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"Há governos de esquerda com boas relações com os EUA. Às vezes, a ideologia diferente até facilita o entendimento" |
O economista inglês John Williamson, de 65 anos, tem um currículo extenso e eclético. Trabalhou no Ministério da Fazenda da Inglaterra durante um governo de centro-esquerda e passou pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Foi professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts e da Universidade Princeton, nos Estados Unidos. Um de seus feitos mais conhecidos foi cunhar, no fim da década de 80, o termo Consenso de Washington para designar um conjunto de idéias em favor da economia de mercado adotado com fervor por vários países em desenvolvimento. Williamson conhece bem o Brasil. Durante quatro anos lecionou na PUC do Rio, onde foi colega de Pedro Malan e professor de Armínio Fraga. Casado há 28 anos com uma brasileira, tem dois filhos e uma filha, que atualmente mora no Rio. Em português fluente, Williamson falou a VEJA por telefone de Washington, onde mora com a mulher e trabalha no Instituto de Economia Internacional, um renomado centro de pesquisa.
Veja O crescimento econômico da América Latina
nos últimos anos foi baixíssimo. O Consenso de Washington
falhou?
Williamson
O
que ficou conhecido como Consenso de Washington falhou. Quando alguns
países eliminaram as barreiras para o fluxo de capitais de forma
rápida, foi um desastre. Com isso, os investimentos especulativos
passaram a entrar e sair sem muitas restrições. Esse foi
o caso de alguns países asiáticos e, de certa forma, também
do Brasil na década de 90. Quando cunhei o termo Consenso de Washington,
não pensava nisso, num Estado mínimo, nem numa política
monetarista. A expressão ganhou o espaço público,
e o conceito foi modificado. Nunca fui um neoliberal. Sempre apoiei as
políticas do Chile e de Cingapura, que têm proteções
contra os especuladores. A política fiscal não deve ser
austera todo o tempo. Mas é preciso guardar durante os anos bons,
para permitir os gastos durante as recessões.
Veja Qual era o conceito original do Consenso de Washington?
Williamson
Era o que defendia as seguintes políticas: disciplina macroeconômica,
economia de mercado e abertura comercial. Essas idéias continuam
válidas. Duvido que Lula tivesse sido eleito sem aceitar muitos
desses conceitos. Para crescer, é aconselhável manter essa
linha e também ter mais cuidado, para evitar crises macroeconômicas.
Uma maior ênfase em projetos sociais é outro ponto importante.
Chegou a hora de atender a essa demanda. Um governo de centro-esquerda
é justamente o que pode tocar isso.
Veja O Consenso de Washington foi vendido pelo FMI e pelo
Banco Mundial como a grande salvação. Mais de dez anos depois,
a região continua extremamente vulnerável aos choques externos.
A América Latina foi enganada?
Williamson
Não há soluções mágicas e rápidas.
Foi um erro vender esse pacote de idéias dessa forma. Quem promete
tudo nunca consegue cumprir. Ninguém pode negar que as expectativas
de crescimento que existiam não foram atendidas. A América
Latina continua vulnerável, mas isso não significa que todas
as idéias do Consenso de Washington estejam erradas. As taxas de
desemprego não seriam menores caso a América Latina tivesse
seguido outro caminho. O fechamento da economia não teria aumentado
o crescimento. A lei de informática, adotada no Brasil na década
de 80, é um bom exemplo dos efeitos negativos do fechamento. Todo
o mundo fazendo invenções e o Brasil sem poder usá-las.
Veja O FMI não está sendo rígido demais
com a Argentina ao pedir uma política fiscal austera em meio a
uma grave crise social?
Williamson
Uma
política fiscal menos restritiva na Argentina só pode ser
financiada com uma inflação alta. Quem sofre com a inflação
não são os ricos. Os ricos têm dólares. É
um erro pensar que irresponsabilidade fiscal seria uma coisa boa para
o país. Ninguém gosta de corte nos gastos sociais. Mas não
adianta gastar mais agora e depois pagar de volta através do imposto
inflacionário.
Veja Há como promover a distribuição
de renda sem afrouxar a austeridade fiscal?
Williamson
Não se trata apenas do tamanho do gasto social, mas de quem se
beneficia. Uma das características dos governos da América
Latina é gastar com os mais ricos. No Brasil, a área da
educação é um grande exemplo. Gasta-se muito com
as universidades públicas em detrimento do ensino fundamental.
Isso contrasta com o que acontece em certos países asiáticos,
como a Coréia do Sul. Concordo que o governo tem de dar apoio às
universidades públicas, que são fundamentais em áreas
estratégicas como a da pesquisa. Mas os alunos abastados precisam
pagar. Com isso, as universidades ficarão ainda mais fortes. Na
Previdência, também há grandes distorções.
Certas categorias recebem aposentadoria integral, enquanto outras, não.
Veja O senhor acha, então, que o problema não
foram reformas demais, mas, sim, reformas de menos?
Williamson
Justamente. Precisamos de uma nova expressão que resuma as reformas
mais urgentes na situação atual. Não terá
a palavra consenso porque dificilmente será unânime. Não
acho uma boa idéia que tenha a palavra Washington, porque pode
parecer uma imposição. Será algo como "agenda do
crescimento com melhor distribuição de renda". Precisamos
manter os conceitos do Consenso de Washington que estão corretos
e avançar. Criar uma couraça de proteção contra
crises externas e focar os esforços na distribuição
de renda.
Veja Qual é a opinião das pessoas que trabalham
nas instituições financeiras internacionais e no governo
americano sobre o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva?
Williamson
Há muito interesse e curiosidade sobre como um governo do PT vai
funcionar. Muitos entendem que foi necessário o PT reforçar
um discurso de esquerda para ser eleito. Mas, como no Brasil, existe bastante
nervosismo. Não se sabe quanto Lula tem de experiência para
fazer um governo forte, como o Brasil precisa. A maioria teria preferido
José Serra. Mas todos estão conscientes da obrigação
de trabalhar com quem foi escolhido pelo povo brasileiro. Essa é
a postura no Departamento de Estado, no Tesouro e no Fed, o banco central
americano. Se mais tarde Lula se tornar um inimigo, como o chileno Salvador
Allende trinta anos atrás, essa postura pode mudar. Mas acredito
que ninguém está pensando dessa maneira. Em Washington não
existe o preconceito contra Lula que há nos mercados financeiros.
As pessoas aqui estão bastante impressionadas com a onda de otimismo
no Brasil criada pela eleição de Lula, e ninguém
quer estragar a festa.
Veja Quais são as medidas que mais desagradariam a
Washington?
Williamson
Adotar uma política de crescimento que traga de volta a inflação
alta, ao contrário das recomendações do FMI. Ou a
nacionalização das grandes empresas. Mas ninguém
pensa que isso seria possível. Não é o tipo de coisa
que o PT está pretendendo fazer. O estreitamento das relações
com Cuba não seria agradável para Washington, mas duvido
que seria visto como inaceitável.
Veja O que o senhor acha que acontecerá com a seguinte
combinação: uma administração americana particularmente
conservadora e um governo brasileiro de centro-esquerda?
Williamson
Há vários governos de esquerda e centro-esquerda que mantêm
uma relação muito boa com os Estados Unidos. A Inglaterra
é um exemplo. Governos com ideologias diferentes podem muito bem
cooperar. Às vezes, o entendimento é até mais fácil.
Um governo de orientação mais conservadora tende a esperar
que um país amigo também conservador siga a mesma linha
automaticamente, o que nem sempre acontece. Essa expectativa pode ser
prejudicial. Muitas vezes é mais fácil acertar as diferenças
quando os governos são de ideologias distintas. O exemplo mais
claro é o dos Estados Unidos e da China.
Veja Quais foram os maiores erros cometidos pela equipe econômica
do presidente Fernando Henrique?
Williamson
As políticas adotadas foram, em geral, boas. Tenho críticas
principalmente ao primeiro mandato. A política fiscal não
foi forte o suficiente. A taxa de juros foi muito alta, o que acabou atraindo
mais capitais do que seria aconselhável. Isso tudo para financiar
um real demasiadamente forte. Foi um erro. Nos últimos tempos,
o governo adotou políticas muito sérias. Em virtude de um
conjunto de circunstâncias, o Brasil entrou numa crise. A dívida
já era grande. Com a desvalorização da moeda, ficou
maior que o que todos previam. Para completar, veio a crise de confiança
por causa da questão política. É difícil culpar
Pedro Malan e Armínio Fraga por essa conjunção de
fatores.
Veja O governo do presidente Fernando Henrique Cardoso é
neoliberal?
Williamson
Essa acusação não é justa. Os políticos
sempre gostam de desmoralizar seus opositores. O governo de Fernando Henrique
não é o do Estado minimalista. Ele aumentou os gastos nas
áreas sociais. Se tivesse de classificá-lo, diria que foi
social-democrata.
Veja A reestruturação da dívida externa
brasileira é inevitável?
Williamson
Não é. Mas o perigo existe. É claro que Lula não
reestruturaria a dívida de propósito. O perigo é
que o governo não tome as medidas suficientemente vigorosas para
evitar isso. Tudo depende do que a equipe econômica de Lula fará
e das políticas iniciais que anunciará. É importante
que o governo eleito dê prioridade às reformas tributária
e previdenciária. Se o novo governo mostrar que consegue formar
uma maioria no Congresso para aprovar as reformas, os mercados vão
ficar bem impressionados. Não imediatamente. Um dos problemas do
mercado é a desconfiança que tem para com os políticos
de esquerda. Para que os analistas mudem de idéia é preciso
certo tempo.
Veja O que o leva a pensar que o PT conseguirá promover
reformas que o presidente Fernando Henrique não conseguiu?
Williamson
Uma
diferença grande é o próprio PT. Nos últimos
oito anos, o partido fez oposição às reformas. Agora
que está prestes a assumir o poder, mudou de idéia. O programa
de reformas proposto pelo novo governo é muito sério, tem
todos os tópicos mais importantes. Tudo vai depender da habilidade
do PT para fazer uma coalizão. O partido deve aproveitar a lua-de-mel
com o Congresso. Caso consiga, vai impressionar muito bem a todos. Na
Índia, alguns partidos defendem as reformas enquanto estão
no governo. Quando saem, passam a ser contra. Espero que isso não
aconteça com o PSDB e a base de apoio do presidente Fernando Henrique.
Veja Quem se beneficia com a reestruturação
da dívida externa brasileira?
Williamson
Provavelmente há alguns investidores que apostam na reestruturação
e, se ela acontecer, lucrarão muito. Esses especuladores vendem
títulos brasileiros e prometem entregá-los em, digamos,
noventa dias. Esperam a moratória e a queda dos valores dos títulos.
Depois do calote, compram os títulos, entregam no prazo e embolsam
a diferença. A maioria dos investidores não tem esse objetivo.
Eles perderiam com a moratória. Certamente, os brasileiros também
perderiam. Seria muito difícil voltar a crescer rapidamente nos
anos seguintes. O perigo é de uma profecia auto-realizável.
Se muita gente achar que a reestruturação virá e
começar a agir para minimizar as perdas, a situação
poderá encaminhar-se para uma reestruturação inevitável.
Veja Quais seriam as conseqüências da moratória
da dívida externa?
Williamson
Os problemas principais são internos. A moratória da dívida
externa não daria muito alívio. Parte da dívida externa
é com os organismos internacionais, como o Banco Mundial e o Banco
Interamericano de Desenvolvimento. Os valores dessas dívidas não
podem ser mudados. Já o calote nos títulos da dívida
interna afetaria muito os bancos. Poderia causar muitas falências.
Mesmo que os bancos ficassem isentos, uma redução de 50%
no valor dos ativos do governo significaria uma perda de riqueza de algo
como 16% do PIB. Com esse tipo de choque, a economia entraria em recessão.
Veja Por que o senhor continua contra a adoção
de políticas industriais?
Williamson
Porque
não funcionam. Os defensores costumam citar o exemplo dos países
do leste asiático. Os Tigres se industrializaram rapidamente, mas
a pergunta é: será que as políticas industriais foram
o fator determinante? Na Coréia do Sul, a política industrial
foi usada para criar os setores pesados e o químico e acabou levando
o país à crise dos anos 90. O governo deve incentivar a
pesquisa, que é importante. Mas isso é diferente de favorecer
apenas alguns setores e empresas.
Veja Com a eleição do PT, diminuíram
as chances de a Área de Livre Comércio das Américas
(Alca) se concretizar?
Williamson
Com Lula, o Brasil deverá ter uma posição mais forte
nas negociações. Vamos ver se os americanos aceitam. Não
é óbvio que a Alca será criada, mas ainda existe
a possibilidade. Os americanos terão de fazer mais concessões
do que estavam pensando.
Veja Qual é o poder de barganha do Brasil para combater
os subsídios agrícolas dos Estados Unidos?
Williamson
É limitado, como o de qualquer outro país. Essa é
a área campeã de protecionismo. Espero que isso mude um
dia. Os fazendeiros são uma parcela pequena da população,
cada vez menor. Os políticos dos países ricos perceberão
que podem ganhar muitos votos acabando com o protecionismo agrícola.
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