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Mudar
para quê?
O
governo federal já tem um bom
programa de combate à fome. Lula
quer fazer um diferente. Todos os
especialistas são contra a mudança
Eduardo Queiroga
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| Crianças
em sala de aula no Nordeste: revolução no ensino com a ajuda do Bolsa-Escola
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Veja também |
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O
PT anunciou na semana passada que a prioridade social número 1
de seu governo será a mesma escolhida por Fernando Henrique Cardoso
em 1994: o combate à miséria. Nesse sentido, o novo governo
adota um alvo correto, já que no Brasil vivem 23 milhões
de pessoas incapazes de gerar renda suficiente para garantir a própria
alimentação. É como se todos os habitantes da Venezuela
de Hugo Chávez vivessem na indigência. O problema foi a forma
escolhida pelo novo governo para enfrentar a pobreza. Em vez de garantir
uma renda mínima aos mais necessitados, como propôs o senador
Eduardo Suplicy, e como faz FHC e diversas prefeituras petistas (com grande
sucesso, diga-se), os auxiliares de Lula na área social insistem
num modelo ultrapassado.
Em lugar
de dinheiro, prometem distribuir aos necessitados cupons de comida
tíquetes, que seriam trocados numa rede credenciada. O argumento
do economista José Graziano da Silva, um dos mais antigos colaboradores
de Lula e pai da idéia dos papeluchos, é que o PT quer ter
certeza de que os mais pobres vão adquirir produtos que integrem
a cesta básica. Está aí o grande perigo. A história
brasileira mostra que todas as vezes que o Estado tentou tutelar a sociedade,
nesse caso distribuindo alimentos, deu-se o fracasso. No caso dos programas
sociais envolvendo tíquetes, o modelo invariavelmente acaba em
corrupção ou num mercado paralelo, em que os papéis
passam a ser trocados por dinheiro, com deságio.
Aconteceram
as duas coisas durante o governo Sarney, quando Brasília distribuía
um tíquete que os mais pobres podiam trocar por leite. Os bem-intencionados
cumpriam as regras e compravam o produto. Mas diversos espertalhões
adquiriam os papéis com desconto, valendo-se do fato de que as
pessoas muitas vezes precisam de dinheiro para outras necessidades básicas
que não apenas leite. Parece pouco? Então, lembremo-nos
da Legião Brasileira de Assistência (LBA). Até poucos
anos atrás, as autoridades distribuíam cestas básicas,
compradas aos milhares. O dinheiro que deveria beneficiar a população
miserável acabava muitas vezes engordando contas bancárias
de pessoas que deveriam zelar pelo bom uso dos recursos. A LBA ficou tão
contaminada pelas denúncias que precisou ser extinta. No auge das
irregularidades, durante os anos Collor, o Brasil inteiro testemunhou
o choro da primeira-dama Rosane, presidente da entidade. Rosane foi responsabilizada
por irregularidades que resultaram num prejuízo de 16 milhões
de dólares. Entre outros absurdos encontrados, descobriram uma
certa Fundação Pró-Carente de Canapi, que recebeu
verbas federais para trabalhos que nunca saíram do papel e funcionava
na casa de sua mãe. Os defensores do programa gostam de citar o
caso dos Estados Unidos, onde se introduziu há muito tempo um sistema
de cupons que atende milhões de pessoas. Mas mesmo lá o
modelo tem servido à corrupção e ao mercado paralelo.
Batizado
de "Fome Zero", o programa alimentar do PT contraria os estudos mais modernos
feitos sobre o combate à pobreza. Os especialistas no assunto garantem
que o sistema mais eficiente para atacar a miséria é garantir
uma renda às famílias mais necessitadas. Dessa forma, em
vez de dar o peixe, como quer o PT, o governo deve dar ao miserável
recursos para comprar a vara de pescar ou qualquer outra coisa
que possa ajudá-lo a viver melhor. Muitas vezes, o problema de
uma família é comprar adubo para a hortinha, ou mesmo um
cachorro. Não para comer o animal, claro, mas para que ele proteja
a casa dos ladrões que vivem roubando as galinhas do fundo do quintal.
O governo Fernando Henrique fez um trabalho ambicioso nessa área
ao distribuir dinheiro a 8 milhões de famílias. Um dos projetos
mais importantes é o Bolsa-Escola, que dá 15 reais por mês
às famílias carentes que colocarem o filho no colégio.
O programa tem um efeito duplicado. A família recebe um dinheiro
adicional e o filho, na escola, faz uma ou duas refeições.
O efeito combinado dos programas é fabuloso. Até 25 anos
atrás, menos de 70% da população em idade escolar
tinha acesso ao ensino. Atualmente, o atendimento escolar atinge 97% da
população. Pode-se dizer que praticamente todas as crianças
em idade escolar têm condições de comer direito.
Nunca se
gastou tanto com a área social no Brasil como agora. O orçamento
anual do governo federal nesse campo é de 24 bilhões de
reais. Apesar dos valores elevados, Brasília não conseguiu
ainda atender todos os necessitados em patamares apropriados. Portanto,
o PT poderia ampliar e aprofundar o projeto. Em vez disso, decidiu modificá-lo.
O PT já apresentou várias propostas para combater a fome,
algumas delas bastante engraçadas. O próprio Lula defendeu
um modelo que taxaria em 5% as contas dos restaurantes de luxo. O bolo
arrecadado seria destinado aos pobres. O economista Marcelo Neri, da Fundação
Getúlio Vargas, deu-se ao trabalho de fazer as contas para avaliar
o alcance do projeto. Descobriu que ele geraria apenas 3% dos recursos
necessários para matar a fome dos miseráveis. Como se vê,
do ponto de vista histórico, o novo projeto é uma evolução.
Mais evoluída ainda é a posição do novo governo
a respeito do programa, aceitando modificá-lo, artigo por artigo.
"É uma boa idéia que pode ser mexida à vontade",
afirma um petista de alta patente. Do jeito que foi escrito, confidencia
o dirigente, o Fome Zero é fruto da teimosia de José Graziano
da Silva. Como ninguém teve coragem de confrontá-lo, o trabalho
acabou divulgado sem nenhuma alteração. No ano passado,
Lula já o havia defendido em público, mas o comandante petista
garante que o presidente eleito mudou de posição. "Lula
e o PT não têm posição formada sobre o assunto",
diz o petistão, para quem pouco importa se o governo irá
distribuir alimentos ou dinheiro. "Estamos prontos para aceitar qualquer
solução e até manter os mesmos programas de FHC",
diz o comandante do PT. Pelo visto, em vez de Fome Zero, o projeto poderia
ser renomeado para Convicção Zero.
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