Edição 1874 . 6 de outubro de 2004

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Antes do escândalo

Romance da juventude de Gore Vidal não
deixava antever sua carreira de polemista


Marília Pacheco Fiorillo


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Trecho do livro

Aos 79 anos, Gore Vidal ainda é um provocador. Embora tenha começado sua carreira antes do nascimento de Michael Moore, hoje ele pode ser comparado ao diretor de Fahrenheit 11 de Setembro. Como Moore, mas com uma dose maior de vitríolo, Vidal é uma voz dissidente no perigosamente consensual Planeta América. Os dois compartilham também uma certa postura fanfarrona (embora o escritor seja mais elegante): preferem comprometer a consistência crítica, embarcando em teses conspiratórias, a perder uma boa provocação. A verve incisiva do escritor fica patente até mesmo nos títulos de seus recentes livros de ataque ao governo Bush. No ano passado, por exemplo, Vidal lançou um ensaio chamado Dreaming War: Blood for Oil and the Cheney-Bush Junta (Sonhando com a Guerra: Sangue por Petróleo e a Junta Cheney-Bush).

O romancista é quase tão polêmico quanto o ensaísta político. Demolidor de hipocrisias, Gore Vidal começou a causar polêmica já com seu terceiro romance, A Cidade e o Pilar, de 1948. A história de um jovem homossexual provocou rebuliço no coração puritano da América (não o suficiente, porém, para impedir o autor de continuar freqüentando as recepções da milionária Peggy Guggenheim ou de privar da amizade de John Kennedy). O primeiro livro de Vidal, porém, foi recebido com elogios, mas sem escândalo. Lançado só agora no Brasil, Williwaw (tradução de Andréa Rocha; Ediouro; 250 páginas; 39,90 reais) narra a viagem de um capelão e dois oficiais, a bordo de um navio, às ilhas Aleutas, no Mar de Bering. Em um prefácio recente a esse romance de estréia, Vidal admite que boa parte dos episódios do livro não tem nada de ficcional. É baseada na sua experiência como piloto da frota naval do Exército americano, durante a II Guerra Mundial, nas Aleutas, perto do Alasca (williwaws são ventos "devastadores e repentinos", muito comuns na região). Casos como o do marinheiro que se suicida bebendo o álcool metílico de uma bússola realmente ocorreram. O livro é inspirado no clássico Lord Jim, de Joseph Conrad, do qual herda os mares traiçoeiros, os temperamentos rudes e a sutil fronteira entre acaso e dilema moral. Temas tempestuosos demais para um escritor de 20 anos? Talvez, mas Vidal sai ileso deles.

 
 
 
 
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