante para
aves migratórias que vêm do hemisfério norte para
se alimentar nas águas rasas. Os veículos param de circular.
Só cavalos e búfalos conseguem vencer os alagados. No passado,
esse cenário atraía outro tipo de visitante, os caçadores.
Considerada na época um dos destinos mais perigosos do Brasil,
a ilha era freqüentada por gente que, com armamento pesado, enfrentava
os temíveis búfalos selvagens. Introduzidos na ilha para
a produção de carne desde o século XVIII, muitos
animais fugiram ao longo do tempo e retomaram a ferocidade natural da
espécie. Escondido no junco dos lamaçais, dotado de um faro
extraordinário, o búfalo não dá duas oportunidades
ao inimigo. Quando ele avança, com os movimentos de um touro numa
arena, só há tempo para um tiro. Se este falhar, o caçador
tem de se atirar na água e cruzar os dedos para que o bicho continue
investindo por algum tempo contra a canoa, para que possa fugir. "Ele
é capaz de matar a chifradas", conta a fazendeira Ana Nunes, que
cresceu embalada pelas histórias dos caçadores que freqüentavam
a propriedade da família.
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| Polícia
montada: búfalos de patas engraxadas para o patrulhamento no arquipélago
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Outro
perigo oculto na lama são os jacarés, alguns próximos
dos 6 metros de comprimento. Nas mesmas águas, peixes-elétricos,
conhecidos por poraquês, têm a capacidade de liberar descargas
de até 300 volts, suficientes para abalar um animal de grande porte.
Mas tanto os peixes como os jacarés e os búfalos bravos
só podem ser problema, hoje, para os vaqueiros que trabalham nas
áreas mais ermas do arquipélago. Com os turistas, todas
as atividades são feitas em regiões seguras, onde o que
mais chama a atenção nos búfalos é a docilidade
com que se deixam montar. Servem até como montaria do policiamento
da ilha. Nesse caso, para ficarem bem apresentáveis, têm
os cascos engraxados, como se fossem botas. Numa ilha, os rebanhos podem
ser criados soltos, misturando-se os de diversas fazendas. São
marcados com pequenos cortes nas orelhas, porque os tradicionais símbolos
a ferro quente ficam invisíveis no couro enlameado. Só uma
vez por ano as manadas são separadas e levadas para as fazendas,
para a contagem e a vacinação. O grande ajudante dessa tarefa
também é um animal exclusivo da ilha, o cavalo marajoara,
pequeno e forte. Os primeiros cavalos, de origem árabe, chegaram
ao arquipélago 300 anos atrás. Foram cruzados com outras
duas raças e se tornaram tão versáteis no terreno
adverso como o chamado cavalo pantaneiro no centro-oeste do país.
Os
primeiros habitantes de Marajó foram os índios aruãs,
descendentes, segundo etnólogos, de antilhanos que chegaram à
região há 1 600 anos. Antes do descobrimento, exploradores
europeus vasculhavam a área, como fez o espanhol Vicente Yáñez
Pinzón em março de 1500. Os aruãs não agüentaram
o contato com os brancos e fugiram para a selva continental no século
XVIII. Na ilha ficaram resquícios de uma civilização
que, pelo menos em termos de arte cerâmica, tinha avançado
bastante. Alguns dos elementos gráficos das peças marajoaras
têm pontos comuns com a arte dos maias e astecas. Muitas dessas
relíquias estão expostas no Museu do Marajó, montado
pelo ex-jesuíta Giovanni Gallo com o material arqueológico
encontrado no quintal dos paroquianos.
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Cama,
comida e passeios
As
melhores opções para se hospedar na Ilha de Marajó
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| Vida
de fazenda marajoara: pôr-do-sol, cata-vento e alagados
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Hotel
Fazenda Sanjo Durante a estação das chuvas,
só se chega lá de lancha. São quatro apartamentos
para hóspedes. Tem abate de búfalos e produção
de queijo. É uma boa pedida para quem deseja acompanhar o
dia-a-dia dos vaqueiros. O pacote de três dias custa 320 reais
por casal, com pensão completa, translado e passeios.
(91) 246-2966. fazendasanjo@yahoo.com.br.
Fazenda São Jerônimo Adaptada há
dois anos para funcionar como hotel, ganhou fama no ano passado
por ter sido cenário do programa No Limite, da Rede
Globo. Tem pecuária, mas seu forte é a produção
de frutas regionais. Possui praia particular, cuja água varia
de salgada a doce, conforme a época do ano. As diárias
custam 90 reais por casal, com pensão completa e uma atividade
diária.
(91) 3741-2016. saojeronimo@canal13.com.br.
Fazenda Camburupy As cavalgadas, em vários
níveis de dificuldade, são os principais passeios
oferecidos pelo hotel. Com os vaqueiros, os hóspedes podem
aventurar-se pelos campos alagados, no meio dos búfalos.
As diárias com pensão completa custam 140 reais por
pessoa.
(91) 9969-8160. fazendacamburupy@yahoo.com.br.
Hotel Ilha do Marajó São 32 apartamentos
equipados com ar-condicionado, TV por assinatura, frigobar e água
quente. Tem piscina, boate e restaurante. O pacote de fim de semana
custa 180 reais por pessoa, com café da manhã, translado
de Belém e passeios pela cidade, pelas praias e fazendas
da região.
(91) 241-3218. www.dadoscon.com.br/himarajo.
Marajó Park Resort É o maior hotel do
arquipélago. Localizado na Ilha Mexiana, tem oitenta apartamentos
com ar-condicionado e uma área de mais de 32 000 hectares
com pista de pouso, quadra de tênis e atrações
que vão de safáris fotográficos em lagos com
jacarés a pesca esportiva de pirarucu, o maior peixe de escamas
da Amazônia. Os pacotes de quatro dias custam 1 450 reais
por pessoa, com pensão completa, passeios e translado aéreo
de Belém ao hotel.
(91) 213-7008. www.marajoparkresort.com.br.
Pousada dos Guarás Localizado na cidade de
Soure, é uma opção urbana para quem quer conhecer
o arquipélago. Os cinqüenta apartamentos têm ar-condicionado
e frigobar. Possui área de lazer com piscina e quadras esportivas.
As diárias custam 95 reais por pessoa, com café da
manhã.
(91) 242-0904.
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| Rústico
elegante: decoração de fazenda que recebe turistas para visitas
de um dia |
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