Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 776 - 6 de novembro de 2002
Entrevista: John Williamson

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Índice
Seções
Brasil
Internacional
Economia e Negócios
Geral
Guia
Artes e Espetáculos

colunas
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Luiz Felipe de Alencastro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
Radar
Holofote
Contexto
VEJA on-line
Veja essa
Arc
Gente
Datas

VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Arquivo 1997-2002
Reportagens de capa
2000|2001|2002
Entrevistas
2000|2001|2002
Busca somente texto
96|97|98|99|00|01|02


Crie seu grupo




 
Acesso rápido
Páginas Amarelas de VEJA
2000 | 2001 | 2002

O Consenso
de Washington falhou

Economista inglês que criou termo usado
como sinônimo de neoliberalismo diz que
chegou a hora da distribuição de renda

Eduardo Salgado

 
Tasso Marcelo/AE
"Há governos de esquerda com boas relações com os EUA. Às vezes, a ideologia diferente até facilita o entendimento"

O economista inglês John Williamson, de 65 anos, tem um currículo extenso e eclético. Trabalhou no Ministério da Fazenda da Inglaterra durante um governo de centro-esquerda e passou pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Foi professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts e da Universidade Princeton, nos Estados Unidos. Um de seus feitos mais conhecidos foi cunhar, no fim da década de 80, o termo Consenso de Washington para designar um conjunto de idéias em favor da economia de mercado adotado com fervor por vários países em desenvolvimento. Williamson conhece bem o Brasil. Durante quatro anos lecionou na PUC do Rio, onde foi colega de Pedro Malan e professor de Armínio Fraga. Casado há 28 anos com uma brasileira, tem dois filhos e uma filha, que atualmente mora no Rio. Em português fluente, Williamson falou a VEJA por telefone de Washington, onde mora com a mulher e trabalha no Instituto de Economia Internacional, um renomado centro de pesquisa.  

Veja – O crescimento econômico da América Latina nos últimos anos foi baixíssimo. O Consenso de Washington falhou?
Williamson – O que ficou conhecido como Consenso de Washington falhou. Quando alguns países eliminaram as barreiras para o fluxo de capitais de forma rápida, foi um desastre. Com isso, os investimentos especulativos passaram a entrar e sair sem muitas restrições. Esse foi o caso de alguns países asiáticos e, de certa forma, também do Brasil na década de 90. Quando cunhei o termo Consenso de Washington, não pensava nisso, num Estado mínimo, nem numa política monetarista. A expressão ganhou o espaço público, e o conceito foi modificado. Nunca fui um neoliberal. Sempre apoiei as políticas do Chile e de Cingapura, que têm proteções contra os especuladores. A política fiscal não deve ser austera todo o tempo. Mas é preciso guardar durante os anos bons, para permitir os gastos durante as recessões.

Veja – Qual era o conceito original do Consenso de Washington?
Williamson – Era o que defendia as seguintes políticas: disciplina macroeconômica, economia de mercado e abertura comercial. Essas idéias continuam válidas. Duvido que Lula tivesse sido eleito sem aceitar muitos desses conceitos. Para crescer, é aconselhável manter essa linha e também ter mais cuidado, para evitar crises macroeconômicas. Uma maior ênfase em projetos sociais é outro ponto importante. Chegou a hora de atender a essa demanda. Um governo de centro-esquerda é justamente o que pode tocar isso.

Veja – O Consenso de Washington foi vendido pelo FMI e pelo Banco Mundial como a grande salvação. Mais de dez anos depois, a região continua extremamente vulnerável aos choques externos. A América Latina foi enganada?
Williamson – Não há soluções mágicas e rápidas. Foi um erro vender esse pacote de idéias dessa forma. Quem promete tudo nunca consegue cumprir. Ninguém pode negar que as expectativas de crescimento que existiam não foram atendidas. A América Latina continua vulnerável, mas isso não significa que todas as idéias do Consenso de Washington estejam erradas. As taxas de desemprego não seriam menores caso a América Latina tivesse seguido outro caminho. O fechamento da economia não teria aumentado o crescimento. A lei de informática, adotada no Brasil na década de 80, é um bom exemplo dos efeitos negativos do fechamento. Todo o mundo fazendo invenções e o Brasil sem poder usá-las.

Veja – O FMI não está sendo rígido demais com a Argentina ao pedir uma política fiscal austera em meio a uma grave crise social?
Williamson – Uma política fiscal menos restritiva na Argentina só pode ser financiada com uma inflação alta. Quem sofre com a inflação não são os ricos. Os ricos têm dólares. É um erro pensar que irresponsabilidade fiscal seria uma coisa boa para o país. Ninguém gosta de corte nos gastos sociais. Mas não adianta gastar mais agora e depois pagar de volta através do imposto inflacionário.

Veja – Há como promover a distribuição de renda sem afrouxar a austeridade fiscal?
Williamson – Não se trata apenas do tamanho do gasto social, mas de quem se beneficia. Uma das características dos governos da América Latina é gastar com os mais ricos. No Brasil, a área da educação é um grande exemplo. Gasta-se muito com as universidades públicas em detrimento do ensino fundamental. Isso contrasta com o que acontece em certos países asiáticos, como a Coréia do Sul. Concordo que o governo tem de dar apoio às universidades públicas, que são fundamentais em áreas estratégicas como a da pesquisa. Mas os alunos abastados precisam pagar. Com isso, as universidades ficarão ainda mais fortes. Na Previdência, também há grandes distorções. Certas categorias recebem aposentadoria integral, enquanto outras, não.

Veja – O senhor acha, então, que o problema não foram reformas demais, mas, sim, reformas de menos?
Williamson – Justamente. Precisamos de uma nova expressão que resuma as reformas mais urgentes na situação atual. Não terá a palavra consenso porque dificilmente será unânime. Não acho uma boa idéia que tenha a palavra Washington, porque pode parecer uma imposição. Será algo como "agenda do crescimento com melhor distribuição de renda". Precisamos manter os conceitos do Consenso de Washington que estão corretos e avançar. Criar uma couraça de proteção contra crises externas e focar os esforços na distribuição de renda.  

Veja – Qual é a opinião das pessoas que trabalham nas instituições financeiras internacionais e no governo americano sobre o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva?
Williamson – Há muito interesse e curiosidade sobre como um governo do PT vai funcionar. Muitos entendem que foi necessário o PT reforçar um discurso de esquerda para ser eleito. Mas, como no Brasil, existe bastante nervosismo. Não se sabe quanto Lula tem de experiência para fazer um governo forte, como o Brasil precisa. A maioria teria preferido José Serra. Mas todos estão conscientes da obrigação de trabalhar com quem foi escolhido pelo povo brasileiro. Essa é a postura no Departamento de Estado, no Tesouro e no Fed, o banco central americano. Se mais tarde Lula se tornar um inimigo, como o chileno Salvador Allende trinta anos atrás, essa postura pode mudar. Mas acredito que ninguém está pensando dessa maneira. Em Washington não existe o preconceito contra Lula que há nos mercados financeiros. As pessoas aqui estão bastante impressionadas com a onda de otimismo no Brasil criada pela eleição de Lula, e ninguém quer estragar a festa.

Veja – Quais são as medidas que mais desagradariam a Washington?
Williamson – Adotar uma política de crescimento que traga de volta a inflação alta, ao contrário das recomendações do FMI. Ou a nacionalização das grandes empresas. Mas ninguém pensa que isso seria possível. Não é o tipo de coisa que o PT está pretendendo fazer. O estreitamento das relações com Cuba não seria agradável para Washington, mas duvido que seria visto como inaceitável.

Veja – O que o senhor acha que acontecerá com a seguinte combinação: uma administração americana particularmente conservadora e um governo brasileiro de centro-esquerda?
Williamson – Há vários governos de esquerda e centro-esquerda que mantêm uma relação muito boa com os Estados Unidos. A Inglaterra é um exemplo. Governos com ideologias diferentes podem muito bem cooperar. Às vezes, o entendimento é até mais fácil. Um governo de orientação mais conservadora tende a esperar que um país amigo também conservador siga a mesma linha automaticamente, o que nem sempre acontece. Essa expectativa pode ser prejudicial. Muitas vezes é mais fácil acertar as diferenças quando os governos são de ideologias distintas. O exemplo mais claro é o dos Estados Unidos e da China.

Veja – Quais foram os maiores erros cometidos pela equipe econômica do presidente Fernando Henrique?
Williamson – As políticas adotadas foram, em geral, boas. Tenho críticas principalmente ao primeiro mandato. A política fiscal não foi forte o suficiente. A taxa de juros foi muito alta, o que acabou atraindo mais capitais do que seria aconselhável. Isso tudo para financiar um real demasiadamente forte. Foi um erro. Nos últimos tempos, o governo adotou políticas muito sérias. Em virtude de um conjunto de circunstâncias, o Brasil entrou numa crise. A dívida já era grande. Com a desvalorização da moeda, ficou maior que o que todos previam. Para completar, veio a crise de confiança por causa da questão política. É difícil culpar Pedro Malan e Armínio Fraga por essa conjunção de fatores.  

Veja – O governo do presidente Fernando Henrique Cardoso é neoliberal?
Williamson – Essa acusação não é justa. Os políticos sempre gostam de desmoralizar seus opositores. O governo de Fernando Henrique não é o do Estado minimalista. Ele aumentou os gastos nas áreas sociais. Se tivesse de classificá-lo, diria que foi social-democrata.

Veja – A reestruturação da dívida externa brasileira é inevitável?
Williamson – Não é. Mas o perigo existe. É claro que Lula não reestruturaria a dívida de propósito. O perigo é que o governo não tome as medidas suficientemente vigorosas para evitar isso. Tudo depende do que a equipe econômica de Lula fará e das políticas iniciais que anunciará. É importante que o governo eleito dê prioridade às reformas tributária e previdenciária. Se o novo governo mostrar que consegue formar uma maioria no Congresso para aprovar as reformas, os mercados vão ficar bem impressionados. Não imediatamente. Um dos problemas do mercado é a desconfiança que tem para com os políticos de esquerda. Para que os analistas mudem de idéia é preciso certo tempo.  

Veja – O que o leva a pensar que o PT conseguirá promover reformas que o presidente Fernando Henrique não conseguiu?
Williamson – Uma diferença grande é o próprio PT. Nos últimos oito anos, o partido fez oposição às reformas. Agora que está prestes a assumir o poder, mudou de idéia. O programa de reformas proposto pelo novo governo é muito sério, tem todos os tópicos mais importantes. Tudo vai depender da habilidade do PT para fazer uma coalizão. O partido deve aproveitar a lua-de-mel com o Congresso. Caso consiga, vai impressionar muito bem a todos. Na Índia, alguns partidos defendem as reformas enquanto estão no governo. Quando saem, passam a ser contra. Espero que isso não aconteça com o PSDB e a base de apoio do presidente Fernando Henrique.

Veja – Quem se beneficia com a reestruturação da dívida externa brasileira?
Williamson – Provavelmente há alguns investidores que apostam na reestruturação e, se ela acontecer, lucrarão muito. Esses especuladores vendem títulos brasileiros e prometem entregá-los em, digamos, noventa dias. Esperam a moratória e a queda dos valores dos títulos. Depois do calote, compram os títulos, entregam no prazo e embolsam a diferença. A maioria dos investidores não tem esse objetivo. Eles perderiam com a moratória. Certamente, os brasileiros também perderiam. Seria muito difícil voltar a crescer rapidamente nos anos seguintes. O perigo é de uma profecia auto-realizável. Se muita gente achar que a reestruturação virá e começar a agir para minimizar as perdas, a situação poderá encaminhar-se para uma reestruturação inevitável.

Veja – Quais seriam as conseqüências da moratória da dívida externa?
Williamson – Os problemas principais são internos. A moratória da dívida externa não daria muito alívio. Parte da dívida externa é com os organismos internacionais, como o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento. Os valores dessas dívidas não podem ser mudados. Já o calote nos títulos da dívida interna afetaria muito os bancos. Poderia causar muitas falências. Mesmo que os bancos ficassem isentos, uma redução de 50% no valor dos ativos do governo significaria uma perda de riqueza de algo como 16% do PIB. Com esse tipo de choque, a economia entraria em recessão.

Veja – Por que o senhor continua contra a adoção de políticas industriais?
Williamson – Porque não funcionam. Os defensores costumam citar o exemplo dos países do leste asiático. Os Tigres se industrializaram rapidamente, mas a pergunta é: será que as políticas industriais foram o fator determinante? Na Coréia do Sul, a política industrial foi usada para criar os setores pesados e o químico e acabou levando o país à crise dos anos 90. O governo deve incentivar a pesquisa, que é importante. Mas isso é diferente de favorecer apenas alguns setores e empresas.

Veja – Com a eleição do PT, diminuíram as chances de a Área de Livre Comércio das Américas (Alca) se concretizar?
Williamson – Com Lula, o Brasil deverá ter uma posição mais forte nas negociações. Vamos ver se os americanos aceitam. Não é óbvio que a Alca será criada, mas ainda existe a possibilidade. Os americanos terão de fazer mais concessões do que estavam pensando.

Veja – Qual é o poder de barganha do Brasil para combater os subsídios agrícolas dos Estados Unidos?
Williamson – É limitado, como o de qualquer outro país. Essa é a área campeã de protecionismo. Espero que isso mude um dia. Os fazendeiros são uma parcela pequena da população, cada vez menor. Os políticos dos países ricos perceberão que podem ganhar muitos votos acabando com o protecionismo agrícola.

 
 
   
  voltar
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS