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Edição 1 776 - 6 de novembro de 2002
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O laboratório do PT

Prefeito de Ribeirão Preto, Antônio
Palocci
testou fórmulas que o
partido adota agora e
fez de sua
gestão um ensaio do governo Lula

Thaís Oyama

 
Antonio Milena
Ex-vereador, ex-deputado estadual e federal, o prefeito Palocci prepara-se pela quarta vez para renunciar a um mandato e, em 2003, assumir posto-chave no governo Lula


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e todos por um
O mundo decifra Lula
Eles fazem as regras no Congresso
Mudar para quê?
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O PT light e, para usar uma palavra da moda, propositivo, que o Brasil conheceu nas últimas eleições, não é fruto apenas de truques ilusionistas do marketing: ele vem sendo experimentado há algum tempo em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. Desde 1993, quando inaugurou sua primeira administração petista, a Califórnia brasileira, com seus 500 000 habitantes, transformou-se numa espécie de laboratório do partido. Sob o comando do prefeito Antônio Palocci, testou fórmulas que o PT agora aplica em nível nacional, antecipou alianças que viriam a se repetir quase dez anos depois e, sobretudo, revelou dificuldades que o novo governo há de experimentar a partir de 1º de janeiro. No salto da oposição para a situação, o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva dificilmente escapará das dores da metamorfose – e Palocci, agora um de seus homens-fortes, poderá dizer que já viu esse filme antes.

Qualquer semelhança não é mera coincidência: se Lula escandalizou correligionários ao escolher para candidato a vice um empresário rico, o mineiro José Alencar, Palocci já tinha o seu dois anos atrás. O vice-prefeito de Ribeirão Preto, Gilberto Maggioni, não só é um industrial de tintas bem-sucedido – e, como o senador José Alencar, egresso de um partido estranho à cultura petista. Além disso, na época em que entrou na chapa como vice de Palocci, Maggioni presidia a Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto, espécie de Fiesp local. Mais: Lula brigou no PT para trazer para a campanha o publicitário Duda Mendonça, ex-colaborador de Paulo Maluf. Pois a primeira vez que a equipe do marqueteiro pisou em território petista foi na reeleição do prefeito Palocci, dois anos atrás. Se o triunfo do PT nas eleições presidenciais representa a primeira vitória da esquerda no plano nacional, a chegada de Palocci à prefeitura de Ribeirão marcou a ruptura da cidade com seu conservadorismo histórico – e forjou o que hoje parece ser o mais perfeito ensaio do governo Lula.

Palocci elegeu-se pela primeira vez em 1992, com um vice tucano e o apoio de partidos que iam da centro-esquerda à oposição mais enfurecida. Assumiu a prefeitura em meio à generalizada desconfiança da oligarquia canavieira, à imensa expectativa da população que o elegera e com os cofres praticamente vazios. A campanha da qual saíra vitorioso havia sido uma das mais acirradas que a cidade já vira – para alguns setores de Ribeirão Preto, cuja renda per capita é quase o dobro da brasileira, a possibilidade de eleger um prefeito petista evocava os relâmpagos do apocalipse. O primeiro movimento de Palocci, portanto, foi uma tentativa de desarmar espíritos – tarefa na qual, afirmam amigos, é mestre. No dia seguinte à posse, convidou o candidato derrotado, Antonio Nogueira, do PFL, para uma solenidade no palácio do governo. O motivo da festa era a inauguração de um salão que levava o nome do pai do pefelista, duas vezes prefeito da cidade e também chamado Antonio Nogueira. Palocinho Paz e Amor.

 
Arquivo pessoal
Antonio Milena
Caçula de quatro irmãos, Palocci foi professor de redação em cursinho e formou-se médico. Na época em que era da Libelu, grupo de ultra-esquerda, comandava greves; agora, prefeito, briga pelo fim das paralisações

Filho de um escultor e funcionário público descendente de italianos e de uma dona-de-casa, Palocci, leitor de Thomas Mann e de Machado de Assis, queria ser jornalista quando criança. Chegou a ser professor de técnica de redação num curso pré-vestibular, mas optou pela medicina, cursada na Universidade de São Paulo. É seu único curso superior. Tudo o que sabe sobre economia aprendeu sozinho. Em 1989, eleito o primeiro vereador do PT em Ribeirão Preto, viu-se às voltas com discussões sobre orçamento e decidiu que tinha de entender do assunto. Hoje, se não pode ser considerado um especialista na matéria, tem ao menos um mérito: sabe conversar com quem entende dela. Durante a campanha presidencial, transformou-se no principal interlocutor do PT com o empresariado. Levou Lula para discursar na Federação Nacional dos Bancos e foi, com o ex-deputado federal Luiz Gushiken, o artífice da célebre Carta ao Povo Brasileiro, documento em que o presidente eleito se comprometeu, pela primeira vez, a cumprir o acordo do Brasil com o FMI.

Em Ribeirão, já havia feito a mesma coisa. Aproximou-se de empresários da região e esforçou-se para que o PT também o fizesse. Ensinou o partido a substituir o quase pejorativo termo "usineiros" pelo politicamente mais correto "representantes do setor sucro-alcooleiro" e foi o responsável pelo fato de Lula pisar pela primeira vez numa usina de açúcar cujo anfitrião era o proprietário. "Ele argumentava que o partido precisava conhecer o processo canavieiro, em vez de olhá-lo apenas do ponto de vista do trabalhador", conta Donizeti Rosa, secretário de governo em Ribeirão e assessor de Palocci há dezoito anos. O resultado da estratégia pode ser medido pelo cenário atual: na última eleição, o prefeito Palocci contou com o apoio maciço dos usineiros, que financiaram 20% de sua campanha e hoje lhe fazem elogios derramados como o do empresário Maurílio Biagi, dono da usina Santa Elisa: "O Palocci cativa a gente com seu jeito de argumentar. Ele consolidou outra imagem do PT na sociedade. Para mim, é um predestinado", afirma.

Em 1995, o prefeito fez sua aposta mais ousada. Num momento em que o PT voltava todos os canhões na direção do projeto de privatização das teles iniciado pelo governo federal, Palocci decidiu abrir o capital da Ceterp, a companhia telefônica municipal. Com a venda de metade das ações, irrigou os cofres ressequidos da prefeitura, transformou a cidade num canteiro de obras e foi chamado por colegas de partido de traidor, "vendido" e até, insulto dos insultos, "neoliberal".

Ninguém tenha dúvidas de que, na trindade de Lula, Palocci, ex-trotskista que começou a militância política no grupo Liberdade e Luta, a Libelu, está hoje sentado à direita do presidente do PT, José Dirceu, e do ex-deputado federal Luiz Gushiken. E ninguém duvide da permeabilidade do presidente eleito aos sussurros da mais nova estrela emergente do partido. Exemplo disso é o trecho do livro de Palocci A Reforma do Estado e os Municípios em que ele define a globalização como "um processo inexorável do sistema econômico mundial – e não uma mercadoria que podemos optar por comprar ou não". Alguém se lembra das palavras que Lula usou nos debates para falar da questão? Exatamente as mesmas de Palocci: globalização não é uma mercadoria que podemos optar por comprar ou não. Detalhe: o livro do médico foi escrito em 1996, época em que o PT era ainda tão light quanto 1 quilo de torresmo.

 
Antonio Milena
Ensaio para Lula: em Ribeirão Preto, o vice-prefeito é empresário e a telefônica, privatizada

A experiência de Ribeirão Preto servirá também para antecipar algumas das prováveis vicissitudes que o partido irá enfrentar em sua nova condição de governo. Palocci viveu muitas. Ele conta que, no início da administração, chegou a receber de subordinados, em vez das esperadas propostas de soluções, extensas listas de reivindicações. "Alguns diretores e coordenadores não se viam como governo, mas como líderes populares que estavam ali para cobrar coisas em nome daqueles que entendiam representar", diz. Em outra ocasião, lembra, viu entrar em seu gabinete um grupo do Sindicato dos Condutores de Ônibus que, singelamente, lhe comunicou ter vindo pedir apoio para a greve que iniciariam no dia seguinte. "Tive de lembrá-los de que prefeito não pode apoiar greve, tem de garantir transporte para a população".

Terminou o primeiro mandato com 80% de aprovação, segundo o Ibope, mas não conseguiu fazer seu sucessor – fato que atribui a uma certa "postura olímpica" adotada pelo partido, que foi para o 2º turno com 18% de vantagem e terminou derrotado pelo PSDB por uma diferença de 0,6%. Agora, no meio de sua segunda gestão como prefeito de Ribeirão, o coordenador da equipe de transição do PT e virtual ministro do governo Lula mais uma vez deverá renunciar ao mandato. Já o fez quando era vereador (para candidatar-se a deputado estadual); renunciou de novo quando foi eleito para a Assembléia Legislativa de São Paulo (para tentar pela primeira vez a prefeitura); e ainda uma vez quando conquistou a vaga de deputado federal (para disputar a reeleição municipal). O único mandato que cumpriu até o fim foi o primeiro, de prefeito. "Palocci é um administrador ausente", acusa o vereador e adversário Nicanor Lopes, do PSDB. "Sente tédio em governar a cidade. Acha que Ribeirão ficou pequena demais para ele." Profecia?

 
 
   
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