Edição 1874 . 6 de outubro de 2004

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Medicina
Vitória da vida

Nasce o primeiro bebê do mundo concebido
por uma mulher submetida a um transplante
de ovário


Paula Neiva


AP
Tamara, no colo de Ouarda: mãe e filha entram para a história da medicina
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Estudo em inglês


Sete horas e cinco minutos da noite de quinta-feira, 23 de setembro – o nascimento de Tamara, em Bruxelas, na Bélgica, é um marco na história da medicina. A menina é a primeira criança concebida por uma mulher submetida a um transplante de ovário. Em 1997, aos 25 anos, sua mãe, a belga Ouarda Touirat, recebeu o diagnóstico de linfoma de Hodgkin. Câncer do sistema linfático – constituído por órgãos e tecidos responsáveis pela produção e distribuição das células de defesa do organismo –, a doença encontrava-se em estágio avançado. A sobrevivência de Ouarda dependia de um tratamento extremamente agressivo, que combinava químio e radioterapia. Como esses procedimentos não diferenciam células cancerosas de células sadias, matando umas e outras, o paciente sofre muitos efeitos colaterais. No caso das mulheres, entre os órgãos mais afetados estão os ovários. Ou seja, o sonho de Ouarda de ter um filho seria aniquilado juntamente com a doença. Sua única esperança era o transplante de ovário – um procedimento testado algumas vezes, mas sempre sem sucesso. Ouarda arriscou no ano passado. E o resultado está aí: Tamara, um bebê saudável, de quase 4 quilos e cabelos fartos e castanhos.

Desde o fim da década de 90, os médicos tentam realizar um transplante de ovário. Os especialistas não tinham, porém, o domínio da técnica de congelamento do tecido ovariano, não sabiam qual o local mais adequado para o transplante e qual a quantidade necessária de amostras para que um ovário voltasse a produzir óvulos. Antes do início do tratamento de Ouarda contra o linfoma, o médico Jacques Donnez, da Universidade Católica de Louvain, retirou cerca de setenta amostras do ovário esquerdo da jovem (veja quadro). Elas ficaram congeladas por seis anos. Em 2003, vencida a doença, era a hora de vencer o desafio da maternidade. As amostras foram implantadas no ovário direito de Ouarda. Como o ovário é muito vascularizado, em pouco tempo o tecido enxertado foi incorporado ao órgão, que voltou a funcionar normalmente. Em janeiro passado, Ouarda engravidou naturalmente de Tamara. "Esse é um dos avanços mais significativos na área da fertilidade humana desde Louise Brown", disse o médico inglês Bob Edwards, referindo-se ao próprio feito, o nascimento do primeiro bebê de proveta do mundo, em 1978. "A técnica abre um novo caminho para as mulheres que se tornam estéreis depois de vencer um câncer." Os outros são o congelamento de óvulos e o de embriões. "Esses métodos, no entanto, só são indicados para mulheres cuja doença permite que elas antes se submetam às terapias hormonais que estimulam a produção de óvulos, o que leva, em média, um mês", diz o médico Edson Borges Júnior, diretor do Centro de Fertilização Assistida Fertility, em São Paulo. Em situações em que a luta é também contra o relógio, como a de Ouarda, a melhor opção pode ser o transplante de ovário.

 

 
 
 
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