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Medicina
Vitória da vida
Nasce o primeiro bebê do mundo concebido
por uma mulher submetida a um transplante
de ovário

Paula Neiva
AP
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| Tamara, no colo de Ouarda: mãe e filha
entram para a história da medicina |
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Sete horas e cinco minutos da noite de quinta-feira, 23 de setembro
o nascimento de Tamara, em Bruxelas, na Bélgica, é
um marco na história da medicina. A menina é a primeira
criança concebida por uma mulher submetida a um transplante
de ovário. Em 1997, aos 25 anos, sua mãe, a belga
Ouarda Touirat, recebeu o diagnóstico de linfoma de Hodgkin.
Câncer do sistema linfático constituído
por órgãos e tecidos responsáveis pela produção
e distribuição das células de defesa do organismo
, a doença encontrava-se em estágio avançado.
A sobrevivência de Ouarda dependia de um tratamento extremamente
agressivo, que combinava químio e radioterapia. Como esses
procedimentos não diferenciam células cancerosas de
células sadias, matando umas e outras, o paciente sofre muitos
efeitos colaterais. No caso das mulheres, entre os órgãos
mais afetados estão os ovários. Ou seja, o sonho de
Ouarda de ter um filho seria aniquilado juntamente com a doença.
Sua única esperança era o transplante de ovário
um procedimento testado algumas vezes, mas sempre sem sucesso.
Ouarda arriscou no ano passado. E o resultado está aí:
Tamara, um bebê saudável, de quase 4 quilos e cabelos
fartos e castanhos.
Desde o fim da década de 90, os médicos
tentam realizar um transplante de ovário. Os especialistas
não tinham, porém, o domínio da técnica
de congelamento do tecido ovariano, não sabiam qual o local
mais adequado para o transplante e qual a quantidade necessária
de amostras para que um ovário voltasse a produzir óvulos.
Antes do início do tratamento de Ouarda contra o linfoma,
o médico Jacques Donnez, da Universidade Católica
de Louvain, retirou cerca de setenta amostras do ovário esquerdo
da jovem (veja quadro). Elas ficaram congeladas por seis
anos. Em 2003, vencida a doença, era a hora de vencer o desafio
da maternidade. As amostras foram implantadas no ovário direito
de Ouarda. Como o ovário é muito vascularizado, em
pouco tempo o tecido enxertado foi incorporado ao órgão,
que voltou a funcionar normalmente. Em janeiro passado, Ouarda engravidou
naturalmente de Tamara. "Esse é um dos avanços mais
significativos na área da fertilidade humana desde Louise
Brown", disse o médico inglês Bob Edwards, referindo-se
ao próprio feito, o nascimento do primeiro bebê de
proveta do mundo, em 1978. "A técnica abre um novo caminho
para as mulheres que se tornam estéreis depois de vencer
um câncer." Os outros são o congelamento de óvulos
e o de embriões. "Esses métodos, no entanto, só
são indicados para mulheres cuja doença permite que
elas antes se submetam às terapias hormonais que estimulam
a produção de óvulos, o que leva, em média,
um mês", diz o médico Edson Borges Júnior, diretor
do Centro de Fertilização Assistida Fertility, em
São Paulo. Em situações em que a luta é
também contra o relógio, como a de Ouarda, a melhor
opção pode ser o transplante de ovário.
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