Edição 1874 . 6 de outubro de 2004

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Polícia
Pescadores na rede

Naufrágio traz à luz caso de prostituição
juvenil que envolve político e empresário


Policarpo Junior


Antonio Lima/Ag. O Globo
O naufrágio do barco que matou cinco garotas no Rio Negro

Há dois meses, o Congresso Nacional concluiu uma CPI sobre a exploração sexual de crianças e adolescentes no país. No relatório final da investigação, 250 pessoas foram acusadas, entre elas políticos e empresários. Só na Região Norte foi identificada quase uma centena de rotas de prostituição juvenil. Na semana passada, o rescaldo de uma tragédia ocorrida no Rio Negro, no Amazonas, revelou que a indústria da prostituição juvenil continua funcionando como se nada tivesse acontecido. Um barco naufragou matando treze pessoas, entre elas cinco meninas que voltavam de uma "pescaria" com turistas. A turma de pescadores era formada por empresários, profissionais liberais e um deputado de Brasília. Eles pagaram 3.500 reais por uma semana a bordo de um iate, com direito a bebida, cozinha internacional e chumbadas de diversos tamanhos. Para quem quisesse, havia um serviço extra: garotas, algumas menores de idade, selecionadas por uma cafetina amazonense.

Tudo teria ficado às escondidas não fosse a tragédia do naufrágio. Os pescadores chegaram a Manaus na sexta-feira 17. Antes de iniciar a viagem, o grupo passou por um shopping, comprou peças de lingerie, batons, biquínis e outros presentes. Depois de zarpar, já com alguns quilômetros navegados, o iate recebeu dezessete passageiras extras, que chegaram de lancha. Houve uma tremenda festa, com direito a desfile de roupas íntimas, recém-compradas no shopping, e sorteio de brindes. No dia seguinte, as garotas foram embora. Cinco delas pegaram um barco em direção a Manaus, mas não chegaram ao destino. Uma tempestade fez a embarcação adernar. A polícia ainda não conseguiu ouvir todas as pessoas envolvidas nem sabe o nome dos quinze pescadores, mas já tem evidências de que foi um caso típico de turismo sexual. Nove meninas prestaram depoimento até agora. Três delas – sendo uma de 17 anos – disseram ter mantido relações com o deputado Benício Tavares, presidente da Câmara Distrital de Brasília. O deputado, que é paraplégico, pediu licença do cargo. "Não sabia que haveria mulheres. Quando percebi pedi ao organizador que as desembarcasse, mas não fui atendido", diz o parlamentar, que abandonou o iate ao saber do naufrágio. O organizador da pescaria, o dentista paulista Flávio Talmelli, não foi encontrado. A um amigo, o dentista disse que também nada sabia sobre a presença das moças a bordo.

 
 
 
 
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