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encontro de uma hora que teve com Donna Hrinak, embaixadora dos Estados
Unidos no Brasil, na semana passada, o presidente eleito Luiz Inácio
Lula da Silva fez o melhor resumo até agora de como será
a política externa de seu governo. "Nós vamos fazer exatamente
o que vocês fazem em seu país. Vamos negociar com todo mundo,
ajudar nossas empresas a competir e lutar pelos interesses econômicos
brasileiros", disse Lula à embaixadora. O governo petista está
decidido a evitar reverenciar o cubano Fidel Castro, não dará
mostras de simpatia para com o venezuelano Hugo Chávez nem pelas
Farc, a guerrilha colombiana ligada ao narcotráfico. Diz um dos
mais poderosos assessores do presidente eleito do Brasil: "O foco de nossa
política externa será o pragmatismo econômico. Temos
mercados para ganhar e uma dura negociação pela frente com
os Estados Unidos a respeito da Área de Livre Comércio das
Américas. Não vamos criar conflitos ideológicos desnecessários,
pois o Brasil não tem nada a ganhar com isso". Lula já havia
dito a VEJA que espera ter "um mascate" em cada embaixada brasileira.
Agora encomendou a seus auxiliares um estudo sobre todos os mecanismos
de incentivo e subsídios à exportação de que
o governo pode lançar mão sem ferir as regras da Organização
Mundial do Comércio (OMC). Em resumo, em política externa,
o governo Lula evitará tudo que atrapalhe os negócios.
Para uma parte dos analistas internacionais, especialmente da América
Latina e da Europa, que esperavam de Lula um novo expoente das esquerdas
do Terceiro Mundo, o pragmatismo do presidente brasileiro pode ser uma
decepção. A trajetória de sucesso de Lula, do berço
pobre no interior de Pernambuco à cadeira de presidente da República,
foi contada em dezenas de idiomas, sempre em tons muito positivos. No
dia seguinte a sua vitória nas urnas, o rosto do brasileiro foi
estampado nas primeiras páginas de jornais em todo o mundo. Passada
a euforia com o inusitado da chegada ao poder do "presidente operário",
as questões de fundo do relacionamento do novo governo com o mundo
começaram a ser tratadas. O primeiro-ministro espanhol, José
María Aznar, conversou longamente com Lula pelo telefone. Antes,
o presidente eleito recebeu representantes das empresas espanholas no
Brasil. Houve elogios de lado a lado, mas as conversas, embora não
se falasse explicitamente de negócios, tiveram como pano de fundo
os 25 bilhões de dólares que os espanhóis investiram
no Brasil desde 1996. "Durante a campanha, os telefones da embaixada não
pararam de tocar. Os investidores estavam ansiosos e preocupados com os
rumos do país. As declarações de Lula e de sua gente
depois das eleições têm sido tranqüilizadoras,
e todo mundo vê com naturalidade a transição", disse
Victor Audera, conselheiro da Embaixada da Espanha em Brasília,
ao jornal madrileno El País.
As reações dos partidos e líderes de esquerda estrangeiros
à vitória de Lula variaram de acordo com suas responsabilidades
atuais. Líderes estudantis no Equador e em outros países
latino-americanos viram no triunfo do petista um importante "avanço
na luta revolucionária". Na Europa, onde em quase todos os países
as esquerdas já enfrentaram os desafios de governar, as reações
foram de menos afoiteza e muito realismo. "Para governar, Lula precisa
desvencilhar-se do partido e das promessas de campanha", disse Daniel
Cohn-Bendit, o líder incendiário de maio de 1968 na França
que hoje, mais velho e intelectualmente mais sólido, se elegeu
membro do Parlamento europeu. A calmaria dos mercados com dólar
e risco Brasil em baixa acentuada que se seguiu à eleição
de Lula, muito bem descrita pela embaixadora Hrinak como o "efeito ufa!",
foi o sinal mais evidente de que o mundo exterior, por enquanto, não
aposta em catástrofe econômica no começo de um governo
petista. Também parece sem base a temida volatilidade que se esperava
pelo fato de coexistirem no continente americano um governo de esquerda
no Brasil e uma administração republicana nos Estados Unidos.
Ambos os lados esperam entre Lula e Bush um relacionamento menos amigável
mas bem mais franco do que o que imperou entre Fernando Henrique Cardoso
e Bill Clinton. "O teste real para Lula no Brasil e Bush nos Estados Unidos
vai ser manter os radicais de lado a lado sob controle", diz Michael Shifter,
vice-presidente do Diálogo Interamericano, um grupo de estudos
políticos continentais baseado em Washington. "Tem lunáticos
que falam num novo eixo do mal. No Brasil, tem petista que detesta a idéia
de ter esperado vinte anos para chegar ao poder e agora ser amiguinho
dos Estados Unidos." No fundo, radicais são muito parecidos, os
nossos e os deles.
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