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Banco Mundial
Dois retratos do mesmo Brasil
Selvageria no Leblon e estudo do
Banco Mundial são dois instantâneos
de uma mesma realidade brasileira:
a leniência com a corrupção e a violência

Marcelo Carneiro
Fotos reprodução TV Globo
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| As imagens exibidas na televisão de
gangues espancando e roubando turistas no Rio de Janeiro mostram
quem são os verdadeiros excluídos, aqueles que
não podem nem mais ir à praia sem ser molestados
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Toda vez que a economia brasileira parece ingressar
na rota do crescimento, entram em campo dois times. O dos otimistas,
apostando que o país passou a reunir condições
para vôos mais altos. E o dos realistas, lembrando que a alta
carga tributária e a burocracia continuam sendo empecilhos
para um desenvolvimento sustentado. Não poderia ser diferente
em um momento em que todas as previsões para o desempenho
do produto interno bruto (PIB) estão sendo revistas para
cima e o país deve fechar o ano com crescimento superior
a 4%. Na semana passada, no entanto, os dois times tiveram suas
convicções abaladas por outra discussão, dolorosamente
concreta. Na terça-feira, foram ao ar no Jornal Nacional,
da Rede Globo, as imagens de jovens favelados espancando e roubando
turistas na Praia do Leblon, um dos principais cartões-postais
do Rio de Janeiro. No mesmo dia, o Banco Mundial apresentou, em
Washington, uma pesquisa mostrando que a criminalidade, o suborno
e o desrespeito às leis são fatores percebidos pelos
investidores como empecilhos ao progresso tão ou mais vitais
do que os solavancos macroeconômicos. Os impunes assaltantes
do Leblon são apenas parte de um retrato que mostra o Brasil
indefeso diante da violência e descumpridor de contratos.
Todos esses problemas têm impacto direto
no desempenho econômico do país. Entre os banhistas
atacados na Praia do Leblon, havia turistas uruguaios e ingleses,
gente que poupou seu dinheiro para gastá-lo no Brasil. Hoje,
a indústria hoteleira arrecada anualmente 2 bilhões
de dólares. Estudos apontam que, se fossem resolvidos problemas
de base como a criminalidade nos corredores turísticos e
a baixa qualificação dos trabalhadores do setor, o
número poderia subir para 3,5 bilhões de dólares.
Resolver essa questão é um trabalho complexo, mas
diante de outros desafios como reconstruir a infra-estrutura
do país ou remodelar o sistema de ensino é
uma tarefa exeqüível. Reveses como a alta do preço
do petróleo no mercado internacional são questões
para as quais o país tem de estar preparado, mas não
pode evitar. Atacar a criminalidade depende apenas de um esforço
interno.
As quase 300 páginas do estudo do Banco
Mundial intitulado Um Melhor Clima de Investimento para Todos
trazem o diagnóstico dos principais problemas enfrentados
pelos investidores em 53 países em desenvolvimento. Foram
ouvidas 30.000 empresas, sendo 1.642
no Brasil. A conclusão é que o país,
mesmo com os avanços no âmbito da macroeconomia a partir
da estabilidade conseguida com o Plano Real, ainda tem muito que
melhorar para tornar-se um porto seguro para os investidores. "A
macroeconomia é fundamental, mas não é suficiente.
A segurança em relação ao direito de propriedade
é essencial para incentivar investimentos e criar empregos",
disse a VEJA Warrick Smith, diretor do Banco Mundial responsável
pelo documento.
A questão é como desatar tantos
nós. Há quem continue acreditando que só é
possível enfrentar problemas como a violência urbana,
por exemplo, depois de acabar com a pobreza no país. Felizmente,
hoje essa é uma teoria de poucos adeptos. Não é
difícil entender que medidas de combate ao crime e à
corrupção contribuem para melhorar o clima para investimentos
e, conseqüentemente, reduzir a pobreza e a violência,
o que por sua vez melhora o ambiente para novos investidores, e
assim por diante. O economista Sérgio Besserman, da PUC-Rio,
resume com clareza esse ponto. "Quem acha que é preciso primeiro
cuidar do crescimento para, só então, atacar o crime
e a corrupção colabora com a perpetuação
desse ciclo", diz.
Resolver os problemas básicos não
dará ao país a fórmula mágica do crescimento.
Mas não há desenvolvimento sustentado da economia
sem a resolução de impasses estruturais. Os países
da América Latina, que há anos patinam entre ciclos
de expansão e retração, encabeçam a
lista das nações onde a criminalidade está
entre as maiores preocupações dos investidores. No
Brasil, o crime engole 11% do PIB, segundo o estudo do Banco Mundial.
Em outro problema apontado pela pesquisa, a corrupção,
51% das empresas ouvidas no Brasil admitiram que pagam suborno para
tocar seus negócios. A pesquisa não explora as causas
da corrupção. Mas elas são cristalinas. Nenhum
empresário sai da cama com o objetivo expresso de dar algum
dinheiro a um funcionário público. Ele faz isso por
necessidade de sobrevivência. Isso não faz dele uma
pessoa mais honesta, mas mostra que, junto com os 51% de empresas
que declararam dar propinas, está imerso em um ambiente de
negócios complicadamente hostil. Qualquer iniciativa que
simplifique a burocracia de criação e manutenção
da vida das empresas em suas relações com o mundo
oficial estará fazendo mais pelo combate à corrupção
do que as rumorosas prisões de acusados de malfeitorias.
O governo se orgulha de, desde o ano passado, ter mandado prender
413 corruptos em 36 operações da Polícia Federal.
É preciso esperar pelo menos mais um ano para contar quantos
deles ainda estarão presos. Dependendo da contabilidade,
será possível saber se há algo a comemorar.
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