Edição 1874 . 6 de outubro de 2004

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Banco Mundial
Dois retratos do mesmo Brasil

Selvageria no Leblon e estudo do
Banco Mundial são dois instantâneos
de uma mesma realidade brasileira:
a leniência com a corrupção e a violência


Marcelo Carneiro


Fotos reprodução TV Globo
As imagens exibidas na televisão de gangues espancando e roubando turistas no Rio de Janeiro mostram quem são os verdadeiros excluídos, aqueles que não podem nem mais ir à praia sem ser molestados

Toda vez que a economia brasileira parece ingressar na rota do crescimento, entram em campo dois times. O dos otimistas, apostando que o país passou a reunir condições para vôos mais altos. E o dos realistas, lembrando que a alta carga tributária e a burocracia continuam sendo empecilhos para um desenvolvimento sustentado. Não poderia ser diferente em um momento em que todas as previsões para o desempenho do produto interno bruto (PIB) estão sendo revistas para cima e o país deve fechar o ano com crescimento superior a 4%. Na semana passada, no entanto, os dois times tiveram suas convicções abaladas por outra discussão, dolorosamente concreta. Na terça-feira, foram ao ar no Jornal Nacional, da Rede Globo, as imagens de jovens favelados espancando e roubando turistas na Praia do Leblon, um dos principais cartões-postais do Rio de Janeiro. No mesmo dia, o Banco Mundial apresentou, em Washington, uma pesquisa mostrando que a criminalidade, o suborno e o desrespeito às leis são fatores percebidos pelos investidores como empecilhos ao progresso tão ou mais vitais do que os solavancos macroeconômicos. Os impunes assaltantes do Leblon são apenas parte de um retrato que mostra o Brasil indefeso diante da violência e descumpridor de contratos.

Todos esses problemas têm impacto direto no desempenho econômico do país. Entre os banhistas atacados na Praia do Leblon, havia turistas uruguaios e ingleses, gente que poupou seu dinheiro para gastá-lo no Brasil. Hoje, a indústria hoteleira arrecada anualmente 2 bilhões de dólares. Estudos apontam que, se fossem resolvidos problemas de base como a criminalidade nos corredores turísticos e a baixa qualificação dos trabalhadores do setor, o número poderia subir para 3,5 bilhões de dólares. Resolver essa questão é um trabalho complexo, mas diante de outros desafios – como reconstruir a infra-estrutura do país ou remodelar o sistema de ensino – é uma tarefa exeqüível. Reveses como a alta do preço do petróleo no mercado internacional são questões para as quais o país tem de estar preparado, mas não pode evitar. Atacar a criminalidade depende apenas de um esforço interno.

As quase 300 páginas do estudo do Banco Mundial intitulado Um Melhor Clima de Investimento para Todos trazem o diagnóstico dos principais problemas enfrentados pelos investidores em 53 países em desenvolvimento. Foram ouvidas 30.000 empresas, sendo 1.642 no Brasil. A conclusão é que o país, mesmo com os avanços no âmbito da macroeconomia a partir da estabilidade conseguida com o Plano Real, ainda tem muito que melhorar para tornar-se um porto seguro para os investidores. "A macroeconomia é fundamental, mas não é suficiente. A segurança em relação ao direito de propriedade é essencial para incentivar investimentos e criar empregos", disse a VEJA Warrick Smith, diretor do Banco Mundial responsável pelo documento.

A questão é como desatar tantos nós. Há quem continue acreditando que só é possível enfrentar problemas como a violência urbana, por exemplo, depois de acabar com a pobreza no país. Felizmente, hoje essa é uma teoria de poucos adeptos. Não é difícil entender que medidas de combate ao crime e à corrupção contribuem para melhorar o clima para investimentos e, conseqüentemente, reduzir a pobreza e a violência, o que por sua vez melhora o ambiente para novos investidores, e assim por diante. O economista Sérgio Besserman, da PUC-Rio, resume com clareza esse ponto. "Quem acha que é preciso primeiro cuidar do crescimento para, só então, atacar o crime e a corrupção colabora com a perpetuação desse ciclo", diz.

Resolver os problemas básicos não dará ao país a fórmula mágica do crescimento. Mas não há desenvolvimento sustentado da economia sem a resolução de impasses estruturais. Os países da América Latina, que há anos patinam entre ciclos de expansão e retração, encabeçam a lista das nações onde a criminalidade está entre as maiores preocupações dos investidores. No Brasil, o crime engole 11% do PIB, segundo o estudo do Banco Mundial. Em outro problema apontado pela pesquisa, a corrupção, 51% das empresas ouvidas no Brasil admitiram que pagam suborno para tocar seus negócios. A pesquisa não explora as causas da corrupção. Mas elas são cristalinas. Nenhum empresário sai da cama com o objetivo expresso de dar algum dinheiro a um funcionário público. Ele faz isso por necessidade de sobrevivência. Isso não faz dele uma pessoa mais honesta, mas mostra que, junto com os 51% de empresas que declararam dar propinas, está imerso em um ambiente de negócios complicadamente hostil. Qualquer iniciativa que simplifique a burocracia de criação e manutenção da vida das empresas em suas relações com o mundo oficial estará fazendo mais pelo combate à corrupção do que as rumorosas prisões de acusados de malfeitorias. O governo se orgulha de, desde o ano passado, ter mandado prender 413 corruptos em 36 operações da Polícia Federal. É preciso esperar pelo menos mais um ano para contar quantos deles ainda estarão presos. Dependendo da contabilidade, será possível saber se há algo a comemorar.

 


 
 
 
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