|
|
Livros
Antes do escândalo
Romance da juventude de Gore Vidal não
deixava antever sua carreira de polemista

Marília Pacheco Fiorillo
Aos 79 anos, Gore Vidal ainda é um provocador.
Embora tenha começado sua carreira antes do nascimento de
Michael Moore, hoje ele pode ser comparado ao diretor de Fahrenheit
11 de Setembro. Como Moore, mas com uma dose maior de vitríolo,
Vidal é uma voz dissidente no perigosamente consensual Planeta
América. Os dois compartilham também uma certa postura
fanfarrona (embora o escritor seja mais elegante): preferem comprometer
a consistência crítica, embarcando em teses conspiratórias,
a perder uma boa provocação. A verve incisiva do escritor
fica patente até mesmo nos títulos de seus recentes
livros de ataque ao governo Bush. No ano passado, por exemplo, Vidal
lançou um ensaio chamado Dreaming War: Blood for Oil and
the Cheney-Bush Junta (Sonhando com a Guerra: Sangue por Petróleo
e a Junta Cheney-Bush).
O romancista é quase tão polêmico
quanto o ensaísta político. Demolidor de hipocrisias,
Gore Vidal começou a causar polêmica já com
seu terceiro romance, A Cidade e o Pilar, de 1948. A história
de um jovem homossexual provocou rebuliço no coração
puritano da América (não o suficiente, porém,
para impedir o autor de continuar freqüentando as recepções
da milionária Peggy Guggenheim ou de privar da amizade de
John Kennedy). O primeiro livro de Vidal, porém, foi recebido
com elogios, mas sem escândalo. Lançado só agora
no Brasil, Williwaw (tradução de Andréa
Rocha; Ediouro; 250 páginas; 39,90 reais) narra a viagem
de um capelão e dois oficiais, a bordo de um navio, às
ilhas Aleutas, no Mar de Bering. Em um prefácio recente a
esse romance de estréia, Vidal admite que boa parte dos episódios
do livro não tem nada de ficcional. É baseada na sua
experiência como piloto da frota naval do Exército
americano, durante a II Guerra Mundial, nas Aleutas, perto do Alasca
(williwaws são ventos "devastadores e repentinos",
muito comuns na região). Casos como o do marinheiro que se
suicida bebendo o álcool metílico de uma bússola
realmente ocorreram. O livro é inspirado no clássico
Lord Jim, de Joseph Conrad, do qual herda os mares traiçoeiros,
os temperamentos rudes e a sutil fronteira entre acaso e dilema
moral. Temas tempestuosos demais para um escritor de 20 anos? Talvez,
mas Vidal sai ileso deles.
|