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Edição 1972 . 6 de setembro de 2006

Índice
Millôr
Lya Luft
Diogo Mainardi
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Gente
Auto-retrato
Artigo: Reinaldo Azevedo
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Livros
Cosmética intelectual

Um livro mostra a estranha história
da busca pela beleza física


Jerônimo Teixeira

Beleza é sacrifício. Entre outras curiosidades, História da Beleza (tradução de Léo Schlafman; Ediouro; 248 páginas; 44,90 reais) oferece um verdadeiro catálogo de torturas que mulheres de todas as épocas infligiram a si mesmas para atingir os padrões de aparência vigentes: sangrias, maquiagem à base de metais tóxicos, banhos frios, massagens com choque elétrico. O impassível Georges Vigarello, historiador francês da Universidade Paris 5, descreve esses suplícios sem nenhum compadecimento ou deleite sádico. O leitor brasileiro, porém, não precisa respeitar a compostura acadêmica francesa: aconselha-se que o livro de Vigarello seja lido não pelas especulações sociofilosóficas sobre a insuficiência do vocabulário cotidiano para definir a beleza – mas sim por sua coletânea de esquisitices. Trata-se, no fundo, de um almanaque da ciência cosmética, do Renascimento aos dias de hoje.


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Trecho do livro

Uma ou outra referência à Itália ou à Inglaterra pipocam no livro, mas faltou uma restrição importante em seu título: o leitor está na verdade diante de uma História da Beleza na França. É bem provável, porém, que as tendências apontadas pelo autor sejam observáveis em todo o mundo ocidental: os padrões de beleza correram no sentido do desnudamento, da leveza. Na Renascença, ensina Vigarello, ainda vigorava uma concepção de beleza idealizada que só dava importância ao "elevado" – o busto e principalmente o rosto. Sob a escuridão dos vestidos, as pernas e os quadris nada mais eram do que um pedestal estático para o torso e a cabeça. Desde então, a moda e a cosmética progrediram no sentido de libertar e valorizar o corpo.

E também de emagrecê-lo. Um manual de beleza do século XVI recomendava que as jovens fossem açoitadas e se introduzisse pó de giz nas feridas, o que supostamente deixaria o corpo desidratado e esbelto (até onde se sabe, o método não foi popular). Mas essa é uma exceção: a magreza só se estabeleceu efetivamente como padrão de beleza na virada do século XIX para o XX – pela mesma época em que as mulheres se libertavam do sufocante espartilho e as roupas começavam a exibir as verdadeiras formas do corpo.

Todo esse argumento se ampara em um acúmulo maníaco de citações – de poetas como Ronsard e Baudelaire a revistas de moda como Elle e Vogue. Apesar da abundância de fontes, a história propriamente dita às vezes aparece só como ruído de fundo. É como se a moda e a beleza se movessem no limbo, isoladas de catástrofes e convulsões. No capítulo sobre o século XVIII, por exemplo, quase não se fala em Revolução Francesa. Com sua prosa incolor e suas interpretações ligeiras, Vigarello – autor de outros livros de história miúda, como O Limpo e o Sujo – não tem grandes idéias a oferecer. Mas é muito bom na coleção de casos e curiosidades.

 

PERFEIÇÃO ETERNA

Gisele Bündchen seria bela em qualquer época – mas os padrões do passado esconderiam alguns de seus melhores atributos

SÉCULO XXI
Georges Vigarello diz que a beleza se democratizou no mundo contemporâneo, fixando a ilusão de que qualquer um pode ser belo. Na realidade, Gisele Bündchen é o padrão de beleza

SÉCULO XIX
Ainda discretos, os vestidos já insinuariam algumas das magníficas curvas da modelo. No fim do século, a magreza começa a se impor como padrão de beleza ­ mas isso, claro, não seria problema para Gisele

SÉCULO XVIII
A única beleza visível seriam o rosto e parte do busto – oprimido pelo espartilho. Gisele poderia engordar à vontade: barriga, quadris e pernas ficavam ocultas sob os vestidos armados, como o pintado por Boucher

 
 
 
 
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