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Música
Trilha sonora para tiranias
Como os compositores eruditos conviveram com os regimes autoritários
do século XX  Sérgio
Martins No dia 21 de novembro de 1937, o
compositor russo Dmitri Shostakovich (1906-1975) apresentou sua Quinta Sinfonia
ao público de Leningrado, atual São Petersburgo. As dissonâncias
e o ritmo caótico da obra causaram a princípio um estranhamento.
Perto do final, a mudança para um andamento de marcha militar conquistou
a platéia. Os integrantes do Partido Comunista ouviram a música
da seguinte forma: ela mostrava o progresso da Rússia, do caos czarista
à glória e à ordem trazidas pela revolução
de 1917. Atualmente, contudo, especialistas lançam outras interpretações.
"O que a obra sugeria é que a ditadura de Stalin também era cruel
e castigaria os russos", explica Valery Gergiev, maestro e autoridade na obra
do compositor soviético. Às vésperas do centenário
do nascimento de Shostakovich, no dia 25, a polêmica sobre sua relação
com o stalinismo ele foi um colaborador ou um diss idente? é
a que mais ecoa. A discussão se alarga ao incluir outros criadores que
viveram sob regimes autoritários. Mais do que outras artes, a música,
sobretudo em sua forma instrumental, acomoda facilmente interpretações
opostas. Mas as grandes ditaduras do século XX e esse é um
de seus traços mais peculiares quase sempre professaram ideais estéticos
possíveis de rastrear (ou não) em óperas e sinfonias. Sem
falar, é claro, nas declarações deixadas pelos próprios
artistas sobre suas simpatias políticas.
Os regimes autoritários que se dedicaram a deitar normas para a criação
musical se mostraram sempre inimigos do modernismo. Valores como a dissonância
eram execrados como produto de sociedades decadentes. O stalinismo preferia os
temas folclóricos russos, e o nazismo substituiu a inovação
por obras que resgatassem o "espírito" alemão obras baseadas
em mitos germânicos ancestrais, como Carmina Burana, de Carl Orff.
O fascismo não tinha um ideário artístico tão claro.
Violinista e cantor diletante, o ditador Benito Mussolini usava a música
de forma populista, como mais um instrumento para conquistar as massas. "Ele fazia
as orquestras italianas tocar nas cidades do interior porque defendia que a música
tinha de ser levada ao país inteiro", diz o estudioso de ópera Sergio
Casoy. Toda ditadura, claro, sempre
contou com adesistas. Bajulados pelo regime fascista, os italianos Pietro Mascagni
e Alfredo Casella compuseram óperas inspiradas nas campanhas militares
do Duce. No Brasil, a ditadura de Getúlio Vargas contratou o compositor
Villa-Lobos para que ele implantasse um método de educação
musical nas escolas e o músico exaltou o nacionalismo da era Vargas
em obras como O Canto do Pajé e Uirapuru. O ponto alto da
dedicação de Villa-Lobos ocorreu em um concerto no estádio
do Vasco da Gama, em 1941. Às vésperas da récita, que teria
o presidente como convidado de honra, Villa-Lobos foi dizer ao ministro da Educação,
Gustavo Capanema, que as dores de uma hérnia o impediam de reger. "Se você
tiver de morrer, pelo menos morra heroicamente no campo de batalha", retrucou
o ministro. Villa-Lobos, claro, regeu o concerto.
Os alemães Carl Orff e Richard Strauss eram soldados bem mais dedicados
do regime. Admirador de Richard Wagner (um notório anti-semita), Hitler
na verdade entendia pouco de música gostava de ópera por
sua teatralidade. Mesmo assim, admirava a exaltação germânica
de Orff que foi até incumbido de reescrever a música da peça
Sonho de uma Noite de Verão, do judeu Felix Mendelssohn (tarefa
nunca concluída). Strauss foi o compositor do hino das Olimpíadas
de 1936, em Berlim mas, após a derrota da Alemanha na II Guerra,
ofereceu seus dotes musicais aos aliados. Há quem avente uma desculpa para
a adesão de Strauss ao nazismo: teria sido uma tentativa de salvar sua
nora, que era judia. Os casos mais
conflituosos e ambíguos se deram sob o stalinismo. O regime também
contou com adeptos ferrenhos, como Aram Khachaturian. Shostakovich, como já
se viu, é um caso dúbio. Foi criticado por Stalin quando apresentou
a ópera de vanguarda Lady Macbeth de Mtsensk, em 1936. Como bom
comunista, aceitou as críticas e dedicou-se a obras de tom oficial
nas quais, porém, às vezes semeava suas dissonâncias. Compôs
até a trilha de A Queda de Berlim, filme de guerra propagandístico
em que Stalin era retratado como herói. Sempre que o ditador aparecia em
cena, o fundo musical era meloso, sem grandes inovações. Sergei
Prokofiev, de outro lado, não conheceu as boas graças do regime.
Foi perseguido porque passou anos fora do país e voltou "contaminado" pela
dissonância. A boa música consegue sobreviver mesmo em contextos
repressivos mas os músicos, se não forem canalhas, vivem
melhor na democracia.
Música & poder Os
compositores e suas homenagens às ditaduras Fascismo
Principais colaboradores Pietro Mascagni (1863-1945)
e Ottorino Respighi (1879-1936) O que compuseram Mais conhecido
pela ópera La Cavalleria Rusticana, Mascagni era simpático
ao ditador Benito Mussolini. Foi eleito o compositor oficial do regime e compôs
a ópera Nerone, em homenagem ao ditador. Respighi foi autor de A
Trilogia Romana, uma das obras prediletas de Mussolini, mas se esquivou de
apoiar o ditador em público Nazismo
Principais colaboradores Richard Strauss
(1864-1949) e Carl Orff (1895-1982) O que compuseram Strauss compôs
e regeu o hino das Olimpíadas de Berlim (1936) e colocou frases anti-semitas
no libreto de suas óperas. Orff ganhou simpatia do regime nazista com a
obra Carmina Burana, que tinha como influências a poesia medieval
alemã e mitos greco-romanos. Ele também foi convidado a reescrever
a música da ópera Sonho de uma Noite de Verão, cujo
autor, Mendelssohn, era judeu
Stalinismo
Principais colaboradores Dmitri Shostakovich
(1906-1975) e Aram Khachaturian (1903-1978) O que compuseram
Shostakovich tinha relações dúbias com o regime comunista.
Ele compôs obras como a 11ª Sinfonia, em que condenou o massacre
de civis pelo czar russo. Em compensação, a ópera Lady
Macbeth de Mtsensk desagradou a Stalin. Khachaturian era stalinista ferrenho.
Sua obra mais conhecida, o balé Gayane, se passa numa fazenda e
tem como tema a vida no campo. É cheio de temas folclóricos, bem
ao gosto de Stalin como por exemplo, a Dança dos Sabres  |  | | Dmitri
Shostakovich (à esq.) e o ditador Josef Stalin: interpretações
conflitantes da vida e da obra do compositor |
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