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Edição 1 776 - 6 de novembro de 2002
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No encontro de uma hora que teve com Donna Hrinak, embaixadora dos Estados Unidos no Brasil, na semana passada, o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva fez o melhor resumo até agora de como será a política externa de seu governo. "Nós vamos fazer exatamente o que vocês fazem em seu país. Vamos negociar com todo mundo, ajudar nossas empresas a competir e lutar pelos interesses econômicos brasileiros", disse Lula à embaixadora. O governo petista está decidido a evitar reverenciar o cubano Fidel Castro, não dará mostras de simpatia para com o venezuelano Hugo Chávez nem pelas Farc, a guerrilha colombiana ligada ao narcotráfico. Diz um dos mais poderosos assessores do presidente eleito do Brasil: "O foco de nossa política externa será o pragmatismo econômico. Temos mercados para ganhar e uma dura negociação pela frente com os Estados Unidos a respeito da Área de Livre Comércio das Américas. Não vamos criar conflitos ideológicos desnecessários, pois o Brasil não tem nada a ganhar com isso". Lula já havia dito a VEJA que espera ter "um mascate" em cada embaixada brasileira. Agora encomendou a seus auxiliares um estudo sobre todos os mecanismos de incentivo e subsídios à exportação de que o governo pode lançar mão sem ferir as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC). Em resumo, em política externa, o governo Lula evitará tudo que atrapalhe os negócios.

Para uma parte dos analistas internacionais, especialmente da América Latina e da Europa, que esperavam de Lula um novo expoente das esquerdas do Terceiro Mundo, o pragmatismo do presidente brasileiro pode ser uma decepção. A trajetória de sucesso de Lula, do berço pobre no interior de Pernambuco à cadeira de presidente da República, foi contada em dezenas de idiomas, sempre em tons muito positivos. No dia seguinte a sua vitória nas urnas, o rosto do brasileiro foi estampado nas primeiras páginas de jornais em todo o mundo. Passada a euforia com o inusitado da chegada ao poder do "presidente operário", as questões de fundo do relacionamento do novo governo com o mundo começaram a ser tratadas. O primeiro-ministro espanhol, José María Aznar, conversou longamente com Lula pelo telefone. Antes, o presidente eleito recebeu representantes das empresas espanholas no Brasil. Houve elogios de lado a lado, mas as conversas, embora não se falasse explicitamente de negócios, tiveram como pano de fundo os 25 bilhões de dólares que os espanhóis investiram no Brasil desde 1996. "Durante a campanha, os telefones da embaixada não pararam de tocar. Os investidores estavam ansiosos e preocupados com os rumos do país. As declarações de Lula e de sua gente depois das eleições têm sido tranqüilizadoras, e todo mundo vê com naturalidade a transição", disse Victor Audera, conselheiro da Embaixada da Espanha em Brasília, ao jornal madrileno El País.

As reações dos partidos e líderes de esquerda estrangeiros à vitória de Lula variaram de acordo com suas responsabilidades atuais. Líderes estudantis no Equador e em outros países latino-americanos viram no triunfo do petista um importante "avanço na luta revolucionária". Na Europa, onde em quase todos os países as esquerdas já enfrentaram os desafios de governar, as reações foram de menos afoiteza e muito realismo. "Para governar, Lula precisa desvencilhar-se do partido e das promessas de campanha", disse Daniel Cohn-Bendit, o líder incendiário de maio de 1968 na França que hoje, mais velho e intelectualmente mais sólido, se elegeu membro do Parlamento europeu. A calmaria dos mercados com dólar e risco Brasil em baixa acentuada que se seguiu à eleição de Lula, muito bem descrita pela embaixadora Hrinak como o "efeito ufa!", foi o sinal mais evidente de que o mundo exterior, por enquanto, não aposta em catástrofe econômica no começo de um governo petista. Também parece sem base a temida volatilidade que se esperava pelo fato de coexistirem no continente americano um governo de esquerda no Brasil e uma administração republicana nos Estados Unidos. Ambos os lados esperam entre Lula e Bush um relacionamento menos amigável mas bem mais franco do que o que imperou entre Fernando Henrique Cardoso e Bill Clinton. "O teste real para Lula no Brasil e Bush nos Estados Unidos vai ser manter os radicais de lado a lado sob controle", diz Michael Shifter, vice-presidente do Diálogo Interamericano, um grupo de estudos políticos continentais baseado em Washington. "Tem lunáticos que falam num novo eixo do mal. No Brasil, tem petista que detesta a idéia de ter esperado vinte anos para chegar ao poder e agora ser amiguinho dos Estados Unidos." No fundo, radicais são muito parecidos, os nossos e os deles.

 
 
   
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