Edição 1874 . 6 de outubro de 2004

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História
O espião fala

Um diplomata brasileiro revela
que, durante a II Guerra, foi
agente secreto
na Argentina


Marcelo Carneiro


Oscar Cabral
Sérgio Corrêa da Costa: ele se passou por cidadão argentino para espionar nazistas em Buenos Aires
EXCLUSIVO ON-LINE
Trechos do livro


Em 1943, o jovem carioca Sérgio Corrêa da Costa protagonizou uma aventura tão fascinante quanto perigosa. Portando documentos forjados, ingressou na Argentina sob a identidade de Juan Gutiérrez. Sua tarefa era, em plena II Guerra Mundial, recolher o máximo de informação possível sobre a infiltração nazista na Argentina, país que à época mantinha estreita relação com a Alemanha de Hitler. Durante três anos, Juan Gutiérrez e Sérgio Corrêa da Costa foram a mesma pessoa. Só agora, mais de meio século depois de manter o episódio em segredo até mesmo para a família, o espião brasileiro decidiu contar suas proezas. A história é tão mais saborosa porque seu protagonista, hoje com 85 anos, é um diplomata aposentado que ocupou alguns dos mais altos postos na carreira, como os de embaixador em Londres e Washington e representante do Brasil na ONU. As revelações de Corrêa da Costa fazem parte do livro Crônica de uma Guerra Secreta – Nazismo na América: a Conexão Argentina (Editora Record; 532 páginas; R$ 54,90), que chega nesta semana às livrarias.

A Argentina foi o país da América do Sul que mais abertamente apoiou o regime de Hitler. Pode-se dizer que o caudilho Juan Domingo Perón apostou seu futuro – e o de seu país – na vitória da Alemanha na II Guerra Mundial. Só em janeiro de 1944, quase cinco anos depois de iniciado o conflito e às vésperas da iminente derrota nazista, é que a Argentina rompeu relações com a Alemanha. Foi o último país do mundo a fazê-lo. O livro escrito por Corrêa da Costa, que consultou 170 obras e visitou importantes centros de documentação sobre a II Guerra, como o National Archives, de Washington, é uma crônica desses tempos. O embaixador, é claro, também conta detalhes de sua vida de espião – como, por exemplo, a façanha de retirar, de dentro do Archivo General de la Nación, documentos ultra-secretos do governo argentino.


O mapa da América do Sul, redesenhado pelos nazistas: Peru, Bolívia, Paraguai e Uruguai desapareceriam

A história do espião brasileiro começa num campo de treinamento militar no Rio de Janeiro. Lá, Corrêa da Costa, que se alistara como voluntário do esforço de guerra, conheceu um capitão do Exército brasileiro que o apresentou ao mundo da espionagem. Para incorporar o personagem Juan Gutiérrez, o embaixador também contou com o auxílio de um agente do serviço secreto britânico, que, de sua casa no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, criou toda a documentação falsa do cidadão argentino, natural da cidade de Corrientes. Corrêa da Costa, que dava os primeiros passos na carreira diplomática, ainda recorreu aos préstimos de uma ex-namorada argentina. Com sua ajuda, e um espanhol fluente, decorou o nome das principais ruas de Corrientes, dos políticos mais importantes da cidade e até a escalação do time de futebol local. Apoiado por espiões ingleses e americanos, foi colocado clandestinamente em território argentino, cruzando a fronteira pelo Rio Grande do Sul. Já em Buenos Aires, manteve contato com os agentes aliados. Os ingleses chegaram a dar a ele uma freqüência de rádio, por onde eram passadas as informações para o Brasil.

Crônica de uma Guerra Secreta é um passeio por uma Argentina francamente germanófila. Em 23 de abril de 1945, o governo argentino simplesmente proibiu "o anúncio da queda de Berlim, seja por toques de sirene, assobios, fogos de artifício e outro meio", como determinava um comunicado da Polícia Federal. Estima-se que, no pós-guerra, entre 1945 e 1955, até 90.000 alemães tenham emigrado para a Argentina. Pesquisadores respeitados sustentam que metade desse contingente ingressou com nome e documentos falsos, muitos dos quais concedidos pelo próprio governo de Perón. Além disso, pelo menos cinqüenta desses imigrantes eram nazistas acusados de crimes de guerra.

 
Reprodução Oscar Cabral
Concentração nazista em Buenos Aires, em 1937, e o embaixador, disfarçado, cruzando a fronteira no Rio Grande do Sul: a aventura durou três anos

Qual a razão de tanta simpatia por um regime hediondo e que, desde a década de 30, já causava arrepios no mundo democrático? A explicação, segundo o embaixador, está na certeza do regime peronista de que, com a vitória da Alemanha, a Argentina assumiria a liderança no Cone Sul. Corrêa da Costa publica, no livro, dois documentos reveladores sobre as intenções de alemães e argentinos. O primeiro é um mapa apreendido em 1941, no Rio de Janeiro, por agentes do serviço secreto britânico. Em uma operação conhecida como silent killing (em inglês, assassinato silencioso), um espião alemão foi morto à luz do dia, numa rua movimentada. Ele caiu fulminado depois de ser golpeado no que parecia ser um simples esbarrão, e sua valise foi recolhida por um dos agentes. Dentro dela havia um mapa confeccionado pelo alto comando alemão, em que a América do Sul passava a ter apenas cinco países. Nações inteiras, como Uruguai e Paraguai, seriam anexadas à Argentina, que ainda ocuparia parte da Bolívia – país que teria o restante do seu território incorporado pelo Brasil, que, de acordo com o mapa, ficaria com uma pequena porção do Peru, outra nação que desapareceria.

O segundo documento transcrito é o manifesto do Grupo de Oficiais Unidos (GOU), do qual Perón fazia parte e que tomou o poder na Argentina após um golpe militar, em junho de 1943. No manifesto, ficam claras a adesão ao Eixo – "A luta de Hitler, na paz e na guerra, será nosso guia, de agora em diante" – e a disposição dos argentinos em dominar todas as nações da América do Sul, incluindo o Brasil. Depois de listar países que, de alguma forma, já estavam na órbita argentina, como Paraguai, Bolívia e Chile, os oficiais do GOU dizem que "será fácil coagir o Uruguai", e concluem: "Caído o Brasil, o continente sul-americano será nosso".

Crônica de uma Guerra Secreta traz ainda relatos deliciosos das ações de espionagem realizadas tanto por alemães quanto pelos aliados. Usando artifícios como a técnica do microponto, os alemães enviavam textos secretos de até trinta linhas, que, reduzidos, cabiam no pingo da letra "i", escrita numa máquina de escrever. Pelos relatos, documentos e detalhes, o livro de Corrêa da Costa tem tudo para se tornar uma referência para os estudos sobre a disseminação da ideologia nazista na América do Sul. "A colaboração de países latino-americanos – inclusive o Brasil – com a Alemanha nazista ainda é um tema tabu. Livros como esse ajudam a quebrar essa barreira", diz a historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro, da Universidade de São Paulo, uma das maiores especialistas brasileiras no período.

 

Quando Sarney quase foi Jânio

Alencar Monteiro/AE
José Sarney e Paulo Brossard na década de 80: a resposta aos quatro anos seria a renúncia

O presidente José Sarney ameaçou renunciar durante a Assembléia Constituinte de 1988 para garantir um mandato de cinco anos. Ainda nebuloso e pouco conhecido, esse episódio é esmiuçado na biografia autorizada do ex-ministro da Justiça Paulo Brossard, que será lançada no fim de outubro. Brossard – 80 Anos na História Política do Brasil, do jornalista Luiz Valls, conta como a ameaça demoveu líderes partidários que apoiavam a Nova República da idéia de encurtar o mandato presidencial para quatro anos.

Sarney assumiu a Presidência em 1985, depois da morte de Tancredo Neves, que fora eleito de forma indireta por um período de seis anos. Esse também tinha sido o mandato de João Figueiredo, o último general-presidente. Considerando a forma acidental de sua ascensão ao poder e o calor do debate sobre um novo sistema de governo, Sarney admitia encurtar seu mandato. Sugeria restabelecer os cinco anos previstos na Constituição de 1946 – à época, Sarney já havia cumprido três anos de governo. Foi nesse contexto que uma parte da oposição lançou a idéia do mandato de quatro anos.

Em março de 1988, num despacho com Brossard, então ministro da Justiça, o presidente desabafou: "Não é problema de mais ou menos um ano, mas eu ficaria desmoralizado e desautorizado". E concluiu: "Eu renuncio se os quatro anos forem aprovados na Constituinte" (em entrevista a VEJA, Sarney disse que essa foi a única vez em que pensou na renúncia). Alarmado, Brossard chamou para uma reunião os presidentes dos quatro partidos que davam sustentação ao governo no Congresso. Ulysses Guimarães, do PMDB, Jarbas Passarinho, do PDS, Marco Maciel, do PFL, e Paiva Muniz, do PTB, compareceram ao Ministério da Justiça e, por cerca de 45 minutos, ouviram o relato do ministro. "Depois dessa reunião, vários deputados do PMDB que antes apoiavam os quatro anos mudaram de idéia. Para o Ulysses, a saída de Sarney seria um mau negócio", diz Valls, o autor do livro. Isso porque, em caso de renúncia, Ulysses, como presidente da Câmara, teria de assumir a Presidência da República por alguns meses, o que o tornaria inelegível na disputa para a sucessão de Sarney.

Segundo Valls, a ameaça de renúncia e as ambições do PMDB pela Presidência teriam sido eficazes na obtenção dos cinco anos de mandato para Sarney. "A versão de que Sarney acabou conquistando o mandato de cinco anos com a distribuição de concessões de canais de televisão e rádios foi muito conveniente, principalmente para a liderança do PMDB da época", completa Valls. Pode ser. Mas não há como negar que a nova versão para o episódio também é muito útil para lustrar outra biografia – a de Sarney, evidentemente.

  Eduardo Salgado

 

 
 
 
 
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