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O
laboratório do PT
Prefeito de Ribeirão Preto, Antônio
Palocci
testou fórmulas que o
partido adota agora e
fez de sua
gestão um ensaio do governo Lula
Thaís
Oyama
Antonio Milena
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| Ex-vereador,
ex-deputado estadual e federal, o prefeito Palocci prepara-se pela
quarta vez para renunciar a um mandato e, em 2003, assumir posto-chave
no governo Lula |

Veja também |
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O
PT light e, para usar uma palavra da moda, propositivo, que o Brasil conheceu
nas últimas eleições, não é fruto apenas
de truques ilusionistas do marketing: ele vem sendo experimentado há
algum tempo em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo.
Desde 1993, quando inaugurou sua primeira administração
petista, a Califórnia brasileira, com seus 500 000 habitantes,
transformou-se numa espécie de laboratório do partido. Sob
o comando do prefeito Antônio Palocci, testou fórmulas que
o PT agora aplica em nível nacional, antecipou alianças
que viriam a se repetir quase dez anos depois e, sobretudo, revelou dificuldades
que o novo governo há de experimentar a partir de 1º de janeiro.
No salto da oposição para a situação, o presidente
eleito Luiz Inácio Lula da Silva dificilmente escapará das
dores da metamorfose e Palocci, agora um de seus homens-fortes,
poderá dizer que já viu esse filme antes.
Qualquer semelhança não é mera coincidência:
se Lula escandalizou correligionários ao escolher para candidato
a vice um empresário rico, o mineiro José Alencar, Palocci
já tinha o seu dois anos atrás. O vice-prefeito de Ribeirão
Preto, Gilberto Maggioni, não só é um industrial
de tintas bem-sucedido e, como o senador José Alencar, egresso
de um partido estranho à cultura petista. Além disso, na
época em que entrou na chapa como vice de Palocci, Maggioni presidia
a Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto,
espécie de Fiesp local. Mais: Lula brigou no PT para trazer para
a campanha o publicitário Duda Mendonça, ex-colaborador
de Paulo Maluf. Pois a primeira vez que a equipe do marqueteiro pisou
em território petista foi na reeleição do prefeito
Palocci, dois anos atrás. Se o triunfo do PT nas eleições
presidenciais representa a primeira vitória da esquerda no plano
nacional, a chegada de Palocci à prefeitura de Ribeirão
marcou a ruptura da cidade com seu conservadorismo histórico
e forjou o que hoje parece ser o mais perfeito ensaio do governo Lula.
Palocci elegeu-se pela primeira vez em 1992, com um vice tucano e o apoio
de partidos que iam da centro-esquerda à oposição
mais enfurecida. Assumiu a prefeitura em meio à generalizada desconfiança
da oligarquia canavieira, à imensa expectativa da população
que o elegera e com os cofres praticamente vazios. A campanha da qual
saíra vitorioso havia sido uma das mais acirradas que a cidade
já vira para alguns setores de Ribeirão Preto, cuja
renda per capita é quase o dobro da brasileira, a possibilidade
de eleger um prefeito petista evocava os relâmpagos do apocalipse.
O primeiro movimento de Palocci, portanto, foi uma tentativa de desarmar
espíritos tarefa na qual, afirmam amigos, é mestre.
No dia seguinte à posse, convidou o candidato derrotado, Antonio
Nogueira, do PFL, para uma solenidade no palácio do governo. O
motivo da festa era a inauguração de um salão que
levava o nome do pai do pefelista, duas vezes prefeito da cidade e também
chamado Antonio Nogueira. Palocinho Paz e Amor.
Arquivo pessoal
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Antonio Milena
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| Caçula
de quatro irmãos, Palocci foi professor de redação em cursinho e formou-se
médico. Na época em que era da Libelu, grupo de ultra-esquerda, comandava
greves; agora, prefeito, briga pelo fim das paralisações |
Filho
de um escultor e funcionário público descendente de italianos
e de uma dona-de-casa, Palocci, leitor de Thomas Mann e de Machado de
Assis, queria ser jornalista quando criança. Chegou a ser professor
de técnica de redação num curso pré-vestibular,
mas optou pela medicina, cursada na Universidade de São Paulo.
É seu único curso superior. Tudo o que sabe sobre economia
aprendeu sozinho. Em 1989, eleito o primeiro vereador do PT em Ribeirão
Preto, viu-se às voltas com discussões sobre orçamento
e decidiu que tinha de entender do assunto. Hoje, se não pode ser
considerado um especialista na matéria, tem ao menos um mérito:
sabe conversar com quem entende dela. Durante a campanha presidencial,
transformou-se no principal interlocutor do PT com o empresariado. Levou
Lula para discursar na Federação Nacional dos Bancos e foi,
com o ex-deputado federal Luiz Gushiken, o artífice da célebre
Carta ao Povo Brasileiro, documento em que o presidente eleito se comprometeu,
pela primeira vez, a cumprir o acordo do Brasil com o FMI.
Em Ribeirão, já havia feito a mesma coisa. Aproximou-se
de empresários da região e esforçou-se para que o
PT também o fizesse. Ensinou o partido a substituir o quase pejorativo
termo "usineiros" pelo politicamente mais correto "representantes do setor
sucro-alcooleiro" e foi o responsável pelo fato de Lula pisar pela
primeira vez numa usina de açúcar cujo anfitrião
era o proprietário. "Ele argumentava que o partido precisava conhecer
o processo canavieiro, em vez de olhá-lo apenas do ponto de vista
do trabalhador", conta Donizeti Rosa, secretário de governo em
Ribeirão e assessor de Palocci há dezoito anos. O resultado
da estratégia pode ser medido pelo cenário atual: na última
eleição, o prefeito Palocci contou com o apoio maciço
dos usineiros, que financiaram 20% de sua campanha e hoje lhe fazem elogios
derramados como o do empresário Maurílio Biagi, dono da
usina Santa Elisa: "O Palocci cativa a gente com seu jeito de argumentar.
Ele consolidou outra imagem do PT na sociedade. Para mim, é um
predestinado", afirma.
Em 1995, o prefeito fez sua aposta mais ousada. Num momento em que o PT
voltava todos os canhões na direção do projeto de
privatização das teles iniciado pelo governo federal, Palocci
decidiu abrir o capital da Ceterp, a companhia telefônica municipal.
Com a venda de metade das ações, irrigou os cofres ressequidos
da prefeitura, transformou a cidade num canteiro de obras e foi chamado
por colegas de partido de traidor, "vendido" e até, insulto dos
insultos, "neoliberal".
Ninguém tenha dúvidas de que, na trindade de Lula, Palocci,
ex-trotskista que começou a militância política no
grupo Liberdade e Luta, a Libelu, está hoje sentado à direita
do presidente do PT, José Dirceu, e do ex-deputado federal Luiz
Gushiken. E ninguém duvide da permeabilidade do presidente eleito
aos sussurros da mais nova estrela emergente do partido. Exemplo disso
é o trecho do livro de Palocci A Reforma do Estado e os Municípios
em que ele define a globalização como "um processo inexorável
do sistema econômico mundial e não uma mercadoria
que podemos optar por comprar ou não". Alguém se lembra
das palavras que Lula usou nos debates para falar da questão? Exatamente
as mesmas de Palocci: globalização não é uma
mercadoria que podemos optar por comprar ou não. Detalhe: o livro
do médico foi escrito em 1996, época em que o PT era ainda
tão light quanto 1 quilo de torresmo.
Antonio Milena
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| Ensaio
para Lula: em Ribeirão Preto, o vice-prefeito é empresário e a telefônica,
privatizada |
A
experiência de Ribeirão Preto servirá também
para antecipar algumas das prováveis vicissitudes que o partido
irá enfrentar em sua nova condição de governo. Palocci
viveu muitas. Ele conta que, no início da administração,
chegou a receber de subordinados, em vez das esperadas propostas de soluções,
extensas listas de reivindicações. "Alguns diretores e coordenadores
não se viam como governo, mas como líderes populares que
estavam ali para cobrar coisas em nome daqueles que entendiam representar",
diz. Em outra ocasião, lembra, viu entrar em seu gabinete um grupo
do Sindicato dos Condutores de Ônibus que, singelamente, lhe comunicou
ter vindo pedir apoio para a greve que iniciariam no dia seguinte. "Tive
de lembrá-los de que prefeito não pode apoiar greve, tem
de garantir transporte para a população".
Terminou o primeiro mandato com 80% de aprovação, segundo
o Ibope, mas não conseguiu fazer seu sucessor fato que atribui
a uma certa "postura olímpica" adotada pelo partido, que foi para
o 2º turno com 18% de vantagem e terminou derrotado pelo PSDB por
uma diferença de 0,6%. Agora, no meio de sua segunda gestão
como prefeito de Ribeirão, o coordenador da equipe de transição
do PT e virtual ministro do governo Lula mais uma vez deverá renunciar
ao mandato. Já o fez quando era vereador (para candidatar-se a
deputado estadual); renunciou de novo quando foi eleito para a Assembléia
Legislativa de São Paulo (para tentar pela primeira vez a prefeitura);
e ainda uma vez quando conquistou a vaga de deputado federal (para disputar
a reeleição municipal). O único mandato que cumpriu
até o fim foi o primeiro, de prefeito. "Palocci é um administrador
ausente", acusa o vereador e adversário Nicanor Lopes, do PSDB.
"Sente tédio em governar a cidade. Acha que Ribeirão ficou
pequena demais para ele." Profecia?
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