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História O
espião fala Um
diplomata brasileiro
revela que, durante a II
Guerra, foi agente secreto na
Argentina  Marcelo
Carneiro
Oscar Cabral
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| Sérgio
Corrêa da Costa:
ele se passou por cidadão argentino para espionar nazistas
em Buenos Aires |
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Em
1943, o jovem carioca Sérgio Corrêa da Costa protagonizou uma aventura
tão fascinante quanto perigosa. Portando documentos forjados, ingressou
na Argentina sob a identidade de Juan Gutiérrez. Sua tarefa era, em plena
II Guerra Mundial, recolher o máximo de informação possível
sobre a infiltração nazista na Argentina, país que à
época mantinha estreita relação com a Alemanha de Hitler.
Durante três anos, Juan Gutiérrez e Sérgio Corrêa da
Costa foram a mesma pessoa. Só agora, mais de meio século depois
de manter o episódio em segredo até mesmo para a família,
o espião brasileiro decidiu contar suas proezas. A história é
tão mais saborosa porque seu protagonista, hoje com 85 anos, é um
diplomata aposentado que ocupou alguns dos mais altos postos na carreira, como
os de embaixador em Londres e Washington e representante do Brasil na ONU. As
revelações de Corrêa da Costa fazem parte do livro Crônica
de uma Guerra Secreta Nazismo na América: a Conexão Argentina
(Editora Record; 532 páginas; R$ 54,90), que chega nesta semana às
livrarias.
A
Argentina foi o país da América do Sul que mais abertamente apoiou
o regime de Hitler. Pode-se dizer que o caudilho Juan Domingo Perón apostou
seu futuro e o de seu país na vitória da Alemanha
na II Guerra Mundial. Só em janeiro de 1944, quase cinco anos depois de
iniciado o conflito e às vésperas da iminente derrota nazista, é
que a Argentina rompeu relações com a Alemanha. Foi o último
país do mundo a fazê-lo. O livro escrito por Corrêa da Costa,
que consultou 170 obras e visitou importantes centros de documentação
sobre a II Guerra, como o National Archives, de Washington, é uma crônica
desses tempos. O embaixador, é claro, também conta detalhes de sua
vida de espião como, por exemplo, a façanha de retirar, de
dentro do Archivo General de la Nación, documentos ultra-secretos do governo
argentino.
 | | O
mapa da América do Sul,
redesenhado pelos nazistas: Peru, Bolívia,
Paraguai e Uruguai desapareceriam
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A
história do espião brasileiro começa num campo de treinamento
militar no Rio de Janeiro. Lá, Corrêa da Costa, que se alistara como
voluntário do esforço de guerra, conheceu um capitão do Exército
brasileiro que o apresentou ao mundo da espionagem. Para incorporar o personagem
Juan Gutiérrez, o embaixador também contou com o auxílio
de um agente do serviço secreto britânico, que, de sua casa no bairro
de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, criou toda a documentação falsa
do cidadão argentino, natural da cidade de Corrientes. Corrêa da
Costa, que dava os primeiros passos na carreira diplomática,
ainda recorreu aos préstimos de uma ex-namorada argentina. Com sua ajuda,
e um espanhol fluente, decorou o nome das principais ruas de Corrientes, dos políticos
mais importantes da cidade e até a escalação do time de futebol
local. Apoiado por espiões ingleses e americanos, foi colocado clandestinamente
em território argentino, cruzando a fronteira pelo Rio Grande do Sul. Já
em Buenos Aires, manteve contato com os agentes aliados. Os ingleses chegaram
a dar a ele uma freqüência de rádio, por onde eram passadas
as informações para o Brasil. Crônica
de uma Guerra Secreta é um passeio por uma Argentina francamente germanófila.
Em 23 de abril de 1945, o governo argentino simplesmente proibiu "o anúncio
da queda de Berlim, seja por toques de sirene, assobios, fogos de artifício
e outro meio", como determinava um comunicado da Polícia Federal. Estima-se
que, no pós-guerra, entre 1945 e 1955, até 90.000 alemães
tenham emigrado para a Argentina. Pesquisadores respeitados sustentam que metade
desse contingente ingressou com nome e documentos falsos, muitos dos quais concedidos
pelo próprio governo de Perón. Além disso, pelo menos cinqüenta
desses imigrantes eram nazistas acusados de crimes de guerra. Reprodução
Oscar Cabral
 |  | | Concentração
nazista em Buenos Aires,
em 1937, e o embaixador, disfarçado, cruzando a fronteira no Rio Grande
do Sul: a aventura durou três anos |
Qual a razão de tanta simpatia por um regime hediondo e que, desde a década
de 30, já causava arrepios no mundo democrático? A explicação,
segundo o embaixador, está na certeza do regime peronista de que, com a
vitória da Alemanha, a Argentina assumiria a liderança no Cone Sul.
Corrêa da Costa publica, no livro, dois documentos reveladores sobre as
intenções de alemães e argentinos. O primeiro é um
mapa apreendido em 1941, no Rio de Janeiro, por agentes do serviço secreto
britânico. Em uma operação conhecida como silent killing
(em inglês, assassinato silencioso), um espião alemão
foi morto à luz do dia, numa rua movimentada. Ele caiu fulminado depois
de ser golpeado no que parecia ser um simples esbarrão, e sua valise foi
recolhida por um dos agentes. Dentro dela havia um mapa confeccionado pelo alto
comando alemão, em que a América do Sul passava a ter apenas cinco
países. Nações inteiras, como Uruguai e Paraguai, seriam
anexadas à Argentina, que ainda ocuparia parte da Bolívia
país que teria o restante do seu território incorporado pelo Brasil,
que, de acordo com o mapa, ficaria com uma pequena porção do Peru,
outra nação que desapareceria.
O segundo documento transcrito é o manifesto do Grupo de Oficiais Unidos
(GOU), do qual Perón fazia parte e que tomou o poder na Argentina após
um golpe militar, em junho de 1943. No manifesto, ficam claras a adesão
ao Eixo "A luta de Hitler, na paz e na guerra, será nosso guia,
de agora em diante" e a disposição dos argentinos em dominar
todas as nações da América do Sul, incluindo o Brasil. Depois
de listar países que, de alguma forma, já estavam na órbita
argentina, como Paraguai, Bolívia e Chile, os oficiais do GOU dizem que
"será fácil coagir o Uruguai", e concluem: "Caído o Brasil,
o continente sul-americano será nosso".
Crônica de uma Guerra Secreta
traz ainda relatos deliciosos das ações de espionagem realizadas
tanto por alemães quanto pelos aliados. Usando artifícios como a
técnica do microponto, os alemães enviavam textos secretos de até
trinta linhas, que, reduzidos, cabiam no pingo da letra "i", escrita numa máquina
de escrever. Pelos relatos, documentos e detalhes, o livro de Corrêa da
Costa tem tudo para se tornar uma referência para os estudos sobre a disseminação
da ideologia nazista na América do Sul. "A colaboração de
países latino-americanos inclusive o Brasil com a Alemanha
nazista ainda é um tema tabu. Livros como esse ajudam a quebrar essa barreira",
diz a historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro, da Universidade de São Paulo,
uma das maiores especialistas brasileiras no período.
Quando Sarney
quase foi Jânio Alencar
Monteiro/AE
 | | José
Sarney e Paulo Brossard
na década de 80: a resposta aos quatro anos seria a renúncia |
O presidente José Sarney ameaçou
renunciar durante a Assembléia Constituinte de 1988 para garantir um mandato
de cinco anos. Ainda nebuloso e pouco conhecido, esse episódio é
esmiuçado na biografia autorizada do ex-ministro da Justiça Paulo
Brossard, que será lançada no fim de outubro. Brossard
80 Anos na História Política do Brasil, do jornalista Luiz Valls,
conta como a ameaça demoveu líderes partidários que apoiavam
a Nova República da idéia de encurtar o mandato presidencial para
quatro anos. Sarney
assumiu a Presidência em 1985, depois da morte de Tancredo Neves, que fora
eleito de forma indireta por um período de seis anos. Esse também
tinha sido o mandato de João Figueiredo, o último general-presidente.
Considerando a forma acidental de sua ascensão ao poder e o calor do debate
sobre um novo sistema de governo, Sarney admitia encurtar seu mandato. Sugeria
restabelecer os cinco anos previstos na Constituição de 1946
à época, Sarney já havia cumprido três anos de governo.
Foi nesse contexto que uma parte da oposição lançou a idéia
do mandato de quatro anos. Em
março de 1988, num despacho com Brossard, então ministro da Justiça,
o presidente desabafou: "Não é problema de mais ou menos um ano,
mas eu ficaria desmoralizado e desautorizado". E concluiu: "Eu renuncio se os
quatro anos forem aprovados na Constituinte" (em entrevista a VEJA, Sarney disse
que essa foi a única vez em que pensou na renúncia). Alarmado, Brossard
chamou para uma reunião os presidentes dos quatro partidos que davam sustentação
ao governo no Congresso. Ulysses Guimarães, do PMDB, Jarbas Passarinho,
do PDS, Marco Maciel, do PFL, e Paiva Muniz, do PTB, compareceram ao Ministério
da Justiça e, por cerca de 45 minutos, ouviram o relato do ministro. "Depois
dessa reunião, vários deputados do PMDB que antes apoiavam os quatro
anos mudaram de idéia. Para o Ulysses, a saída de Sarney seria um
mau negócio", diz Valls, o autor do livro. Isso porque, em caso de renúncia,
Ulysses, como presidente da Câmara, teria de assumir a Presidência
da República por alguns meses, o que o tornaria inelegível na disputa
para a sucessão de Sarney. Segundo
Valls, a ameaça de renúncia e as ambições do PMDB
pela Presidência teriam sido eficazes na obtenção dos cinco
anos de mandato para Sarney. "A versão de que Sarney acabou conquistando
o mandato de cinco anos com a distribuição de concessões
de canais de televisão e rádios foi muito conveniente, principalmente
para a liderança do PMDB da época", completa Valls. Pode ser. Mas
não há como negar que a nova versão para o episódio
também é muito útil para lustrar outra biografia a
de Sarney, evidentemente.
Eduardo Salgado |
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