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Estados
Unidos
A última cartada de Kerry
Candidato democrata vai para o tudo
ou nada na questão do Iraque com
pouco resultado até agora
Fotos AP
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"Este presidente cometeu um colossal
erro de julgamento ao invadir o Iraque. É de esperar que o presidente
dos Estados Unidos tenha capacidade de discernimento."
John
Kerry |
"Eu acordo todos os dias
pensando na melhor maneira de proteger os Estados Unidos da
ameaça terrorista. Meu trabalho é esse."
George W. Bush |
O candidato
democrata John Kerry ganhou o debate de quinta-feira passada, o
primeiro desta campanha presidencial. E daí? Nada. Por enquanto,
o impacto foi praticamente nulo. Mesmo tendo se mostrado mais articulado,
embora com ar excessivamente ensaiado, diante de um presidente George
W. Bush que em alguns momentos chegou a ofegar de ansiedade, Kerry
não conseguiu o principal. A maioria dos americanos continua
a: 1) gostar mais de Bush; 2) confiar mais nele.
Como se
vê, a vida está dura para o candidato da oposição.
No mundo minuciosamente controlado dos debates presidenciais, em
que cada contendor é submetido a treinamento intensivo (como
se os homens que chegaram ao topo da cadeia política da hiperpotência
americana já não fossem suficientemente bons), tornou-se
muito difícil conseguir uma vitória acachapante, por
nocaute. Era exatamente desse tipo de resultado que a candidatura
de Kerry precisava para decolar. Agora, ele só emplaca se
houver uma reação espetacular nos próximos
trinta dias, uma probabilidade relativamente remota. Pelas pesquisas,
a diferença até que é pequena a dianteira
de Bush varia de 2 a 8 pontos porcentuais. O problema dos democratas
é que o presidente leva vantagem em praticamente todas as
faixas de público, entre o eleitorado jovem (48% a 42%),
da terceira idade (44% a 43%), masculino (52% a 37%), feminino (45%
a 42%), com formação universitária (47% a 44%)
e de baixa escolaridade (50% a 37%). A classe média (50%
a 42%), a classe média alta (63% a 28%) e os mais ricos (50%
a 43%) também estão com o atual presidente americano.
Bush ainda é o preferido entre os brancos (54% a 35%), sejam
eles protestantes tradicionais (45% a 43%), evangélicos (um
massacre: 74% a 18%) ou católicos (49% a 39%). Kerry tem
a seu favor o apoio apenas dos negros (73% a 12%), dos não-brancos
(64% a 24%) e dos pobres (43% a 36%). Os Estados Unidos, como se
sabe, são um país majoritariamente branco e de classe
média.
As diferenças
de estilo e de personalidade entre os dois candidatos, que ajudam
a explicar a preferência do eleitorado, já são
suficientemente conhecidas. Bush é claro, direto, preto-no-branco.
Disse que vai pegar os caras malvados que querem praticar atrocidades
contra os americanos e o discurso continua a convencer a
maioria do público, mesmo que a situação no
Iraque pareça cada vez mais descolada da campanha original
contra o terrorismo fundamentalista. Kerry, além da imagem
de sujeito que ora diz uma coisa, ora outra, ainda cumpre um papel
desagradável: o do candidato das más notícias.
A coisa no Iraque vai mal, diz ele. Para a parcela do público
que já sabe disso, nenhuma novidade. Mas, para a parcela
dos americanos que prefeririam não ficar sabendo, admitir
que Kerry está certo equivale a reconhecer que estavam errados
quando apoiaram e aplaudiram a invasão do Iraque. Pior ainda:
como não existe solução mágica, o candidato
democrata só pode oferecer uma saída para o quebra-cabeça
iraquiano muito parecida com a de Bush.
A rápida
deterioração da situação no Iraque nos
últimos meses acabou surpreendendo não só a
Casa Branca como os próprios democratas. "Kerry evitou falar
do Iraque durante boa parte da campanha porque havia apoiado a decisão
da Casa Branca de invadir o país", disse a VEJA a cientista
política Kathryn Dunn Tenpass, estudiosa de campanhas presidenciais.
Na prática, Bush e Kerry têm poucas divergências
sobre o que fazer no Iraque. Os dois prometem manter as tropas americanas
o tempo que for necessário para que o país recupere
um mínimo de estabilidade, o que pode levar anos. O fato
é que, por pior que a situação pareça,
com o cortejo diário de tiroteios, carros-bomba e seqüestros,
eventualmente agravado por horrores como a morte de 34 crianças
num único atentado, na quinta-feira passada, a encrenca iraquiana
é localizada. Além disso, a supremacia dos Estados
Unidos é tal que o país pode se dar ao luxo de manter
um conflito de intensidade relativamente baixa 1.050 soldados
americanos mortos em um ano e meio não é exatamente
um Vietnã por tempo indefinido. No dia-a-dia, o Iraque
tem efeito nulo sobre a rotina dos americanos, que se preocupam
mais com a hipótese ainda teórica de um novo atentado
em seu país do que com a realidade sangrenta do outro lado
do mundo. Kerry optou, com razão, por explorar ao máximo
a cartada iraquiana em sua campanha contra Bush. Para isso, porém,
tem de falar coisas que muita gente não queria ouvir. A resposta
virá em 2 de novembro.
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