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Cinema O
superdesempregado Depois de 2,5 bilhões
de dólares em renda, a Paramount dispensa Cruise. Está certíssimo
 Isabela
Boscov
O POMO DA DISCÓRDIA Divulgação
 | | Cruise
em Missão III: "conduta inaceitável" |
Missão:
Impossível III Quanto dinheiro entrou: 395 milhões
em bilheteria mundial Quanto saiu: 220 milhões entre custos de
produção, marketing e distribuição Quanto
sobrou: 173 milhões Quanto disso vai para Cruise: cerca
de 80 milhões Quanto vai sobrar para o estúdio: depois
de pagar a fatia dos exibidores e os impostos, quase nada |
| Depois de catorze anos de um
contrato invejadíssimo, que rendeu dez filmes e um faturamento de 2,5 bilhões
de dólares, há duas semanas a Paramount demitiu Tom Cruise. A pergunta
inicial foi previsível: teria Sumner Redstone, chefe da companhia-mãe
da Paramount, a Viacom, enlouquecido? A resposta, porém, não tem
nada de óbvio: Redstone está absolutamente certo. Quanto mais os
matemáticos e estatísticos que observam a indústria do entretenimento
fazem suas contas, mais elas apontam para a mesma e surpreendente direção
os astros deixaram de ser garantia de bilheteria. E, como mordem cada vez
mais do eventual lucro de seus filmes, podem até prejudicar os negócios.
Missão: Impossível III, estopim do cisma entre Cruise e a
Paramount, é um exemplo ilustrativo. Devorou 220 milhões de dólares
entre produção e comercialização, além de uma
quantia ignorada em "desenvolvimento" termo amigável para os custos
com os roteiros rejeitados e diretores defenestrados. Deveria ter atingido 200
milhões na bilheteria americana para que o estúdio pudesse guardar
o lápis vermelho mas fez apenas (sim, apenas) 133 milhões,
dos quais uma parcela vai para o bolso dos exibidores. Não obstante essas
dificuldades, Cruise embolsa entre 20% e 30% da renda bruta (sim, bruta) do filme,
valor que deve ficar ao norte dos 80 milhões.
Tanta decepção poderia até ter sido perdoada, não
fossem as dores de cabeça que Cruise andou dando à Paramount. O
estúdio que banca uma superprodução necessita que os astros
se empenhem em promovê-la. No ano passado, durante a campanha de Guerra
dos Mundos, Cruise usou o tempo que não era dele para divulgar a cientologia
e sua paixão pela insípida Katie Holmes (hoje mais conhecida como
"a mãe de Suri", filha recém-nascida do casal). Guerra, que
tinha a grife Steven Spielberg, fez ótima renda, mas o estúdio resolveu
tomar Missão III como o fiel da balança. Seguiu-se a demissão
enfática, com menções à "conduta inaceitável"
do ator, sem dar margem àquela mentirinha do "novo desafio profissional"
que se distribui aos ex-colegas em e-mail.
Cruise, que gosta de ter a última palavra, fez o que pôde para virar
a notícia de ponta-cabeça. Ele e sua sócia, a produtora Paula
Wagner, disseram que essa independência era um "sonho" e anunciaram já
ter um novo financiador. Mas, aos olhos de uma indústria regida pela percepção,
é Cruise o derrotado. A expectativa agora é sobre como esse terremoto
vai abalar outras carreiras. Nos últimos dias, a imprensa americana foi
inundada de artigos sobre a real rentabilidade dos ícones de Hollywood.
Um matemático, entrevistado pelo The New York Times, concluiu que
um astro acrescenta não mais do que pífios 3 milhões de dólares
à bilheteria de um filme. Essa matemática não é do
tipo exato, e sim especulativo não há, por exemplo, como
saber que renda teria Missão III caso ostentasse um nome menos conhecido.
Mas o raciocínio por trás dos cálculos não está
errado. Como ocorre com as palhas de aço, os refrigerantes e os cremes
anti-rugas, um filme tem mais chance de ser preferido aos produtos concorrentes
quando traz estampada uma marca forte. Tom Cruise, Tom Hanks e Julia Roberts são
marcas fortíssimas mas Harry Potter, O Senhor dos Anéis
e Guerra nas Estrelas também o são, com a vantagem de não
requerer que se lide com astros cheios de vontades.
Há muito os economistas perceberam que a escalada desenfreada de uma tendência
como a dos salários astronômicos de Hollywood quase
sempre é sinal de sua culminação e esgotamento. À
luz da história, então, pode ser que a redução de
cachês já estivesse se configurando como inevitável. Ao escolher
Tom Cruise como vítima exemplar, porém, o intrépido Redstone,
de 83 anos vividos com proveito, deu um belo empurrão na história
e mandou um recado cristalino para a categoria dos astros.
Eles valem quanto ganham? (Valores
em dólares) Investimentos
seguros
TOM
HANKS Salário: 25 milhões
Rendas: 219 milhões em O Terminal; 753 milhões
em O Código Da Vinci Custo-benefício: um astro
cujas bilheterias "mornas" superam os 200 milhões é a própria
definição de um investimento sólido. Ninguém tem uma
folha corrida melhor em Hollywood
WILL
SMITH Salário: 25 milhões
Rendas: 273 milhões por Bad Boys II; 368 milhões
por Hitch Conselheiro Amoroso Custo-benefício:
críticas mornas não atrapalham o desempenho na bilheteria de Smith,
que, juntamente com Denzel Washington, é o único astro negro que
atrai todo tipo de público
JODIE
FOSTER Salário: 13 milhões
Rendas: 196 milhões por O Quarto do Pânico;
223 milhões por Plano de Vôo Custo-benefício:
mais até do que Julia Roberts (que ganha bem mais), Jodie é hoje
a única estrela feminina capaz de garantir retornos regulares. E seu profissionalismo
é um alívio para quem trabalha com ela Apostas
arriscadas
JIM
CARREY Salário: 25 milhões
Rendas: 484 milhões em Todo Poderoso; 37 milhões
em Cine Majestic Custo-benefício: quando explora seu
talento para a comédia, Carrey vale seu peso em ouro. Em suas incursões
dramáticas, obtém bons resultados artísticos mas os
financeiros são um fiasco
HARRISON
FORD Salário: 15 milhões Rendas:
51 milhões em Divisão de Homicídios; 291 milhões
em Revelação Custo-benefício: aliado a
uma estrela como Michelle Pfeiffer, como em Revelação, o
ex-astro dá bilheterias razoáveis. Sozinho, não consegue
mais segurar um filme
CAMERON
DIAZ Salário: 15 milhões
Rendas: 69 milhões por Tudo para Ficar com Ele; 83
milhões por Em Seu Lugar Custo-benefício: juntos,
os dois filmes da série As Panteras renderam mais de 500 milhões.
Mas Cameron sofre do mesmo problema que Harrison Ford sozinha, não
chega a lugar nenhum Fotos de Pascal Le
Segretain, Frank Micelotta, Junko Kimura, Piyal Hosain, Stephane L'Hostis
e Sean Gallup/Getty Images | | |