Edição 1874 . 6 de outubro de 2004

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Estados Unidos
A última cartada de Kerry

Candidato democrata vai para o tudo
ou nada na questão do Iraque – com
pouco resultado até agora

 
Fotos AP
"Este presidente cometeu um colossal erro de julgamento ao invadir o Iraque. É de esperar que o presidente dos Estados Unidos tenha capacidade de discernimento."
John Kerry
"Eu acordo todos os dias pensando na melhor maneira de proteger os Estados Unidos da ameaça terrorista. Meu trabalho é esse."
George W. Bush

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Em Profundidade: Eleições nos EUA

O candidato democrata John Kerry ganhou o debate de quinta-feira passada, o primeiro desta campanha presidencial. E daí? Nada. Por enquanto, o impacto foi praticamente nulo. Mesmo tendo se mostrado mais articulado, embora com ar excessivamente ensaiado, diante de um presidente George W. Bush que em alguns momentos chegou a ofegar de ansiedade, Kerry não conseguiu o principal. A maioria dos americanos continua a: 1) gostar mais de Bush; 2) confiar mais nele.

Como se vê, a vida está dura para o candidato da oposição. No mundo minuciosamente controlado dos debates presidenciais, em que cada contendor é submetido a treinamento intensivo (como se os homens que chegaram ao topo da cadeia política da hiperpotência americana já não fossem suficientemente bons), tornou-se muito difícil conseguir uma vitória acachapante, por nocaute. Era exatamente desse tipo de resultado que a candidatura de Kerry precisava para decolar. Agora, ele só emplaca se houver uma reação espetacular nos próximos trinta dias, uma probabilidade relativamente remota. Pelas pesquisas, a diferença até que é pequena – a dianteira de Bush varia de 2 a 8 pontos porcentuais. O problema dos democratas é que o presidente leva vantagem em praticamente todas as faixas de público, entre o eleitorado jovem (48% a 42%), da terceira idade (44% a 43%), masculino (52% a 37%), feminino (45% a 42%), com formação universitária (47% a 44%) e de baixa escolaridade (50% a 37%). A classe média (50% a 42%), a classe média alta (63% a 28%) e os mais ricos (50% a 43%) também estão com o atual presidente americano. Bush ainda é o preferido entre os brancos (54% a 35%), sejam eles protestantes tradicionais (45% a 43%), evangélicos (um massacre: 74% a 18%) ou católicos (49% a 39%). Kerry tem a seu favor o apoio apenas dos negros (73% a 12%), dos não-brancos (64% a 24%) e dos pobres (43% a 36%). Os Estados Unidos, como se sabe, são um país majoritariamente branco e de classe média.

As diferenças de estilo e de personalidade entre os dois candidatos, que ajudam a explicar a preferência do eleitorado, já são suficientemente conhecidas. Bush é claro, direto, preto-no-branco. Disse que vai pegar os caras malvados que querem praticar atrocidades contra os americanos – e o discurso continua a convencer a maioria do público, mesmo que a situação no Iraque pareça cada vez mais descolada da campanha original contra o terrorismo fundamentalista. Kerry, além da imagem de sujeito que ora diz uma coisa, ora outra, ainda cumpre um papel desagradável: o do candidato das más notícias. A coisa no Iraque vai mal, diz ele. Para a parcela do público que já sabe disso, nenhuma novidade. Mas, para a parcela dos americanos que prefeririam não ficar sabendo, admitir que Kerry está certo equivale a reconhecer que estavam errados quando apoiaram e aplaudiram a invasão do Iraque. Pior ainda: como não existe solução mágica, o candidato democrata só pode oferecer uma saída para o quebra-cabeça iraquiano muito parecida com a de Bush.

A rápida deterioração da situação no Iraque nos últimos meses acabou surpreendendo não só a Casa Branca como os próprios democratas. "Kerry evitou falar do Iraque durante boa parte da campanha porque havia apoiado a decisão da Casa Branca de invadir o país", disse a VEJA a cientista política Kathryn Dunn Tenpass, estudiosa de campanhas presidenciais. Na prática, Bush e Kerry têm poucas divergências sobre o que fazer no Iraque. Os dois prometem manter as tropas americanas o tempo que for necessário para que o país recupere um mínimo de estabilidade, o que pode levar anos. O fato é que, por pior que a situação pareça, com o cortejo diário de tiroteios, carros-bomba e seqüestros, eventualmente agravado por horrores como a morte de 34 crianças num único atentado, na quinta-feira passada, a encrenca iraquiana é localizada. Além disso, a supremacia dos Estados Unidos é tal que o país pode se dar ao luxo de manter um conflito de intensidade relativamente baixa – 1.050 soldados americanos mortos em um ano e meio não é exatamente um Vietnã – por tempo indefinido. No dia-a-dia, o Iraque tem efeito nulo sobre a rotina dos americanos, que se preocupam mais com a hipótese ainda teórica de um novo atentado em seu país do que com a realidade sangrenta do outro lado do mundo. Kerry optou, com razão, por explorar ao máximo a cartada iraquiana em sua campanha contra Bush. Para isso, porém, tem de falar coisas que muita gente não queria ouvir. A resposta virá em 2 de novembro.

 

 

 
 
 
 
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