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Cultura
Quem precisa de heróis?
Chico Mendes agora
faz parte
do panteão nacional. Mas, afinal,
o que quer dizer isso?

João Gabriel de Lima
Cristiano Mariz
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| O Panteão da Pátria, em Brasília,
e o livro de aço em que são inscritos os nomes
dos grandes vultos: "Aos heróis do Brasil, a pátria
reconhecida" |
O líder sindical Chico Mendes foi alçado
ao panteão dos heróis nacionais. A notícia
deixou o país surpreso. Não tanto pela glorificação
do ecologista, mas pelo fato de existir um Panteão da Pátria,
desconhecido da maior parte dos brasileiros. A idéia data
de 1985 e seu autor é José Aparecido de Oliveira,
então governador do Distrito Federal. Quatro anos depois,
o presidente José Sarney oficializou o panteão. O
projeto inicial previa a criação de um livro de aço,
estampando na folha de rosto a frase "Aos heróis do Brasil,
a pátria reconhecida". Nele seriam gravados os nomes dos
grandes vultos brasileiros. A inspiração original
é o panteão de Paris, criado em 1791, dois anos depois
da Revolução Francesa e que ostenta em seu
frontão a inscrição que inspirou Sarney: "Aos
grandes homens, a pátria reconhecida". A semelhança
termina por aí. O panteão de Paris é o túmulo
de filósofos como Voltaire, escritores como Émile
Zola e André Malraux e cientistas como Marie e Pierre Curie.
Até hoje é um dos monumentos mais visitados da capital
francesa. Já o edifício em forma de pomba projetado
por Oscar Niemeyer, construído para servir de sede ao panteão,
foi durante muito tempo um mero adereço na Praça dos
Três Poderes. A entronização de Chico Mendes
serviu para lembrar aos brasileiros que ele existe. Acendeu também
uma polêmica: afinal, o que faz de alguém um herói
nacional?
"Corremos o risco de ter um panteão
de Brancaleone, que funcione da mesma forma que uma câmara
de vereadores quando distribui chaves da cidade", diz Jarbas Marques,
diretor do Patrimônio Histórico e Artístico
do Distrito Federal e responsável pelo panteão. Jarbas
critica o fato de não existirem pré-requisitos claros
para definir um herói nacional. De 1989 até hoje o
Congresso vem se eximindo de sua atribuição de criar
critérios. Assim, o panteão funciona mais ou menos
como um clube, no qual os novos sócios entram por indicação
e ali permanecem se não receberem bola preta. Atualmente,
qualquer parlamentar ou integrante do Executivo pode apresentar
um novo herói para o panteão. Aprovado pelo Congresso,
ele vai parar no livro de aço. O Brasil tem hoje oito heróis
nacionais (veja quadro),
e alguns deles chegaram lá ajudados por parlamentares
simpáticos a eles. Zumbi dos Palmares foi apadrinhado em
1996 pela então senadora Benedita da Silva. O petista Tião
Viana, do Acre, inscreveu no panteão o nome do herói
regional, Plácido de Castro, que libertou o Estado do jugo
boliviano. Quando era senadora também pelo Acre, a hoje ministra
Marina Silva propôs o nome de Chico Mendes aprovado
em 23 de setembro. A palavra "panteão" remete à Roma
antiga. Mais especificamente a um templo construído no ano
27 a.C. para cultuar "vários deuses" é exatamente
essa a acepção da palavra em sua origem grega. Quando
os revolucionários franceses adotaram o vocábulo para
designar o túmulo de seus heróis, não o fizeram
por acaso. Ali estariam enterrados os guardiães da nova França,
da mesma maneira que os deuses pagãos velavam pela Roma antiga.
Desde os tempos de Gilgamesh, herói asiático, os vultos
dos países se revestem da aura épica de deuses.
Aferrados ao sentido estrito do termo, os
administradores do panteão brasileiro acham que Chico Mendes
não estaria à altura da honra que recebeu. "Foi um
ato de malícia política, pois o líder sindical,
simpático aos caciques do PT, passou na frente de nomes como
Marechal Rondon, Oswaldo Cruz e Santos Dumont", critica Jarbas Marques.
Ele diz que, se não tivesse sido aprovado a toque de caixa,
o nome do seringueiro se tornaria inviável em pouco tempo.
Tramita no Congresso um projeto de lei de autoria da deputada Raquel
Teixeira que finalmente estabelece critérios para a sagração
de um herói nacional. Um pré-requisito básico
do projeto, relatado pelo deputado Severiano Alves, é a observância
de pelo menos cinqüenta anos entre a morte do herói
e sua inscrição no livro de aço. Isso evitaria
uma inflação de vultos históricos oportunistas,
entronizados no calor da comoção pela morte recente.
Por esse critério, Chico Mendes estaria fora. Atualmente
há dezoito heróis na fila. O único a receber
parecer desfavorável até agora foi Villa-Lobos. Nada
particular contra o músico, de acordo com o relator de seu
processo de sagração, o deputado federal Paulo Lima.
Segundo o parecer de Lima, o problema está na própria
idéia de criar heróis, numa época em que muitos
historiadores dão a eles importância secundária,
entendendo a marcha da história como um processo de "construção
coletiva".
Essa tese de cunho marxista está em
decadência. Hoje se sabe que, ao contrário do que sugeria
o dramaturgo alemão Bertolt Brecht ("Infeliz o país
que precisa de heróis"), os indivíduos fazem, sim,
diferença dentro da história. Sabe-se também
que os heróis têm seu espaço na cultura de um
país, como inspiradores. Os Estados Unidos não seriam
os mesmos sem as idéias libertárias de Benjamin Franklin
e Thomas Jefferson. Criar uma lista de heróis mediante leis
não é, no entanto, a forma mais usual de homenageá-los.
"Nem a França, que inventou o panteão, criou tal burocracia",
diz o historiador Evaldo Cabral de Mello. "Quem decide quem são
os heróis são os que escrevem a história, e
estes não se preocupam em fazer listas, como um colunista
social que escolhe os dez mais elegantes." Na maior parte dos países,
o julgamento do tempo premia de forma diferenciada os que mais se
destacam. Na França, Napoleão Bonaparte mereceu um
mausoléu majestoso. Nos Estados Unidos, grandes presidentes
como Abraham Lincoln fazem jus a memoriais.
Criar heróis sempre foi uma obsessão
brasileira. Na historiografia do século XIX havia uma resistência
ao nome de dom Pedro I por este não ser brasileiro nativo,
motivo pelo qual se emulou a figura de Tiradentes. Na ausência
de heróis de guerra, o Duque de Caxias ganhou seu espaço,
embora tenha sido apenas um soldado competente. Provavelmente o
precursor do hábito de listar heróis nacionais é
o conde Affonso Celso, autor, em 1900, do livro Por que Me Ufano
de Meu País. Como os deputados de Brasília, o
conde não tinha pré-requisitos claros. Encabeçou
seu rol com o imperador dom Pedro II, provocação monarquista
em tempos republicanos. O afã de criar heróis sem
critérios definidos mostra que o Brasil ainda é tributário
de Affonso Celso. Mais do que um ato de patriotismo, a iniciativa
pode degringolar no termo popularizado pelo conde: ufanismo puro
e simples. Nada mais longe do sentido original de um panteão,
criado para cultuar deuses e que não faria mal nenhum
lembrar.
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O clube dos
oito
O panteão dos heróis
nacionais teve apenas dois ocupantes entre 1989 e 1996.
Hoje há uma febre de entronização
de novos vultos
JOAQUIM JOSÉ DA SILVA
XAVIER,
O TIRADENTES (1746-1792)
Onde nasceu: Minas
Gerais
Data da entronização: 11 de dezembro
de 1989
Principal feito: foi um dos líderes da
Inconfidência Mineira, movimento ocorrido em Vila
Rica que visava à independência do país.
Morreu enforcado pela coroa portuguesa
MARECHAL
DEODORO DA FONSECA (1827-1892)
Onde nasceu: Alagoas
Data da entronização: 11 de dezembro
de 1989
Principal feito: liderou o movimento militar
que derrubou o Império e se tornou o primeiro
presidente republicano do Brasil
ZUMBI DOS
PALMARES (1655-1695)
Onde nasceu: Alagoas
Data da entronização: 20 de novembro
de 1996
Principal feito: liderou a rebelião dos
escra-vos que se entrincheiravam no Quilombo dos Palmares.
Discute-se se o nome Zumbi se refere a uma única
pessoa ou a várias
DOM PEDRO
I (1798-1834)
Onde nasceu: Portugal
Data da entronização: 30 de agosto
de 1999
Principal feito: proclamou a independência
do Brasil, em 7 de setembro de 1922
JOSÉ
PLÁCIDO DE CASTRO (1873-1908)
Onde nasceu: Rio Grande do Sul
Data da entronização: 2 de maio
de 2002
Principal feito: liderou a chamada Revolução
Acreana, a luta que tornou o Acre independente da Bolívia
LUIS ALVES
DE LIMA E SILVA,
O DUQUE DE CAXIAS (1803-1880)
Onde nasceu: Rio de
Janeiro
Data da entronização: 28 de janeiro
de 2003
Principal feito: liderou a vitória do
Brasil na Guerra do Paraguai. Antes disso, havia sufocado
rebeliões como a Balaiada, no Maranhão,
e a Revolução Farroupilha, no Sul. É
o patrono do Exército brasileiro
JOAQUIM
MARQUES LISBOA,
O MARQUES DE TAMANDARÉ (1807-1897)
Onde nasceu: Rio Grande
do Sul
Data da entronização: 5 de dezembro
de 2003
Principal feito: exerceu vários cargos
na Marinha Brasileira, motivo pelo qual é considerado
o patrono dessa força armada. Foi herói
na Guerra do Paraguai
Joel Rocha
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| O líder sindical Chico
Mendes: ele passou na frente de nomes como Marechal
Rondon e Oswaldo Cruz |
FRANCISCO ALVES MENDES FILHO,
O CHICO MENDES (1944-1988)
Onde nasceu: Acre
Data da entronização: 23 de setembro
de 2004
Principal feito: militou contra o desmatamento
da Floresta Amazônica e denunciou devastações
ecológicas a organismos internacionais. Foi assassinado
em dezembro de 1988
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