Edição 1874 . 6 de outubro de 2004

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Cinema
E Tarantino, quem diria,
tem sentimentos

Em Kill Bill – Volume 2, o diretor
declara seu amor ao faroeste
e a Uma Thurman
 


Isabela Boscov

 
Divulgação
Carradine, como Bill, enfrenta a Noiva: o amor é genuíno, mas não há como perdoar uma bala na cabeça

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A última coisa que se espera ao assistir a um filme de Quentin Tarantino é sentir lágrimas nos olhos, um nó na garganta e um aperto no coração. Mas em Kill Bill – Volume 2 (Estados Unidos, 2004), que estréia nesta sexta-feira no país, esses sintomas são recorrentes. Tarantino se desloca agora do Leste, a grande inspiração do Volume 1, para o Oeste, sob cujo signo transcorre este epílogo. O espalhafato e o exagero dos filmes de artes marciais dão lugar ao clima crepuscular e pesaroso dos faroestes, e muito muda também na maneira como o diretor mostra sua protagonista, a Noiva (Uma Thurman) – não mais apenas como a máquina de matar da primeira parte, mas como um objeto de amor e uma personagem de contornos quase religiosos. Na belíssima introdução, que homenageia Rastros de Ódio, de John Ford, o diretor finalmente expõe a verdadeira razão para a saga de vingança iniciada no primeiro filme. A Noiva, uma ex-assassina profissional, não quer apenas eliminar seu líder, Bill (David Carradine), e seus colegas de esquadrão por invadirem seu casamento e massacrarem noivo e convidados, deixando-a ali meio morta, muito grávida e com uma bala na cabeça. Como uma figura bíblica, a Noiva quer lavar, com sangue, um crime maior: ter sido roubada do direito de ressurgir. Fica-se sabendo, agora, que a Noiva fugiu de Bill e de seu passado no exato instante em que se descobriu grávida. No código de Tarantino, abdicar da violência equivale mais ou menos a voltar a ser virgem – e, como se sabe de uma única outra virgem que tenha sido mãe, está aí uma boa pista para entender a importância que a Noiva tem para o diretor.

Tarantino sempre preferiu tratar seus personagens como marionetes: ele puxa os fios, eles obedecem. Bill, por exemplo, não tem vida própria. David Carradine faz o papel porque ficou cristalizado como o monge do seriado Kung Fu, nos anos 70, e porque é um nome ideal para o jogo do diretor de ressuscitar carreiras esquecidas. A Noiva, porém, escapa ao seu poder e é maior do que ele, e talvez esteja aí um dos motivos pelos quais Volume 2 transmita a sensação de ser um imenso passo à frente. Todas as marcas registradas de Tarantino continuam, claro, presentes: a mistura de gêneros, a audácia visual, os diálogos de alto teor pop e as referências obscuras. Mas, pela primeira vez, essas proezas deixam de ser um fim em si mesmas. Tome-se, por exemplo, a cena em que a Noiva é enterrada viva por Budd (Michael Madsen), um de seus adversários. Durante longos minutos, a platéia compartilha com ela o terror da escuridão, da falta de ar e do barulho cada vez mais abafado da terra cobrindo seu caixão. É uma demonstração de bravura cinematográfica, que o diretor virtuosisticamente cola a um desfecho cômico – a Noiva se safa de seu túmulo e, coberta de pó e andando com rigidez cadavérica, atravessa a rua em direção a uma lanchonete, onde um funcionário a observa aterrorizado. Tudo o que ela faz, porém, é se sentar ao balcão e, com a timidez e os bons modos de uma menina de colégio, pedir um copo d'água. A cena é irônica e desconcertante, e também uma prova inesperada da confiança de Tarantino em sua personagem e em Uma Thurman.

Desde Pulp Fiction, todos os filmes do diretor têm personagens femininas fortes – uma influência que ele já creditou, em diversas entrevistas, à fibra de sua mãe, que o criou sozinho. E, desde Pulp Fiction também, um dos passatempos preferidos da crítica tem sido anotar a contradição entre essa admiração pelas mulheres e a misoginia de Tarantino. A contradição é só aparente: pela maneira como fala, o diretor nunca deve ter duvidado de que foi o centro do universo de sua mãe. Seus filmes, até hoje, só refletiram essa auto-absorção masculina, para o bem e para o mal. É sobretudo aí que Kill Bill – Volume 2 rompe com o passado. Bill não é a única figura paterna que, a despeito de seu amor genuíno, a Noiva tem de aniquilar para ganhar uma existência. Tarantino, na qualidade de diretor que tudo pode, é a outra – e, ao aceitar que Uma aja segundo seus próprios instintos de atriz (bons instintos, diga-se), ele parece ter aceitado também que não tem mais idade para ser o filho em tudo festejado e atendido. Ao menos em termos hipotéticos, o diretor está enamorado é da idéia da paternidade, e visivelmente inebriado com a maternidade de Uma, tanto a fictícia quanto a real. Os filhos, ele acaba de descobrir, são o único antídoto possível para a velhice e a morte. No decorrer de Volume 2, a Noiva apanha, se fere e sofre incontáveis abusos físicos, que vêm acompanhados aqui de toda a dor que o diretor nunca se preocupou em mostrar. Mas, para ela, pouco importa, se esse for o meio de proteger a filha que, talvez, tenha nascido após o massacre, durante seu coma. Para os fãs de Tarantino, pode ser um choque e um desânimo, mas não há como negar – ele amadureceu.

 
 
 
 
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