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Eles fazem as regras
no Congresso
Sem apoio
dos governadores,
não existe reforma
tributária,
previdenciária, política...

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Em 1994,
Fernando Henrique Cardoso elegeu-se presidente da República amparado
por uma aliança partidária que conquistou dois terços
das cadeiras na Câmara dos Deputados e 22 dos 27 governos estaduais.
O destaque foi a vitória dos governadores nos quatro Estados mais
ricos do país: São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e
Rio Grande do Sul. No próximo dia 1º de janeiro, Luiz Inácio
Lula da Silva tomará posse com a força de quem obteve mais
de 60% dos votos válidos, mas sustentado por uma bancada minoritária
no Congresso Nacional e relativamente fraca no caso dos governadores.
Diretamente, o PT governará apenas três Estados, todos de
menor expressividade econômica. São eles o Acre, o Piauí
e Mato Grosso do Sul. Considerado o arco de apoios que Lula obteve no
segundo turno, o novo governo tem divulgado que conta com a simpatia de
mais dez governadores. Embora isso melhore e muito sua situação,
Lula não tem muito que festejar. Somados, os treze Estados "pró-Planalto"
controlam 30% do produto interno bruto e representam 34% da Câmara.
Vista sob essa ótica, a força da nova oposição
é avassaladora. Seus governadores representam 70% do PIB nacional
e 66% do Parlamento. Ou seja, Lula vai ter de negociar muito se pretende
formar maioria e aprovar as reformas que prometeu em campanha. Sem a ajuda
dos governadores, adeus mudanças no campo tributário, previdenciário
e político.
Muita gente
pode ter a impressão de que a ação dos governadores
se restringe principalmente aos limites territoriais de seu Estado, mas
não é assim que as coisas funcionam. Na rotina dos assuntos
administrativos, os governadores até se entendem com os deputados
estaduais. Mas, quando têm um interesse contrariado no governo federal,
precisam de verbas públicas adicionais ou querem aprovar um projeto
de lei que os beneficie, agem como generais-de-exército. Invadem
Brasília e passam a atuar como o principal grupo de pressão
do país. A capacidade de agitação que eles possuem
é impressionante. Quando preciso, os governadores pressionam diretamente
os deputados federais e senadores até porque contratam alguns
parlamentares como secretários estaduais e vários de seus
parentes em escalões variados. Se necessário, mobilizam
os prefeitos de seu Estado, que por sua vez também pressionam os
deputados federais. Acionam os deputados estaduais, que reforçam
o lobby. Convocam ao debate a sociedade civil organizada. E telefonam
para empresários, que ligam para políticos a quem deram
dinheiro na campanha (ou mesmo fora dela). Em alguns casos, esse poder
bélico tem ramificações em todo o território
nacional. O Estado de São Paulo sedia a maior parte das grandes
organizações e bancos. Um pedido do governador paulista
a um desses empresários pode mobilizar os políticos de diversos
Estados.
Sebastião Moreira/AE
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Governador
Geraldo Alckmin, de São Paulo: reeleição mostra
que o brasileiro diz sim aos que estão indo bem
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Na semana
passada, os governadores eleitos deram uma mostra de que vão lutar
por seus interesses. Rosinha Garotinho, do Rio de Janeiro, Germano Rigotto,
do Rio Grande do Sul, e Aécio Neves, de Minas Gerais, encaminharam
ao presidente eleito um pedido para que o Palácio do Planalto renegocie
a dívida que os Estados têm com a União. Atualmente,
os Estados são obrigados a destinar em média 13% de todo
o dinheiro que arrecadam para saldar essas dívidas. Os governadores
querem mandar para Brasília menos da metade disso. Com a economia
do país andando de lado, os Estados atravessam uma fase difícil.
A maioria dos governadores já fez ajustes severos nas contas públicas,
demitiu funcionários públicos e vendeu estatais e bancos.
O que eles dizem é que agora não há mais de onde
tirar dinheiro para fazer investimentos. "Muitos Estados têm recursos
só para a folha do funcionalismo", diz o governador eleito por
Minas Gerais, Aécio Neves.
A redução
nos pagamentos desejada pelos governadores implicaria 8 bilhões
de reais a menos no caixa do governo federal a partir de 2003. Para tapar
o buraco, o presidente eleito seria obrigado a cortar gastos ou aumentar
impostos. Em outras palavras, os Estados propõem federalizar o
prejuízo e usar a diferença para gastar em obras, estadualizando
os dividendos políticos do reforço de caixa. A equipe de
Lula já disse que quase não há o que cortar no orçamento
e que o aumento de impostos seria impossível. Já são
um escândalo de tão altos. A carga tributária no Brasil
é uma das maiores do mundo, chega a quase 34% do PIB. De mais a
mais, os governadores já ganharam um presentão há
oito anos, quando estavam atolados em dívidas de mais de 250 bilhões
de reais com os bancos privados e suas empresas públicas estavam
falidas. Antes de ser privatizados, os bancos estatais receberam do Banco
Central uma injeção de 60 bilhões de reais para não
sucumbir. Para salvar os Estados e também a imagem do Brasil
o governo Fernando Henrique organizou a maior renegociação
de dívida da história brasileira. A União assumiu
a responsabilidade de honrar as dívidas estaduais e pagar os juros
de mercado. E deu aos governadores o direito de desembolsar prestações
mais baixas durante um período de tempo mais longo.
Parecia
um acordo de pai para filho, mas o tempo mostrou que os governadores fizeram
um mau negócio. Apesar do valor exorbitante das dívidas,
os Estados habituaram-se a nunca pagar o que deviam. A adesão ao
acordo assinado os amarrou de todas as formas, obrigando-os a honrar as
prestações sempre em dia. Em 1999, irritado com o acordo,
o governador Itamar Franco decidiu declarar moratória. O que fez
a União? Reteve repasses estaduais, e o mundo caiu no Palácio
das Mangabeiras. Credores internacionais anunciaram a suspensão
de empréstimos a Minas, o déficit mensal do Estado bateu
na casa dos 100 milhões de reais e o governo encontra dificuldades
para pagar o funcionalismo. Discretamente, Itamar voltou a fazer os pagamentos
corretamente. A União ainda condicionou o acordo à aprovação
da Lei de Responsabilidade Fiscal, que pode colocar maus pagadores na
cadeia. Esse é o calcanhar-de-aquiles dos governadores no jogo
de pressão sobre o Palácio do Planalto. Esse é o
grande trunfo de Lula para negociar a aprovação dos projetos
de lei de seu interesse.
Divulgação
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Rosinha
Garotinho,
do Rio, e Zeca do PT, do Mato Grosso do Sul: no arco de alianças
de Lula
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Valdenir Rezende
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Na semana
passada, a governadora Rosinha Garotinho reclamou que o Rio precisa de
mais dinheiro para combater o crime, e o gaúcho Germano Rigotto
diz que não tem como investir em obras. O presidente do PT, José
Dirceu, disse que é complicado atender a essas reivindicações.
Chegou a desconversar afirmando que as dívidas até poderiam
ser renegociadas caso os Estados ajudassem a aprovar a reforma tributária
e a reforma da Previdência. Vale a pena notar que, embora os políticos
estejam discutindo um toma-lá-dá-cá, como sempre
aconteceu, o padrão da conversa mudou. Até pouco tempo atrás,
o dinheiro público era tratado com uma dose cavalar de irresponsabilidade.
Nos últimos trinta anos, as contas estaduais estouraram quatro
vezes, ou seja, os governadores ficaram totalmente sem dinheiro para acertar
suas dívidas, pagar a folha do funcionalismo e manter a máquina
pública funcionando. Na prática, os governadores emitiam
a própria moeda. Enquanto a farra durou, o caixa dos Estados nunca
ficou vazio. Mas o país pagou um preço alto: inflação,
falta de crédito internacional, aumento de impostos. Ninguém
quer que isso aconteça novamente.
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