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João
Gabriel de Lima, Thaís Oyama e Maurício Lima
Fotos Dida Sampaio/AE
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| Lula,
em sua primeira visita a Brasília após a eleição presidencial, saúda
militantes em frente ao Palácio do Planalto: por enquanto, promessa
cumprida |

Acesso rápido |
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Vivendo
as delícias de sua primeira semana como presidente eleito do Brasil,
e festejado em sua visita a Brasília como se fosse um artista popular,
Luiz Inácio Lula da Silva apresentou ao país sua santíssima
trindade a tróica que teve alta influência em sua
campanha, tem profundo domínio sobre o Partido dos Trabalhadores
e, possivelmente, terá papel relevante na formação
de seu governo. Um deles é o deputado José Dirceu, 56 anos,
presidente do PT, a quem coube, na semana passada, circular pelo Congresso
reforçando a aproximação com aliados e trocando idéias
com adversários. Objetivo: formar, desde já, uma base de
apoio ao novo governo. O outro é o prefeito licenciado de Ribeirão
Preto, o médico Antônio Palocci, 42 anos, estrela em ascensão
no petismo que acaba de ser escalada para chefiar a equipe de cinqüenta
nomes que fará a transição mais civilizada da história
brasileira. E o primeiro indicado para integrar a equipe de transição
vem a ser justamente o terceiro pé do trio de apoio do presidente
eleito: o ex-deputado Luiz Gushiken, 52 anos, o mais discreto da turma,
a quem Lula chama de "China", numa referência afetuosa a sua ascendência
oriental.
Na semana passada, os líderes tucanos e pefelistas, agora na oposição,
armaram um circo para satirizar o caminho de austeridade escolhido pelo
PT e fartamente premiado nas urnas. Fizeram galhofa dizendo que, agora,
o salário mínimo teria de subir para 100 dólares
e a alíquota do imposto de renda deveria ser reduzida, como sempre
pregou o partido de Lula. "Vai ser curioso ver o PT defendendo um salário
mínimo menor que 240 reais", ironizou o deputado Jutahy Junior,
líder do PSDB na Câmara. O PT por muito tempo defendeu essas
bandeiras, com o propósito de constranger o presidente Fernando
Henrique e firmar-se como defensor dos excluídos. Mas isso não
justifica a atitude de tucanos e pefelistas. Na posição
de governo, o PT, agora, está lidando com o plano da realidade,
e não do teatro político, como fez até anteontem.
Nesse sentido, os cardeais do partido deram uma demonstração
de realismo na semana passada, mantendo-se fiéis às promessas
de austeridade feitas na campanha.
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| Luiz
Gushiken, Antônio Palocci e José Dirceu, a poderosa tróica do novo
governo: um é amigo de Lula, o outro é o interlocutor no mercado e
o terceiro é o braço forte na articulação política |
"Sem
as reformas tributária e previdenciária não haverá
renegociação da dívida dos Estados", disse José
Dirceu, usando apenas uma forma delicada de se recusar a abrir o cofre
para governadores endividados, já que uma coisa não tem
nada a ver com a outra. "Não haverá mudança nas metas
de inflação", completou Antônio Palocci, perseverando
na linha da austeridade. Economista de destaque no partido, o senador
eleito Aloizio Mercadante também fez questão de avisar:
"A alíquota do imposto de renda deve continuar em 27,5%", reafirmou
ele. É uma diversão para os adversários ver o PT
defendendo políticas de austeridade pregadas pelo Fundo Monetário
Internacional e aplicadas disciplinadamente pelo ministro Pedro Malan
e por Armínio Fraga, presidente do Banco Central. Mas era exatamente
essa posição de austeridade que o PT vinha prometendo seguir
caso Lula viesse a ser eleito presidente da República. Na primeira
semana após a eleição, o partido continuou reafirmando
a mesma promessa.
As três grandes estrelas do PT, Dirceu, Palocci e Gushiken, são
os homens fortes de Lula, as pessoas com quem se deve falar quando se
espera ser ouvido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Formaram
a trindade da linha de frente por caminhos diversos. Luiz Gushiken é
um velho companheiro de Lula, dos tempos em que eram colegas de militância
sindical, nos anos 70. José Dirceu começou a estreitar a
aproximação com o presidente eleito a partir de 1995, quando
passaram ambos a construir o projeto de um PT moderado, sufocando as correntes
mais radicais do partido. Antônio Palocci é o mais recente
da turma. Com currículo de bom prefeito em Ribeirão Preto,
cidade que administra pela segunda vez, Palocci entrou para a tróica
por acidente do destino. Seu papel seria exercido por Celso Daniel, prefeito
de Santo André que morreu assassinado em janeiro deste ano. Escalado
de última hora, Palocci mostrou serviço e conquistou espaço
na cúpula do petismo.
Roberto Castro/AE
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| FHC,
reunido em Brasília com a equipe que dará informações ao novo governo,
na transição mais civilizada do país: tanto no grupo mais próximo
de FHC quanto no de Lula, só há "paulistas" e fundadores de partido
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Antônio
Palocci, militante de uma corrente trotskista anos atrás, está
entre os primeiros convertidos à prática do capitalismo,
como demonstra sua primeira gestão na prefeitura de Ribeirão
Preto, entre 1993 e 1996. Privatizou o serviço de esgoto sanitário
e as telecomunicações da cidade, provocando indignação
entre as alas mais esquerdistas do partido. "Eu estou à direita
de José Dirceu", brinca ele, ao definir sua posição.
Palocci também foi o artífice da contratação
do publicitário Duda Mendonça, que construiu a parte mais
visível de sua carreira trabalhando para o ex-prefeito Paulo Maluf.
Em 2000, ao concorrer novamente à prefeitura de Ribeirão
Preto, Palocci contratou Duda Mendonça, ficou encantado com o trabalho
e fez questão de levá-lo para a campanha de Lula. José
Dirceu é, ele próprio, o símbolo da guinada petista
ao centro. "Quando decidimos que o radicalismo ia matar o PT éramos
minoria absoluta. Tínhamos 30% conosco", recorda Dirceu. "A duras
penas ganhamos a maioria, e nossa visão começou a se tornar
hegemônica. Hoje temos o controle do partido", completa ele.
Qualquer presidente, não importa a origem nem a ideologia, tem
um círculo de colaboradores mais próximos. Fernando Collor
de Mello celebrizou a chamada República das Alagoas, grupo que
se tornou mais conhecido pelas estripulias do que propriamente pela excelência
de seu trabalho. O ex-presidente Itamar Franco cercava-se da turma do
pão de queijo, assim apelidada por ser majoritariamente de Minas
Gerais. A primeira eleição do presidente Fernando Henrique
Cardoso, em 1994, marcou o auge de um grupo de políticos paulistas,
todos fundadores do PSDB. Além do presidente, a turma era composta
por José Serra, derrotado no pleito presidencial, pelo ex-ministro
Sergio Motta e pelo ex-governador Mário Covas, os dois últimos
falecidos durante a gestão de FHC. A turma de Lula tem semelhanças
de origem também é composta por políticos
que fizeram carreira em São Paulo e são igualmente fundadores
do PT.
Ana Araujo
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| Prédio
do Banco do Brasil onde ficará a equipe de transição do novo governo
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Luiz
Gushiken desfruta a intimidade de Lula. As duas famílias se visitam,
suas esposas são amigas e, entre os chefões petistas, é
o único a freqüentar regularmente o fechadíssimo sítio
da família de Lula na Represa Billings, em São Paulo. Também
é o único a discordar abertamente do chefe. A um presidente,
é fundamental ter críticos por perto. Conta a história
que, numa reunião sobre um tema relevante da II Guerra, o presidente
americano Franklin Roosevelt expôs uma opinião e esperava
a concordância geral. Circundou a mesa e, dirigindo-se a um jovem
general, recém-chegado a Washington, disse: "Estou certo de que
você também concorda". A resposta: "Não, não
concordo, senhor". Os demais assessores acharam que seria a primeira e
última reunião do novato, mas Roosevelt ouviu-o com atenção.
O jovem general era George Marshall, que liderou as tropas aliadas e batizou
o plano que recuperou a Europa dos escombros da II Guerra.
Gushiken não tem nada de general. Ao contrário. Já
foi budista, praticou a macrobiótica e, ao preparar Lula para os
debates da campanha, recorria a sessões de relaxamento e preleções
recheadas de analogias. "Você não pode mais ser o tigre",
disse a Lula, quando tentava convencê-lo a passar uma imagem de
estadista na televisão. "O tigre salta direto na jugular do inimigo,
mas você agora é a águia: voa acima dos outros pássaros,
fica pairando majestosamente sobre o inimigo até que, no momento
certo, mergulha para dar o bote final." O grande truque do China é
sempre parecer o que não é indefeso e inofensivo.
Com saúde frágil, teve um infarto alguns anos atrás,
corrigido com a implantação de um balão na artéria,
e se recupera de uma recente extração do estômago
por causa de um tumor. Com o duodeno expandido cirurgicamente para fazer
o papel de estômago, Gushiken mantém uma dieta rígida,
comendo pouco e sempre. Na campanha, porém, mostrou fôlego,
e a vitória petista parece tê-lo revitalizado. Antes, dissera
a Lula que só faria a campanha e voltaria para casa, mas foi convencido
a ficar. Por seu conhecimento em questões previdenciárias,
pode virar ministro da Previdência. Se a saúde não
permitir, com certeza integrará o grupo palaciano de Lula, pois
seu papel, no fundo, é fazer uma avaliação pessoal
e intransferível ao presidente eleito de como andam as coisas.
A relação de José Dirceu com Lula, que já
tem duas décadas ao todo, é diferente. Limita-se à
esfera política e partidária. O presidente do PT é
um trabalhador compulsivo e exigente. "É do tipo que dá
bronca até em secretária eletrônica", comenta um colega
que o conhece de perto. Na campanha, enquanto a equipe comemorava em restaurantes
ou bares uma notícia boa, José Dirceu ia direto para o hotel,
para acordar cedo no dia seguinte. Se necessário, trabalha de dezesseis
a dezoito horas por dia e cuida de tudo da grande política
aos detalhes. Durante a empreitada eleitoral, coube a ele decidir que
Lula iria a apenas um debate na televisão. "Foi decisão
minha, e não abriria mão disso de maneira alguma", relembra.
Uma semana antes do primeiro turno, negou-se a aceitar a pressão
para que o partido antecipasse o nome do presidente do Banco Central.
Ao mesmo tempo em que influi nas grandes questões, José
Dirceu dá-se ao trabalho, por exemplo, de verificar se o palanque
de um comício tem estrutura para agüentar a massa. No último
comício da campanha, em São Bernardo do Campo, começou
a temer que a estrutura despencasse sob o peso de tanta gente. Postou-se
à entrada e impediu o acesso além de um certo número
de convidados.
Com seu empenho por tudo, o presidente do PT teve um poder incontrastável
na campanha de Lula. Um dos primeiros petistas a cultivar laços
com empresários, banqueiros e políticos de todas as tendências,
Dirceu quebrou a espinha dorsal das correntes radicais e acabou com o
tradicional assembleísmo do partido. "Com ele, o PT passou a decidir
primeiro e se reunir depois", diz um dirigente do partido. Na campanha,
Dirceu participou, quase sempre como mentor, de todas as articulações
fundamentais. "Pouca gente sabe, mas foi Dirceu quem primeiro entendeu
a potencialidade de um vice na chapa de Lula como o José Alencar,
do Partido Liberal", comenta um cacique petista. Graças a seu trabalho,
o PT de Lula atraiu o apoio de dois ex-presidentes José
Sarney e Itamar Franco e manteve uma linha direta com o presidente
Fernando Henrique. Durante a campanha, José Dirceu falava quase
diariamente com FHC por telefone. Entre os petistas, Dirceu é o
único que poderia escolher o cargo que gostaria de ocupar no novo
governo, e esse cargo, possivelmente, seria o Ministério da Justiça,
se prevalecer a bola de cristal dos amigos de José Dirceu. Se de
fato assumi-lo, Dirceu deve deixar a presidência do PT, pois Lula
quer que o partido se mantenha forte e atuante, e não como linha
administrativa auxiliar do governo. "Dirceu e Lula se entendem por sinais",
define o empresário e consultor paulista Antoninho Marmo Trevisan,
que votou em Lula.
Com sua trajetória ascendente, o PT transformou-se num partido
com muitas estrelas de primeira grandeza. A sigla reúne técnicos
respeitados, como o economista Guido Mantega, responsável pelas
principais idéias econômicas da plataforma eleitoral de Lula,
e o agrônomo José Graziano, que conseguiu agregar grandes
cabeças sobre questões agrícolas e produzir o prato
de resistência do início do mandato de Lula o projeto
de combate à fome, chamado de Fome Zero. Um trabalho que o qualificou
para ocupar o primeiro órgão anunciado por Lula, a Secretaria
Nacional de Emergência Social. No plano político, o partido
também tem uma constelação para exibir. Nela, incluem-se
nomes como Aloizio Mercadante, dono de uma votação histórica
para o Senado por São Paulo, a esfuziante prefeita Marta Suplicy,
que administra a principal capital do país, e o deputado José
Genoíno, político popular e carismático e o primeiro
petista a disputar um segundo turno para o governo paulista. Piada dentro
do PT: quando há três cadeiras vagas e cinco cardeais petistas
em pé, Genoíno não se senta, a menos que convidado.
Já Mercadante se senta imediatamente e quer indicar quem vai sentar-se
nas duas outras cadeiras.
No PT, ser uma estrela que brilha diante das massas é uma coisa
e bilhar dentro do partido é outra. Nessa categoria, encaixa-se
o secretário-geral do partido, Luiz Dulci, um esmerado articulador
político, que muito auxiliou José Dirceu, mas sempre evitou
os holofotes. É nessa categoria, também, que se encontra
Antônio Palocci, que começou a crescer dentro do partido
e depois se projetou para fora. Ele é o sujeito que nunca leva
problemas para Lula. Palocci só chega diante do chefe com soluções
à mão, e sempre com uma cara sorridente e descansada de
quem acabou de sair do banho. Seu crescente poder no PT decorre do fato
de, na campanha, ter sido o principal interlocutor do partido com empresários,
banqueiros e o mercado financeiro posição que herdou
de Mercadante, que se ocupava de sua campanha ao Senado. Nessa função,
Palocci surpreendeu. "Desenvolvemos um relacionamento fantástico",
diz Horácio Lafer Piva, presidente da Federação das
Indústrias do Estado de São Paulo. Em conversas reservadas,
Palocci até já comentou sua admiração pessoal
por Armínio Fraga, atual presidente do Banco Central. Metódico
e organizado, foi ele quem insistiu para que o PT colocasse por escrito
seus compromissos econômicos, o que tomou a forma da Carta ao Povo
Brasileiro, e tornou-se uma voz petista capaz de tranqüilizar o mercado.
Por essas e outras, é cotado para assumir um vitaminado Ministério
do Planejamento. A pasta teria mais importância que o Ministério
da Fazenda, agregando Banco do Brasil e Caixa Econômica. Com isso,
Palocci, estrela ascendente do petismo, ganharia ares de superministro.
Por enquanto, isso ainda é uma questão aberta dentro do
futuro governo. O fato é que Palocci pode ir para qualquer lugar.
Mas, onde ele estiver, esse lugar terá peso na administração
de Lula.
A parte mais progressista e moderada do PT descobriu recentemente que
jamais chegaria a lugar algum com aquela pregação ultrapassada
de um modelo socialista para o Brasil, num momento em que os regimes comunistas
foram varridos do mundo inteiro a partir do fim dos anos 80, só
deixando vestígios em duas ditaduras, a de Cuba e a da Coréia
do Norte. Até o último momento o PT continuou fazendo oposição
irresponsável ao governo Fernando Henrique Cardoso, mas às
vésperas da eleição presidencial finalmente resolveu
dizer que estava jogando a toalha. Seus representantes entraram em contato
com as federações das indústrias, deram as mãos
à federação dos bancos (Febraban) e até armaram
um pacto com a bolsa de valores. Não se sabe até quando
vai durar a boa vontade da cúpula petista em relação
ao mercado, tão odiado no PT até meses atrás. As
primeiras manifestações dos mosqueteiros de Lula na semana
passada, no entanto, parecem reafirmar aquilo que, a portas fechadas,
os cardeais do partido vinham garantindo antes da eleição:
as alas radicais e reacionárias do PT estão sob controle
da hierarquia do partido, e não se espera que incomodem a ponto
de confundir o jogo.
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