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Comportamento
Grávidas com atitude
Dieta, ginástica, roupas da moda, visual
sexy: para muitas mulheres, esperar um filho não significa
abrir mão da vaidade e do prazer

Ariel Kostman
A empresária paulista Alexia Nascimento,
31 anos, grávida de nove meses, anda preocupada com as alterações
ocorridas em seu corpo nos últimos tempos. Nada a ver com
seu organismo ou com o bebê: mãe e filho vendem saúde.
Mas, quando se aproxima do espelho, Alexia apavora-se com suas coxas,
que ficaram mais espessas e flácidas. Ela também lamenta
pela batata da perna, inchada. Para completar, apareceram uns pontinhos
de celulite aqui e ali. Alexia, porém, não se dá
por vencida. Ela reage a essas mudanças com um sentimento
que até há pouco era considerado quase imoral entre
mulheres grávidas: a vaidade. Malha na academia de ginástica
e submete-se a sessões de drenagem linfática para
prevenir estrias. Mantém uma alimentação saudável
e foge do chocolate. Pesquisou até encontrar um "reflexo"
que substituísse a tintura que usava nos cabelos contra-indicada
a mulheres em sua condição. Usa roupas justas para
valorizar os seios e o bumbum, que ficaram maiores e mais pronunciados.
Alexia diz que, por ter permanecido atraente durante a gravidez,
manteve a vida sexual com o marido no mesmo ritmo de sempre. "Até
o oitavo mês, sentia até mais desejo do que antes",
revela.
Raphael Falavigna
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SEMPRE BELA
A ex-modelo Denise Céspedes: "Sentir-se
feia acaba com o bom humor" |
Bem-vindo ao admirável mundo das grávidas
com atitude. Foi-se o tempo em que a gestação relegava
a mulher a uma espécie de limbo em que a rotina era repousar
bastante e desligar-se do mundo das vaidades ao satisfazer todos
os caprichos do apetite, usar batinhas feiosas e dispensar maquiagens
e adornos. Antigamente, a aparência despojada e o recato faziam
parte do ritual da gravidez. Hoje, num mundo movido a hipervalorização
da beleza e da exposição incessante das celebridades
(inclusive quando grávidas), aquelas qualidades se tornaram
quase uma autoflagelação. Em 1971, quando apareceu
na praia de Ipanema exibindo o barrigão para os fotógrafos,
a atriz Leila Diniz causou um escândalo e, não fosse
ela uma personagem pública, provavelmente teria ido parar
na delegacia. Hoje, com a moda das blusas e camisetas supercurtas,
a barriga das gestantes é exposta sem problemas mesmo fora
das praias. "Meu marido me cobra bastante, quer que eu esteja sempre
bonita e bem vestida mesmo estando grávida", conta a engenheira
paulista Tatiana Samara Levorin, 26 anos, que será mãe
nas próximas semanas. "Ter vida normal, cuidar-se e permanecer
sensual, hoje, é uma questão de consciência",
ela exagera.
Oscar Cabral
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EXERCÍCIOS
LIBERADOS
Espaço Stella Torreão, no Rio: o número
de gestantes na academia quadruplicou nos últimos cinco
anos |
Mesmo diante da redução na taxa
de fertilidade no país em 1970, a brasileira tinha
em média 5,8 filhos, contra 2,3 em 2000 , o número
de produtos para suprir o desejo das grávidas de permanecer
bonitas e desejáveis não pára de crescer: roupas,
emulsões corporais para evitar estrias, gel para aliviar
o desconforto das pernas e dos pés, e por aí afora.
"É um mercado muito específico, mas que está
crescendo de forma consistente", diz a diretora de negócios
da empresa de cosméticos Natura, Denise Figueiredo. O crescimento
desse mercado se explica também pelo fato de que muitas mulheres
hoje preferem engravidar mais tarde na vida, quando já têm
uma situação profissional definida e maior poder aquisitivo.
Por isso, dispõem de mais dinheiro para gastar e são
mais exigentes. Nos Estados Unidos, apenas o mercado de roupas para
grávidas movimenta 1,2 bilhão de dólares por
ano. Por aqui, não há números precisos, mas
as lojas de roupas para gestantes se multiplicaram nos últimos
dois anos. Hoje, além de terem abandonado aqueles macacões
sem graça, elas estão oferecendo peças para
todas as ocasiões trabalho, festas, ginástica,
fim de semana e seguindo as tendências da moda feminina.
As batas, que estavam renegadas, só voltaram às prateleiras
porque estão em alta no mundo fashion. "Lançamos duas
coleções por ano com cerca de 200 modelos em cada
uma", diz Dora Cilento, gerente-geral da loja Mammy Gestante, em
São Paulo. Aberta há oito anos, a Mammy foi a primeira
loja paulistana a vender roupas para grávidas vaidosas e
exigentes. Hoje, existem mais de dez lojas desse tipo na cidade.
Em Minas Gerais, a marca A Grávida Vaidosa, com seis anos
de existência, já tem sete lojas, cinco delas em Belo
Horizonte.
"Há uma nova atitude em relação
à gravidez. Ter uma barrigona e ser sexy já não
são coisas excludentes", diz a consultora de moda Christiana
Francini, 34 anos, autora do livro Grávida com Estilo,
um manual de como se vestir durante os nove meses de gestação,
e que será mamãe neste mês. Aliás, os
livros para grávidas já não se limitam a ensinar
como amamentar e dar banho no recém-nascido: todos incluem
capítulos sobre beleza, moda e exercícios físicos.
Denise Céspedes, ex-modelo e sócia da agência
Ford Models Brasil, até por dever de ofício sempre
se preocupou com a aparência. "Na gravidez não ia ser
diferente", diz. "Faço esteira, contratei uma personal trainer
que me dá exercícios específicos para a musculatura,
faço ginástica localizada e também aderi à
drenagem linfática porque me sinto muito mal com o inchaço."
Outra providência de Denise foi tirar do armário todas
as peças que não cabem mais. "Às vezes você
pensa em usar uma determinada calça e, na hora de vestir,
ela não serve. Isso acaba com seu bom humor e sua auto-estima."
Grávida de sete meses e meio, a instrumentadora cirúrgica
Clarisse Stavale, 35 anos, diz que as coisas mudaram bastante desde
que teve seu primeiro filho, oito anos atrás. "Antigamente,
parecia que gravidez era doença. Não ficava bem usar
decote, minissaia", ela diz. "Hoje é bem diferente: você
pode ir à praia de tanga e usar roupas sensuais." O desejo
de permanecer sexy durante a gravidez também já foi
detectado nos consultórios de ginecologistas e obstetras.
"As grávidas hoje estão muito mais preocupadas com
a vaidade do que quando comecei a clinicar, há quinze anos.
Querem saber como engordar pouco, como evitar estrias", diz o ginecologista
Artur Dzik, diretor do setor de esterilidade conjugal do Hospital
Pérola Byington. "Acho isso positivo, mas algumas exageram.
Querem fazer spinning com nove meses de gravidez, o que evidentemente
é prejudicial."
Fotos Claudio Rossi
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Rossi
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DE BEM COM O ESPELHO
Alexia Nascimento: roupas justas para valorizar o corpo e drenagem
linfática para prevenir estrias |
MANUAL PRÁTICO
Christiana Francini, autora do livro Grávida
com Estilo: "Barriga e sensualidade combinam bem"
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Só mesmo as grávidas com atitude,
porém, sabem como é duro ficar na frente do espelho
e sentir um misto de orgulho pela barriga com pânico pelo
corpo que se deforma lentamente. Pior: nunca é possível
prever que partes do corpo irão se alterar e de que maneira.
Segundo uma pesquisa recente encomendada pela revista americana
New Yorker, assim como no capítulo sobre o inferno
do poema A Divina Comédia, de Dante Alighieri, há
uma hierarquia entre os níveis de sofrimento. Nível
1: toda a gordura extra que o corpo acumula vai parar na barriga
(menos mau, há sempre a desculpa de que o bebê é
grandão). Nível 2: os seios crescem muito mais
do que seria desejável (sempre se pode alegar que a culpa
é do leite materno). Nível 3: as coxas e as
nádegas incham como balões e a pele nesses pontos
fica enrugada (difícil disfarçar, a não ser
com roupas largas). Nível 4: o rosto e o tornozelo
ficam estufados e o corpo todo ganha volume (é quando isso
acontece que muitas grávidas tendem a exagerar na ginástica).
Boa parte do comportamento atual das grávidas
vaidosas tornou-se possível graças aos avanços
da medicina e da ciência em geral. Até a década
de 70, a prática de exercícios físicos, por
exemplo, era fortemente desaconselhada pelos médicos. Acreditava-se
que eles provocavam abortos e roubavam oxigênio do bebê.
Hoje, sabe-se que aquelas suposições não tinham
fundamento e recomendam-se exercícios moderados até
o fim da gestação. Eles ajudam a reduzir o aumento
de peso, as cãibras e as dores musculares características
da gravidez. Isso abriu uma porta para que a ginástica se
tornasse uma obsessão para muitas grávidas, a ponto
de as academias desenvolverem programas especiais para elas. No
Espaço Stella Torreão, no Rio de Janeiro, o número
de alunas grávidas quadruplicou nos últimos cinco
anos. "Muitas ficam tão preocupadas com a estética
que querem exagerar nos exercícios. Dizem que não
podem engordar para não correr o risco de perder o marido",
diz Stella Torreão, dona da academia. "Às vezes, preciso
ligar para o médico delas para convencê-las a reduzir
o ritmo." Já existem até personal trainers especializados
em atender grávidas, como a paulistana Bruna Crachi, que
há cinco anos se especializou nesse tipo de atendimento e
chega a acompanhar algumas gestantes até nas consultas ao
ginecologista. Segundo Bruna, a preocupação com a
aparência é tamanha que muitas cometem excessos. "Tive
uma cliente que era radical, não queria engordar de jeito
nenhum e por isso não comia direito. O bebê nasceu
bem, mas ela acabou com uma anemia."
Com os avanços da medicina fetal e
o aperfeiçoamento de equipamentos de ultra-sonografia ocorridos
nos últimos trinta anos, hoje os médicos podem acompanhar
com precisão o que se passa dentro do útero. É
uma grande diferença em relação à década
de 60, quando os obstetras ficavam limitados a verificar os batimentos
cardíacos do bebê usando um estetoscópio, conferir
se ele se mexia e se estava crescendo. Esses avanços também
determinaram uma revisão completa na alimentação
recomendada às mulheres grávidas. Até o início
dos anos 80, elas podiam e deviam comer à vontade.
Por causa do bebê, dizia-se que era necessário que
elas comessem "por duas pessoas". Era normal uma gestante engordar
mais de 20 quilos. Hoje, sabe-se que a superalimentação
é desnecessária. O desejável é que a
gestante ganhe um mínimo de 9 quilos ao longo da gravidez.
Mas será que as grávidas vaidosas, ao fazer dieta,
estão comprometendo a saúde de seus bebês? Não
necessariamente, dizem os especialistas. O importante, segundo eles,
é que, mesmo comendo pouco, as mães sigam uma dieta
bem balanceada (veja
quadro), que garanta ao feto todos os nutrientes
de que ele precisa.
Durante muito tempo, acreditou-se que as mães
que reduziam radicalmente as calorias de sua dieta davam à
luz bebês abaixo do peso e, portanto, mais expostos a uma
série de perturbações, que vão da paralisia
cerebral à cegueira. Hoje, o assunto é controverso.
Uma redução drástica de calorias, principalmente
nos últimos três meses de gravidez, é desaconselhável
é nesse período que o feto ganha peso mais
rapidamente. Muitos outros fatores, no entanto, concorrem para que
um bebê nasça abaixo do peso. Seu desenvolvimento pode
ser comprometido, por exemplo, pela circulação no
sangue da placenta de substâncias indesejáveis, como
a nicotina e o chumbo, ou ainda por fatores genéticos. Além
de seguir uma dieta balanceada, é importante que as gestantes
fiquem atentas à lista de alimentos que, conforme se descobriu
nas últimas décadas, podem causar problemas ao feto
(veja
quadro). A grande novidade nessa lista são
o amendoim e as nozes eles contêm substâncias
que podem predispor o nenê a desenvolver alergias.
Outra novidade no quesito alimentação
é que o antigo ritual de satisfazer os "desejos" súbitos
das grávidas, que em geral se manifestam nos horários
mais inconvenientes, está sendo hoje bombardeado pela ciência.
Muitos psicólogos e obstetras dizem que o marido não
deve sair correndo quando a esposa grávida acorda de madrugada
com vontade irresistível de comer quiabo ou doce de manga.
"Esse tipo de desejo pode indicar algum problema emocional, por
isso o melhor é fazê-la voltar a dormir e, posteriormente,
procurar ajuda profissional", diz o coordenador de obstetrícia
do Hospital Albert Einstein, Wladimir Taborda. A julgar pelo perfil
voluntarioso das grávidas vaidosas, o difícil será
convencê-las de que o "desejo" não passa de uma travessura
da mente.
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