Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 776 - 6 de novembro de 2002
Brasil Sucessão

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Índice
Seções
Brasil
 

O trio de ferro do governo petista
Ribeirão Preto, o laboratório do PT moderado
O mundo tenta decifrar Lula
O peso dos novos governadores
O desafio do combate à fome

Internacional
Economia e Negócios
Geral
Guia
Artes e Espetáculos

colunas
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Luiz Felipe de Alencastro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
Radar
Holofote
Contexto
VEJA on-line
Veja essa
Arc
Gente
Datas

VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Arquivo 1997-2002
Reportagens de capa
2000|2001|2002
Entrevistas
2000|2001|2002
Busca somente texto
96|97|98|99|00|01|02


Crie seu grupo




 

Mudar para quê?

O governo federal já tem um bom
programa de combate à fome. Lula
quer fazer um diferente. Todos os
especialistas são contra a mudança

 
Eduardo Queiroga
Crianças em sala de aula no Nordeste: revolução no ensino com a ajuda do Bolsa-Escola


Veja também
Nesta edição
Um por todos
e todos por um
O laboratório do PT
O mundo decifra Lula
Eles fazem as regras no Congresso
Na internet
Notícias diárias sobre o governo de transição

O PT anunciou na semana passada que a prioridade social número 1 de seu governo será a mesma escolhida por Fernando Henrique Cardoso em 1994: o combate à miséria. Nesse sentido, o novo governo adota um alvo correto, já que no Brasil vivem 23 milhões de pessoas incapazes de gerar renda suficiente para garantir a própria alimentação. É como se todos os habitantes da Venezuela de Hugo Chávez vivessem na indigência. O problema foi a forma escolhida pelo novo governo para enfrentar a pobreza. Em vez de garantir uma renda mínima aos mais necessitados, como propôs o senador Eduardo Suplicy, e como faz FHC e diversas prefeituras petistas (com grande sucesso, diga-se), os auxiliares de Lula na área social insistem num modelo ultrapassado.

Em lugar de dinheiro, prometem distribuir aos necessitados cupons de comida – tíquetes, que seriam trocados numa rede credenciada. O argumento do economista José Graziano da Silva, um dos mais antigos colaboradores de Lula e pai da idéia dos papeluchos, é que o PT quer ter certeza de que os mais pobres vão adquirir produtos que integrem a cesta básica. Está aí o grande perigo. A história brasileira mostra que todas as vezes que o Estado tentou tutelar a sociedade, nesse caso distribuindo alimentos, deu-se o fracasso. No caso dos programas sociais envolvendo tíquetes, o modelo invariavelmente acaba em corrupção ou num mercado paralelo, em que os papéis passam a ser trocados por dinheiro, com deságio.

Aconteceram as duas coisas durante o governo Sarney, quando Brasília distribuía um tíquete que os mais pobres podiam trocar por leite. Os bem-intencionados cumpriam as regras e compravam o produto. Mas diversos espertalhões adquiriam os papéis com desconto, valendo-se do fato de que as pessoas muitas vezes precisam de dinheiro para outras necessidades básicas que não apenas leite. Parece pouco? Então, lembremo-nos da Legião Brasileira de Assistência (LBA). Até poucos anos atrás, as autoridades distribuíam cestas básicas, compradas aos milhares. O dinheiro que deveria beneficiar a população miserável acabava muitas vezes engordando contas bancárias de pessoas que deveriam zelar pelo bom uso dos recursos. A LBA ficou tão contaminada pelas denúncias que precisou ser extinta. No auge das irregularidades, durante os anos Collor, o Brasil inteiro testemunhou o choro da primeira-dama Rosane, presidente da entidade. Rosane foi responsabilizada por irregularidades que resultaram num prejuízo de 16 milhões de dólares. Entre outros absurdos encontrados, descobriram uma certa Fundação Pró-Carente de Canapi, que recebeu verbas federais para trabalhos que nunca saíram do papel e funcionava na casa de sua mãe. Os defensores do programa gostam de citar o caso dos Estados Unidos, onde se introduziu há muito tempo um sistema de cupons que atende milhões de pessoas. Mas mesmo lá o modelo tem servido à corrupção e ao mercado paralelo.

Batizado de "Fome Zero", o programa alimentar do PT contraria os estudos mais modernos feitos sobre o combate à pobreza. Os especialistas no assunto garantem que o sistema mais eficiente para atacar a miséria é garantir uma renda às famílias mais necessitadas. Dessa forma, em vez de dar o peixe, como quer o PT, o governo deve dar ao miserável recursos para comprar a vara de pescar – ou qualquer outra coisa que possa ajudá-lo a viver melhor. Muitas vezes, o problema de uma família é comprar adubo para a hortinha, ou mesmo um cachorro. Não para comer o animal, claro, mas para que ele proteja a casa dos ladrões que vivem roubando as galinhas do fundo do quintal. O governo Fernando Henrique fez um trabalho ambicioso nessa área ao distribuir dinheiro a 8 milhões de famílias. Um dos projetos mais importantes é o Bolsa-Escola, que dá 15 reais por mês às famílias carentes que colocarem o filho no colégio. O programa tem um efeito duplicado. A família recebe um dinheiro adicional e o filho, na escola, faz uma ou duas refeições. O efeito combinado dos programas é fabuloso. Até 25 anos atrás, menos de 70% da população em idade escolar tinha acesso ao ensino. Atualmente, o atendimento escolar atinge 97% da população. Pode-se dizer que praticamente todas as crianças em idade escolar têm condições de comer direito.

Nunca se gastou tanto com a área social no Brasil como agora. O orçamento anual do governo federal nesse campo é de 24 bilhões de reais. Apesar dos valores elevados, Brasília não conseguiu ainda atender todos os necessitados em patamares apropriados. Portanto, o PT poderia ampliar e aprofundar o projeto. Em vez disso, decidiu modificá-lo. O PT já apresentou várias propostas para combater a fome, algumas delas bastante engraçadas. O próprio Lula defendeu um modelo que taxaria em 5% as contas dos restaurantes de luxo. O bolo arrecadado seria destinado aos pobres. O economista Marcelo Neri, da Fundação Getúlio Vargas, deu-se ao trabalho de fazer as contas para avaliar o alcance do projeto. Descobriu que ele geraria apenas 3% dos recursos necessários para matar a fome dos miseráveis. Como se vê, do ponto de vista histórico, o novo projeto é uma evolução. Mais evoluída ainda é a posição do novo governo a respeito do programa, aceitando modificá-lo, artigo por artigo. "É uma boa idéia que pode ser mexida à vontade", afirma um petista de alta patente. Do jeito que foi escrito, confidencia o dirigente, o Fome Zero é fruto da teimosia de José Graziano da Silva. Como ninguém teve coragem de confrontá-lo, o trabalho acabou divulgado sem nenhuma alteração. No ano passado, Lula já o havia defendido em público, mas o comandante petista garante que o presidente eleito mudou de posição. "Lula e o PT não têm posição formada sobre o assunto", diz o petistão, para quem pouco importa se o governo irá distribuir alimentos ou dinheiro. "Estamos prontos para aceitar qualquer solução e até manter os mesmos programas de FHC", diz o comandante do PT. Pelo visto, em vez de Fome Zero, o projeto poderia ser renomeado para Convicção Zero.

 


 
 
   
  voltar
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS