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Edição 1 776 - 6 de novembro de 2002
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Até o muro rachou

Com obras paradas por rixas
entre árabes e judeus, muralhas
de Jerusalém podem ruir

 
Valdemir Cunha
A parte ameaçada das muralhas e a mesquita de Omar: perigo no Ramadã

Uma rachadura num muro é a nova pendenga entre palestinos e israelenses. Bom, não se trata de uma parede qualquer, mas das muralhas que cercam a Cidade Velha de Jerusalém. A trinca provocou uma saliência de 70 centímetros no trecho que serve de arrimo ao Monte do Templo, a esplanada sobre a qual estão as mesquitas Al-Aqsa e de Omar, conjunto que é o terceiro entre os lugares santos do Islã. O arrimo do lado oeste da elevação é o Muro das Lamentações, o local mais sagrado do judaísmo. Arqueólogos israelenses estão convencidos de que, se nada for feito, a muralha corre o risco de ruir na próxima semana devido ao peso de milhares de fiéis na esplanada para comemorar o Ramadã, o mês de orações do calendário muçulmano. A organização islâmica que administra as mesquitas, a Waqfa, diz que os israelenses exageram por motivos políticos. A Waqfa instalou andaimes para consertar a rachadura, mas as obras iniciadas em abril estão paralisadas por ordem das autoridades israelenses. O governo de Israel diz que, devido à gravidade da rachadura, só engenheiros e arqueólogos especializados podem fazer o restauro corretamente.

O problema é que a questão não é apenas de engenharia. Israelenses e palestinos trocam desaforos sobre quem provocou os danos na muralha, cuja base foi construída há 2.000 anos. A parte em perigo foi destruída e reconstruída várias vezes, a última delas pelos turcos otomanos, que dominaram a Palestina até 1918. Os palestinos argumentam que, ao lado da erosão natural e de infiltrações, foram escavações executadas por Israel que provocaram o enfraquecimento do paredão. Os israelenses culpam as obras feitas na esplanada pelos palestinos. Se Israel tentar consertar a muralha sem o consentimento da organização islâmica, é inevitável a erupção de violentos protestos dos palestinos. Se houver um colapso da estrutura, a situação pode ficar ainda pior. A impossibilidade de diálogo entre as partes levou-as a permitir que um grupo de engenheiros da Jordânia inspecionasse o muro no mês passado e levasse pedaços de parede para testes em Amã. Os jordanianos concluíram que a solução técnica é simples e que os trabalhos poderiam começar rapidamente, mas os dois lados precisam fazer o mais difícil: cooperar um com o outro.

   
 
   
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