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Edição 1 776 - 6 de novembro de 2002
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Marajó = Amazônia
+ Pantanal

A ilha selvagem, dos búfalos,
peixes-elétricos e jacarés, já
tem opções para quem quer
ter dias de aventura
e noites
confortáveis de sono

Leonardo Coutinho

 
Fotos Luiz Braga
Baía e barcos de pescadores na região de Salvaterra: água doce ou salgada, conforme a época do ano

Quase todo turista que esteve na Amazônia saiu de lá com a sensação de ter visto muito pouco de uma paisagem enorme, com distâncias invencíveis, animais e plantas espalhados demais. O Arquipélago de Marajó, no Pará, tornou-se boa alternativa para quem procura um resumo amazônico num espaço menor – e ainda oferece brindes: uma pitada de pantanal, praias, mangues e campos. Em mais de 1 000 ilhas, o cenário vai do mais absoluto deserto a densas florestas, numa área com o mesmo clima e a mesma latitude da região amazônica. Em 50.000 quilômetros quadrados, tem-se um ecossistema ainda quase desconhecido. Trata-se do maior arquipélago marítimo-fluvial do mundo, mas nem mesmo o total de ilhas que o compõem é conhecido com precisão. Com tanto a oferecer, faltava na área o elemento mais importante para atrair turistas: hospedagem variada, de qualidade e com boas alternativas de passeios. Muitos fazendeiros locais começam a suprir essa deficiência, transformando as sedes de suas propriedades em confortáveis pousadas. Luxo não há, mas a maioria das acomodações não decepciona – nem exige espírito aventureiro. As pousadas nascem em razão de uma daquelas gangorras da economia. Voltada para a pecuária, que abastece basicamente o mercado paraense, a atividade econômica local passou nos últimos anos a sofrer a concorrência da carne bovina de outras regiões e a bater também nos seus limites de produtividade.

 
A Praia do Pesqueiro, em Soure: areia branca e aspecto de paraíso do Nordeste na foz do Rio Amazonas

Uma boa saída para os fazendeiros tem sido a diversificação para o ramo hoteleiro. Algumas fazendas já operam assim. A mais famosa é a São Jerônimo, utilizada como cenário para as gravações do programa No Limite, da Rede Globo. Com ar-condicionado, água quente, praia particular e quadras esportivas, a pousada oferece pacotes que permitem conhecer de perto a vida rústica dos vaqueiros que tocam búfalos pelos campos do Marajó. Pode-se montar os animais, passear de canoa e pescar. Na Fazenda Sanjo, uma das mais antigas da ilha, o visitante tem também expedições a cavalo aos lugares mais belos das redondezas (veja alternativas de hospedagem no quadro).

Fisicamente, Marajó também é resultado de uma gangorra. Uma gangorra geológica. Há 1 milhão de anos deu-se na região o descolamento de uma placa de terra maior do que o território da Escócia até então pregada no continente. Nesse movimento, essa borda interna afundou e sobre ela avançou, em dois braços, o Rio Amazonas. Esse aguaceiro tinha força para encher uma Baía de Guanabara em minutos e arrastou floresta e animais por centenas de hectares. Ao mesmo tempo, do lado do mar, a parte até então submersa dessa plataforma se levantou, formando um pedaço da ilha principal e diversas ilhotas. "Foi como se uma tábua sobre a água recebesse peso apenas em uma das extremidades", descreve o geólogo Paulo Edson Leal Bezerra, chefe da divisão de geociências do IBGE. Ainda há transformações decorrentes desse fenômeno. Plantadas sobre uma região com intensa atividade tectônica do planeta, as ilhas mudam de tamanho, desaparecem e nascem o tempo todo. Em imagens de satélite dos anos 70 comparadas com fotos atuais, vê-se que tanto elas como os rios e os lagos variam de forma, de posição e de tamanho. O próprio nível da ilha se altera, mudando o sentido de vazão das águas, os depósitos de sedimentos e a orientação da erosão natural.

 
Revoada de guarás: o tom avermelhado das plumas aumenta conforme cresce seu consumo de crustáceos

Na estação das chuvas, que vai de dezembro a abril, Marajó se transforma em um grande pantanal. Com mais da metade de sua área encoberta pelas águas, os campos tornam-se um restaurante para aves migratórias que vêm do hemisfério norte para se alimentar nas águas rasas. Os veículos param de circular. Só cavalos e búfalos conseguem vencer os alagados. No passado, esse cenário atraía outro tipo de visitante, os caçadores. Considerada na época um dos destinos mais perigosos do Brasil, a ilha era freqüentada por gente que, com armamento pesado, enfrentava os temíveis búfalos selvagens. Introduzidos na ilha para a produção de carne desde o século XVIII, muitos animais fugiram ao longo do tempo e retomaram a ferocidade natural da espécie. Escondido no junco dos lamaçais, dotado de um faro extraordinário, o búfalo não dá duas oportunidades ao inimigo. Quando ele avança, com os movimentos de um touro numa arena, só há tempo para um tiro. Se este falhar, o caçador tem de se atirar na água e cruzar os dedos para que o bicho continue investindo por algum tempo contra a canoa, para que possa fugir. "Ele é capaz de matar a chifradas", conta a fazendeira Ana Nunes, que cresceu embalada pelas histórias dos caçadores que freqüentavam a propriedade da família.


Polícia montada: búfalos de patas engraxadas para o patrulhamento no arquipélago

Outro perigo oculto na lama são os jacarés, alguns próximos dos 6 metros de comprimento. Nas mesmas águas, peixes-elétricos, conhecidos por poraquês, têm a capacidade de liberar descargas de até 300 volts, suficientes para abalar um animal de grande porte. Mas tanto os peixes como os jacarés e os búfalos bravos só podem ser problema, hoje, para os vaqueiros que trabalham nas áreas mais ermas do arquipélago. Com os turistas, todas as atividades são feitas em regiões seguras, onde o que mais chama a atenção nos búfalos é a docilidade com que se deixam montar. Servem até como montaria do policiamento da ilha. Nesse caso, para ficarem bem apresentáveis, têm os cascos engraxados, como se fossem botas. Numa ilha, os rebanhos podem ser criados soltos, misturando-se os de diversas fazendas. São marcados com pequenos cortes nas orelhas, porque os tradicionais símbolos a ferro quente ficam invisíveis no couro enlameado. Só uma vez por ano as manadas são separadas e levadas para as fazendas, para a contagem e a vacinação. O grande ajudante dessa tarefa também é um animal exclusivo da ilha, o cavalo marajoara, pequeno e forte. Os primeiros cavalos, de origem árabe, chegaram ao arquipélago 300 anos atrás. Foram cruzados com outras duas raças e se tornaram tão versáteis no terreno adverso como o chamado cavalo pantaneiro no centro-oeste do país.

Os primeiros habitantes de Marajó foram os índios aruãs, descendentes, segundo etnólogos, de antilhanos que chegaram à região há 1 600 anos. Antes do descobrimento, exploradores europeus vasculhavam a área, como fez o espanhol Vicente Yáñez Pinzón em março de 1500. Os aruãs não agüentaram o contato com os brancos e fugiram para a selva continental no século XVIII. Na ilha ficaram resquícios de uma civilização que, pelo menos em termos de arte cerâmica, tinha avançado bastante. Alguns dos elementos gráficos das peças marajoaras têm pontos comuns com a arte dos maias e astecas. Muitas dessas relíquias estão expostas no Museu do Marajó, montado pelo ex-jesuíta Giovanni Gallo com o material arqueológico encontrado no quintal dos paroquianos.

 

Cama, comida e passeios

As melhores opções para se hospedar na Ilha de Marajó

 
Vida de fazenda marajoara: pôr-do-sol, cata-vento e alagados

Hotel Fazenda Sanjo – Durante a estação das chuvas, só se chega lá de lancha. São quatro apartamentos para hóspedes. Tem abate de búfalos e produção de queijo. É uma boa pedida para quem deseja acompanhar o dia-a-dia dos vaqueiros. O pacote de três dias custa 320 reais por casal, com pensão completa, translado e passeios.
(91) 246-2966. fazendasanjo@yahoo.com.br.

Fazenda São Jerônimo – Adaptada há dois anos para funcionar como hotel, ganhou fama no ano passado por ter sido cenário do programa No Limite, da Rede Globo. Tem pecuária, mas seu forte é a produção de frutas regionais. Possui praia particular, cuja água varia de salgada a doce, conforme a época do ano. As diárias custam 90 reais por casal, com pensão completa e uma atividade diária.
(91) 3741-2016. saojeronimo@canal13.com.br.

Fazenda Camburupy – As cavalgadas, em vários níveis de dificuldade, são os principais passeios oferecidos pelo hotel. Com os vaqueiros, os hóspedes podem aventurar-se pelos campos alagados, no meio dos búfalos. As diárias com pensão completa custam 140 reais por pessoa.
(91) 9969-8160. fazendacamburupy@yahoo.com.br.

Hotel Ilha do Marajó – São 32 apartamentos equipados com ar-condicionado, TV por assinatura, frigobar e água quente. Tem piscina, boate e restaurante. O pacote de fim de semana custa 180 reais por pessoa, com café da manhã, translado de Belém e passeios pela cidade, pelas praias e fazendas da região. (91) 241-3218. www.dadoscon.com.br/himarajo.

Marajó Park Resort – É o maior hotel do arquipélago. Localizado na Ilha Mexiana, tem oitenta apartamentos com ar-condicionado e uma área de mais de 32 000 hectares com pista de pouso, quadra de tênis e atrações que vão de safáris fotográficos em lagos com jacarés a pesca esportiva de pirarucu, o maior peixe de escamas da Amazônia. Os pacotes de quatro dias custam 1 450 reais por pessoa, com pensão completa, passeios e translado aéreo de Belém ao hotel. (91) 213-7008. www.marajoparkresort.com.br.

Pousada dos Guarás – Localizado na cidade de Soure, é uma opção urbana para quem quer conhecer o arquipélago. Os cinqüenta apartamentos têm ar-condicionado e frigobar. Possui área de lazer com piscina e quadras esportivas. As diárias custam 95 reais por pessoa, com café da manhã. (91) 242-0904.

 
Rústico elegante: decoração de fazenda que recebe turistas para visitas de um dia



   
 
   
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