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Cinema
E Tarantino, quem diria,
tem sentimentos
Em
Kill Bill Volume 2, o diretor
declara seu amor ao faroeste
e a Uma Thurman

Isabela Boscov
Divulgação
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| Carradine, como Bill, enfrenta a Noiva: o
amor é genuíno, mas não há como perdoar uma bala na cabeça |
A última
coisa que se espera ao assistir a um filme de Quentin Tarantino
é sentir lágrimas nos olhos, um nó na garganta
e um aperto no coração. Mas em Kill Bill
Volume 2 (Estados Unidos, 2004), que estréia nesta
sexta-feira no país, esses sintomas são recorrentes.
Tarantino se desloca agora do Leste, a grande inspiração
do Volume 1, para o Oeste, sob cujo signo transcorre este
epílogo. O espalhafato e o exagero dos filmes de artes marciais
dão lugar ao clima crepuscular e pesaroso dos faroestes,
e muito muda também na maneira como o diretor mostra sua
protagonista, a Noiva (Uma Thurman) não mais apenas
como a máquina de matar da primeira parte, mas como um objeto
de amor e uma personagem de contornos quase religiosos. Na belíssima
introdução, que homenageia Rastros de Ódio,
de John Ford, o diretor finalmente expõe a verdadeira razão
para a saga de vingança iniciada no primeiro filme. A Noiva,
uma ex-assassina profissional, não quer apenas eliminar seu
líder, Bill (David Carradine), e seus colegas de esquadrão
por invadirem seu casamento e massacrarem noivo e convidados, deixando-a
ali meio morta, muito grávida e com uma bala na cabeça.
Como uma figura bíblica, a Noiva quer lavar, com sangue,
um crime maior: ter sido roubada do direito de ressurgir. Fica-se
sabendo, agora, que a Noiva fugiu de Bill e de seu passado no exato
instante em que se descobriu grávida. No código de
Tarantino, abdicar da violência equivale mais ou menos a voltar
a ser virgem e, como se sabe de uma única outra virgem
que tenha sido mãe, está aí uma boa pista para
entender a importância que a Noiva tem para o diretor.
Tarantino
sempre preferiu tratar seus personagens como marionetes: ele puxa
os fios, eles obedecem. Bill, por exemplo, não tem vida própria.
David Carradine faz o papel porque ficou cristalizado como o monge
do seriado Kung Fu, nos anos 70, e porque é um nome
ideal para o jogo do diretor de ressuscitar carreiras esquecidas.
A Noiva, porém, escapa ao seu poder e é maior do que
ele, e talvez esteja aí um dos motivos pelos quais Volume
2 transmita a sensação de ser um imenso passo
à frente. Todas as marcas registradas de Tarantino continuam,
claro, presentes: a mistura de gêneros, a audácia visual,
os diálogos de alto teor pop e as referências obscuras.
Mas, pela primeira vez, essas proezas deixam de ser um fim em si
mesmas. Tome-se, por exemplo, a cena em que a Noiva é enterrada
viva por Budd (Michael Madsen), um de seus adversários. Durante
longos minutos, a platéia compartilha com ela o terror da
escuridão, da falta de ar e do barulho cada vez mais abafado
da terra cobrindo seu caixão. É uma demonstração
de bravura cinematográfica, que o diretor virtuosisticamente
cola a um desfecho cômico a Noiva se safa de seu túmulo
e, coberta de pó e andando com rigidez cadavérica,
atravessa a rua em direção a uma lanchonete, onde
um funcionário a observa aterrorizado. Tudo o que ela faz,
porém, é se sentar ao balcão e, com a timidez
e os bons modos de uma menina de colégio, pedir um copo d'água.
A cena é irônica e desconcertante, e também
uma prova inesperada da confiança de Tarantino em sua personagem
e em Uma Thurman.
Desde Pulp
Fiction, todos os filmes do diretor têm personagens femininas
fortes uma influência que ele já creditou, em
diversas entrevistas, à fibra de sua mãe, que o criou
sozinho. E, desde Pulp Fiction também, um dos passatempos
preferidos da crítica tem sido anotar a contradição
entre essa admiração pelas mulheres e a misoginia
de Tarantino. A contradição é só aparente:
pela maneira como fala, o diretor nunca deve ter duvidado de que
foi o centro do universo de sua mãe. Seus filmes, até
hoje, só refletiram essa auto-absorção masculina,
para o bem e para o mal. É sobretudo aí que Kill
Bill Volume 2 rompe com o passado. Bill não é
a única figura paterna que, a despeito de seu amor genuíno,
a Noiva tem de aniquilar para ganhar uma existência. Tarantino,
na qualidade de diretor que tudo pode, é a outra e,
ao aceitar que Uma aja segundo seus próprios instintos de
atriz (bons instintos, diga-se), ele parece ter aceitado também
que não tem mais idade para ser o filho em tudo festejado
e atendido. Ao menos em termos hipotéticos, o diretor está
enamorado é da idéia da paternidade, e visivelmente
inebriado com a maternidade de Uma, tanto a fictícia quanto
a real. Os filhos, ele acaba de descobrir, são o único
antídoto possível para a velhice e a morte. No decorrer
de Volume 2, a Noiva apanha, se fere e sofre incontáveis
abusos físicos, que vêm acompanhados aqui de toda a
dor que o diretor nunca se preocupou em mostrar. Mas, para ela,
pouco importa, se esse for o meio de proteger a filha que, talvez,
tenha nascido após o massacre, durante seu coma. Para os
fãs de Tarantino, pode ser um choque e um desânimo,
mas não há como negar ele amadureceu.
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