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Edição 1 776 - 6 de novembro de 2002
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Um por todos
e todos por um

João Gabriel de Lima, Thaís Oyama e Maurício Lima

 
Fotos Dida Sampaio/AE
Lula, em sua primeira visita a Brasília após a eleição presidencial, saúda militantes em frente ao Palácio do Planalto: por enquanto, promessa cumprida


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O laboratório do PT
O mundo decifra Lula
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Notícias diárias sobre o governo de transição

Vivendo as delícias de sua primeira semana como presidente eleito do Brasil, e festejado em sua visita a Brasília como se fosse um artista popular, Luiz Inácio Lula da Silva apresentou ao país sua santíssima trindade – a tróica que teve alta influência em sua campanha, tem profundo domínio sobre o Partido dos Trabalhadores e, possivelmente, terá papel relevante na formação de seu governo. Um deles é o deputado José Dirceu, 56 anos, presidente do PT, a quem coube, na semana passada, circular pelo Congresso reforçando a aproximação com aliados e trocando idéias com adversários. Objetivo: formar, desde já, uma base de apoio ao novo governo. O outro é o prefeito licenciado de Ribeirão Preto, o médico Antônio Palocci, 42 anos, estrela em ascensão no petismo que acaba de ser escalada para chefiar a equipe de cinqüenta nomes que fará a transição mais civilizada da história brasileira. E o primeiro indicado para integrar a equipe de transição vem a ser justamente o terceiro pé do trio de apoio do presidente eleito: o ex-deputado Luiz Gushiken, 52 anos, o mais discreto da turma, a quem Lula chama de "China", numa referência afetuosa a sua ascendência oriental.

Na semana passada, os líderes tucanos e pefelistas, agora na oposição, armaram um circo para satirizar o caminho de austeridade escolhido pelo PT e fartamente premiado nas urnas. Fizeram galhofa dizendo que, agora, o salário mínimo teria de subir para 100 dólares e a alíquota do imposto de renda deveria ser reduzida, como sempre pregou o partido de Lula. "Vai ser curioso ver o PT defendendo um salário mínimo menor que 240 reais", ironizou o deputado Jutahy Junior, líder do PSDB na Câmara. O PT por muito tempo defendeu essas bandeiras, com o propósito de constranger o presidente Fernando Henrique e firmar-se como defensor dos excluídos. Mas isso não justifica a atitude de tucanos e pefelistas. Na posição de governo, o PT, agora, está lidando com o plano da realidade, e não do teatro político, como fez até anteontem. Nesse sentido, os cardeais do partido deram uma demonstração de realismo na semana passada, mantendo-se fiéis às promessas de austeridade feitas na campanha.

 
Luiz Gushiken, Antônio Palocci e José Dirceu, a poderosa tróica do novo governo: um é amigo de Lula, o outro é o interlocutor no mercado e o terceiro é o braço forte na articulação política

"Sem as reformas tributária e previdenciária não haverá renegociação da dívida dos Estados", disse José Dirceu, usando apenas uma forma delicada de se recusar a abrir o cofre para governadores endividados, já que uma coisa não tem nada a ver com a outra. "Não haverá mudança nas metas de inflação", completou Antônio Palocci, perseverando na linha da austeridade. Economista de destaque no partido, o senador eleito Aloizio Mercadante também fez questão de avisar: "A alíquota do imposto de renda deve continuar em 27,5%", reafirmou ele. É uma diversão para os adversários ver o PT defendendo políticas de austeridade pregadas pelo Fundo Monetário Internacional e aplicadas disciplinadamente pelo ministro Pedro Malan e por Armínio Fraga, presidente do Banco Central. Mas era exatamente essa posição de austeridade que o PT vinha prometendo seguir caso Lula viesse a ser eleito presidente da República. Na primeira semana após a eleição, o partido continuou reafirmando a mesma promessa.

As três grandes estrelas do PT, Dirceu, Palocci e Gushiken, são os homens fortes de Lula, as pessoas com quem se deve falar quando se espera ser ouvido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Formaram a trindade da linha de frente por caminhos diversos. Luiz Gushiken é um velho companheiro de Lula, dos tempos em que eram colegas de militância sindical, nos anos 70. José Dirceu começou a estreitar a aproximação com o presidente eleito a partir de 1995, quando passaram ambos a construir o projeto de um PT moderado, sufocando as correntes mais radicais do partido. Antônio Palocci é o mais recente da turma. Com currículo de bom prefeito em Ribeirão Preto, cidade que administra pela segunda vez, Palocci entrou para a tróica por acidente do destino. Seu papel seria exercido por Celso Daniel, prefeito de Santo André que morreu assassinado em janeiro deste ano. Escalado de última hora, Palocci mostrou serviço e conquistou espaço na cúpula do petismo.

 
Roberto Castro/AE
FHC, reunido em Brasília com a equipe que dará informações ao novo governo, na transição mais civilizada do país: tanto no grupo mais próximo de FHC quanto no de Lula, só há "paulistas" e fundadores de partido

Antônio Palocci, militante de uma corrente trotskista anos atrás, está entre os primeiros convertidos à prática do capitalismo, como demonstra sua primeira gestão na prefeitura de Ribeirão Preto, entre 1993 e 1996. Privatizou o serviço de esgoto sanitário e as telecomunicações da cidade, provocando indignação entre as alas mais esquerdistas do partido. "Eu estou à direita de José Dirceu", brinca ele, ao definir sua posição. Palocci também foi o artífice da contratação do publicitário Duda Mendonça, que construiu a parte mais visível de sua carreira trabalhando para o ex-prefeito Paulo Maluf. Em 2000, ao concorrer novamente à prefeitura de Ribeirão Preto, Palocci contratou Duda Mendonça, ficou encantado com o trabalho e fez questão de levá-lo para a campanha de Lula. José Dirceu é, ele próprio, o símbolo da guinada petista ao centro. "Quando decidimos que o radicalismo ia matar o PT éramos minoria absoluta. Tínhamos 30% conosco", recorda Dirceu. "A duras penas ganhamos a maioria, e nossa visão começou a se tornar hegemônica. Hoje temos o controle do partido", completa ele.

Qualquer presidente, não importa a origem nem a ideologia, tem um círculo de colaboradores mais próximos. Fernando Collor de Mello celebrizou a chamada República das Alagoas, grupo que se tornou mais conhecido pelas estripulias do que propriamente pela excelência de seu trabalho. O ex-presidente Itamar Franco cercava-se da turma do pão de queijo, assim apelidada por ser majoritariamente de Minas Gerais. A primeira eleição do presidente Fernando Henrique Cardoso, em 1994, marcou o auge de um grupo de políticos paulistas, todos fundadores do PSDB. Além do presidente, a turma era composta por José Serra, derrotado no pleito presidencial, pelo ex-ministro Sergio Motta e pelo ex-governador Mário Covas, os dois últimos falecidos durante a gestão de FHC. A turma de Lula tem semelhanças de origem – também é composta por políticos que fizeram carreira em São Paulo e são igualmente fundadores do PT.

 
Ana Araujo
Prédio do Banco do Brasil onde ficará a equipe de transição do novo governo

Luiz Gushiken desfruta a intimidade de Lula. As duas famílias se visitam, suas esposas são amigas e, entre os chefões petistas, é o único a freqüentar regularmente o fechadíssimo sítio da família de Lula na Represa Billings, em São Paulo. Também é o único a discordar abertamente do chefe. A um presidente, é fundamental ter críticos por perto. Conta a história que, numa reunião sobre um tema relevante da II Guerra, o presidente americano Franklin Roosevelt expôs uma opinião e esperava a concordância geral. Circundou a mesa e, dirigindo-se a um jovem general, recém-chegado a Washington, disse: "Estou certo de que você também concorda". A resposta: "Não, não concordo, senhor". Os demais assessores acharam que seria a primeira e última reunião do novato, mas Roosevelt ouviu-o com atenção. O jovem general era George Marshall, que liderou as tropas aliadas e batizou o plano que recuperou a Europa dos escombros da II Guerra.

Gushiken não tem nada de general. Ao contrário. Já foi budista, praticou a macrobiótica e, ao preparar Lula para os debates da campanha, recorria a sessões de relaxamento e preleções recheadas de analogias. "Você não pode mais ser o tigre", disse a Lula, quando tentava convencê-lo a passar uma imagem de estadista na televisão. "O tigre salta direto na jugular do inimigo, mas você agora é a águia: voa acima dos outros pássaros, fica pairando majestosamente sobre o inimigo até que, no momento certo, mergulha para dar o bote final." O grande truque do China é sempre parecer o que não é – indefeso e inofensivo. Com saúde frágil, teve um infarto alguns anos atrás, corrigido com a implantação de um balão na artéria, e se recupera de uma recente extração do estômago por causa de um tumor. Com o duodeno expandido cirurgicamente para fazer o papel de estômago, Gushiken mantém uma dieta rígida, comendo pouco e sempre. Na campanha, porém, mostrou fôlego, e a vitória petista parece tê-lo revitalizado. Antes, dissera a Lula que só faria a campanha e voltaria para casa, mas foi convencido a ficar. Por seu conhecimento em questões previdenciárias, pode virar ministro da Previdência. Se a saúde não permitir, com certeza integrará o grupo palaciano de Lula, pois seu papel, no fundo, é fazer uma avaliação pessoal e intransferível ao presidente eleito de como andam as coisas.

A relação de José Dirceu com Lula, que já tem duas décadas ao todo, é diferente. Limita-se à esfera política e partidária. O presidente do PT é um trabalhador compulsivo e exigente. "É do tipo que dá bronca até em secretária eletrônica", comenta um colega que o conhece de perto. Na campanha, enquanto a equipe comemorava em restaurantes ou bares uma notícia boa, José Dirceu ia direto para o hotel, para acordar cedo no dia seguinte. Se necessário, trabalha de dezesseis a dezoito horas por dia e cuida de tudo – da grande política aos detalhes. Durante a empreitada eleitoral, coube a ele decidir que Lula iria a apenas um debate na televisão. "Foi decisão minha, e não abriria mão disso de maneira alguma", relembra. Uma semana antes do primeiro turno, negou-se a aceitar a pressão para que o partido antecipasse o nome do presidente do Banco Central. Ao mesmo tempo em que influi nas grandes questões, José Dirceu dá-se ao trabalho, por exemplo, de verificar se o palanque de um comício tem estrutura para agüentar a massa. No último comício da campanha, em São Bernardo do Campo, começou a temer que a estrutura despencasse sob o peso de tanta gente. Postou-se à entrada e impediu o acesso além de um certo número de convidados.

Com seu empenho por tudo, o presidente do PT teve um poder incontrastável na campanha de Lula. Um dos primeiros petistas a cultivar laços com empresários, banqueiros e políticos de todas as tendências, Dirceu quebrou a espinha dorsal das correntes radicais e acabou com o tradicional assembleísmo do partido. "Com ele, o PT passou a decidir primeiro e se reunir depois", diz um dirigente do partido. Na campanha, Dirceu participou, quase sempre como mentor, de todas as articulações fundamentais. "Pouca gente sabe, mas foi Dirceu quem primeiro entendeu a potencialidade de um vice na chapa de Lula como o José Alencar, do Partido Liberal", comenta um cacique petista. Graças a seu trabalho, o PT de Lula atraiu o apoio de dois ex-presidentes – José Sarney e Itamar Franco – e manteve uma linha direta com o presidente Fernando Henrique. Durante a campanha, José Dirceu falava quase diariamente com FHC por telefone. Entre os petistas, Dirceu é o único que poderia escolher o cargo que gostaria de ocupar no novo governo, e esse cargo, possivelmente, seria o Ministério da Justiça, se prevalecer a bola de cristal dos amigos de José Dirceu. Se de fato assumi-lo, Dirceu deve deixar a presidência do PT, pois Lula quer que o partido se mantenha forte e atuante, e não como linha administrativa auxiliar do governo. "Dirceu e Lula se entendem por sinais", define o empresário e consultor paulista Antoninho Marmo Trevisan, que votou em Lula.

Com sua trajetória ascendente, o PT transformou-se num partido com muitas estrelas de primeira grandeza. A sigla reúne técnicos respeitados, como o economista Guido Mantega, responsável pelas principais idéias econômicas da plataforma eleitoral de Lula, e o agrônomo José Graziano, que conseguiu agregar grandes cabeças sobre questões agrícolas e produzir o prato de resistência do início do mandato de Lula – o projeto de combate à fome, chamado de Fome Zero. Um trabalho que o qualificou para ocupar o primeiro órgão anunciado por Lula, a Secretaria Nacional de Emergência Social. No plano político, o partido também tem uma constelação para exibir. Nela, incluem-se nomes como Aloizio Mercadante, dono de uma votação histórica para o Senado por São Paulo, a esfuziante prefeita Marta Suplicy, que administra a principal capital do país, e o deputado José Genoíno, político popular e carismático e o primeiro petista a disputar um segundo turno para o governo paulista. Piada dentro do PT: quando há três cadeiras vagas e cinco cardeais petistas em pé, Genoíno não se senta, a menos que convidado. Já Mercadante se senta imediatamente e quer indicar quem vai sentar-se nas duas outras cadeiras.

No PT, ser uma estrela que brilha diante das massas é uma coisa – e bilhar dentro do partido é outra. Nessa categoria, encaixa-se o secretário-geral do partido, Luiz Dulci, um esmerado articulador político, que muito auxiliou José Dirceu, mas sempre evitou os holofotes. É nessa categoria, também, que se encontra Antônio Palocci, que começou a crescer dentro do partido e depois se projetou para fora. Ele é o sujeito que nunca leva problemas para Lula. Palocci só chega diante do chefe com soluções à mão, e sempre com uma cara sorridente e descansada de quem acabou de sair do banho. Seu crescente poder no PT decorre do fato de, na campanha, ter sido o principal interlocutor do partido com empresários, banqueiros e o mercado financeiro – posição que herdou de Mercadante, que se ocupava de sua campanha ao Senado. Nessa função, Palocci surpreendeu. "Desenvolvemos um relacionamento fantástico", diz Horácio Lafer Piva, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo. Em conversas reservadas, Palocci até já comentou sua admiração pessoal por Armínio Fraga, atual presidente do Banco Central. Metódico e organizado, foi ele quem insistiu para que o PT colocasse por escrito seus compromissos econômicos, o que tomou a forma da Carta ao Povo Brasileiro, e tornou-se uma voz petista capaz de tranqüilizar o mercado. Por essas e outras, é cotado para assumir um vitaminado Ministério do Planejamento. A pasta teria mais importância que o Ministério da Fazenda, agregando Banco do Brasil e Caixa Econômica. Com isso, Palocci, estrela ascendente do petismo, ganharia ares de superministro. Por enquanto, isso ainda é uma questão aberta dentro do futuro governo. O fato é que Palocci pode ir para qualquer lugar. Mas, onde ele estiver, esse lugar terá peso na administração de Lula.

A parte mais progressista e moderada do PT descobriu recentemente que jamais chegaria a lugar algum com aquela pregação ultrapassada de um modelo socialista para o Brasil, num momento em que os regimes comunistas foram varridos do mundo inteiro a partir do fim dos anos 80, só deixando vestígios em duas ditaduras, a de Cuba e a da Coréia do Norte. Até o último momento o PT continuou fazendo oposição irresponsável ao governo Fernando Henrique Cardoso, mas às vésperas da eleição presidencial finalmente resolveu dizer que estava jogando a toalha. Seus representantes entraram em contato com as federações das indústrias, deram as mãos à federação dos bancos (Febraban) e até armaram um pacto com a bolsa de valores. Não se sabe até quando vai durar a boa vontade da cúpula petista em relação ao mercado, tão odiado no PT até meses atrás. As primeiras manifestações dos mosqueteiros de Lula na semana passada, no entanto, parecem reafirmar aquilo que, a portas fechadas, os cardeais do partido vinham garantindo antes da eleição: as alas radicais e reacionárias do PT estão sob controle da hierarquia do partido, e não se espera que incomodem a ponto de confundir o jogo.

 
 
   
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