Edição 1874 . 6 de outubro de 2004

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Menos dinheiro no bolso

Pesquisa do IBGE mostra uma dura realidade:
plano vai, plano vem e a renda não cresce


Carina Nucci


Chris Von Ameln/Folha Imagem
Desempregados no Rio de Janeiro: os mais pobres perderam menos


A renda mensal do brasileiro vem descendo a ladeira desde 1997. Chegou ao fundo do poço no ano passado, o primeiro do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, quando retrocedeu aos níveis de 1993. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), anunciada pelo IBGE na semana passada, em setembro de 2003 a renda média mensal do trabalhador era de apenas 692 reais, o ponto mais baixo desde 1995. A queda foi resultado da instabilidade gerada pelas eleições de 2002. À medida que o então candidato petista à Presidência se distanciava nas pesquisas, subia o risco Brasil, o termômetro do nervosismo do mercado financeiro. A inflação já despontava como uma ameaça real. Após a posse, o governo se viu forçado a adotar medidas restritivas para acabar com as suspeitas de que a administração do PT não daria continuidade a políticas fiscal e monetária responsáveis. "Tomamos as medidas necessárias para evitar perda maior da renda. Caso o governo tivesse deixado a inflação subir, teria sido pior", diz Marcos Lisboa, secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda.

A escalada de juros para conter a inflação elevou o custo dos empréstimos, travou investimentos e, por fim, derrubou a renda. Entre 2002 e 2003, perdeu mais quem ganhava mais. A metade mais rica da população viu os recursos mensais minguar em 8,1% de um ano para outro. Já a metade mais pobre perdeu 4,2% da renda. A riqueza ficou menos concentrada, mas, em um cenário de encolhimento geral da renda, isso não chega a ser um consolo. O aumento do salário mínimo em 2003 aliviou um pouco as perdas dos assalariados. "Apesar dessa evidência, é preciso lembrar que os mais ricos não vivem apenas do trabalho e não declaram à pesquisa os ganhos com fundos de investimento, aluguéis e outros tipos de renda", lembra Eduardo Pereira Nunes, presidente do IBGE. Em termos de desconcentração de riqueza, a meta deve ser o crescimento econômico para que os mais pobres ganhem renda em vez de ser os que perdem menos.

Apesar das más notícias, houve avanços entre 2002 e 2003. A despeito da renda menor, o trabalho infantil diminuiu com a saída de 367.000 crianças e adolescentes do mercado. Já o número de trabalhadores com carteira assinada cresceu. Cerca de 850.000 postos formais de trabalho foram criados. Esse é um sinal de alento para as combalidas contas da Previdência. Na área da educação, que é crucial para o crescimento econômico de longo prazo, também houve progresso. A freqüência escolar de crianças e adultos aumentou. A pesquisa divulgada na semana passada não captou a retomada da economia registrada nos últimos meses, que, segundo as estimativas, deve garantir um crescimento de cerca de 4% neste ano. Diz Luiz Parreiras, economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea): "A próxima pesquisa nacional deve mostrar a recuperação do emprego e da renda. Sinais disso já apareceram nas apurações mensais nos primeiros meses do ano".

 


Marcelo Zocchio
 
 
 
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