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Edição 1972 . 6 de setembro de 2006

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Cinema
O superdesempregado

Depois de 2,5 bilhões de dólares
em renda, a Paramount dispensa
Cruise. Está certíssimo


Isabela Boscov

 

O POMO DA DISCÓRDIA

Divulgação
Cruise em Missão III: "conduta inaceitável"

Missão: Impossível III
Quanto dinheiro entrou: 395 milhões em bilheteria mundial
Quanto saiu: 220 milhões entre custos de produção, marketing e distribuição
Quanto sobrou: 173 milhões
Quanto disso vai para Cruise: cerca de 80 milhões
Quanto vai sobrar para o estúdio: depois de pagar a fatia dos exibidores e os impostos, quase nada

Depois de catorze anos de um contrato invejadíssimo, que rendeu dez filmes e um faturamento de 2,5 bilhões de dólares, há duas semanas a Paramount demitiu Tom Cruise. A pergunta inicial foi previsível: teria Sumner Redstone, chefe da companhia-mãe da Paramount, a Viacom, enlouquecido? A resposta, porém, não tem nada de óbvio: Redstone está absolutamente certo. Quanto mais os matemáticos e estatísticos que observam a indústria do entretenimento fazem suas contas, mais elas apontam para a mesma e surpreendente direção – os astros deixaram de ser garantia de bilheteria. E, como mordem cada vez mais do eventual lucro de seus filmes, podem até prejudicar os negócios. Missão: Impossível III, estopim do cisma entre Cruise e a Paramount, é um exemplo ilustrativo. Devorou 220 milhões de dólares entre produção e comercialização, além de uma quantia ignorada em "desenvolvimento" – termo amigável para os custos com os roteiros rejeitados e diretores defenestrados. Deveria ter atingido 200 milhões na bilheteria americana para que o estúdio pudesse guardar o lápis vermelho – mas fez apenas (sim, apenas) 133 milhões, dos quais uma parcela vai para o bolso dos exibidores. Não obstante essas dificuldades, Cruise embolsa entre 20% e 30% da renda bruta (sim, bruta) do filme, valor que deve ficar ao norte dos 80 milhões.

Tanta decepção poderia até ter sido perdoada, não fossem as dores de cabeça que Cruise andou dando à Paramount. O estúdio que banca uma superprodução necessita que os astros se empenhem em promovê-la. No ano passado, durante a campanha de Guerra dos Mundos, Cruise usou o tempo que não era dele para divulgar a cientologia e sua paixão pela insípida Katie Holmes (hoje mais conhecida como "a mãe de Suri", filha recém-nascida do casal). Guerra, que tinha a grife Steven Spielberg, fez ótima renda, mas o estúdio resolveu tomar Missão III como o fiel da balança. Seguiu-se a demissão enfática, com menções à "conduta inaceitável" do ator, sem dar margem àquela mentirinha do "novo desafio profissional" que se distribui aos ex-colegas em e-mail.

Cruise, que gosta de ter a última palavra, fez o que pôde para virar a notícia de ponta-cabeça. Ele e sua sócia, a produtora Paula Wagner, disseram que essa independência era um "sonho" e anunciaram já ter um novo financiador. Mas, aos olhos de uma indústria regida pela percepção, é Cruise o derrotado. A expectativa agora é sobre como esse terremoto vai abalar outras carreiras. Nos últimos dias, a imprensa americana foi inundada de artigos sobre a real rentabilidade dos ícones de Hollywood. Um matemático, entrevistado pelo The New York Times, concluiu que um astro acrescenta não mais do que pífios 3 milhões de dólares à bilheteria de um filme. Essa matemática não é do tipo exato, e sim especulativo – não há, por exemplo, como saber que renda teria Missão III caso ostentasse um nome menos conhecido. Mas o raciocínio por trás dos cálculos não está errado. Como ocorre com as palhas de aço, os refrigerantes e os cremes anti-rugas, um filme tem mais chance de ser preferido aos produtos concorrentes quando traz estampada uma marca forte. Tom Cruise, Tom Hanks e Julia Roberts são marcas fortíssimas – mas Harry Potter, O Senhor dos Anéis e Guerra nas Estrelas também o são, com a vantagem de não requerer que se lide com astros cheios de vontades.

Há muito os economistas perceberam que a escalada desenfreada de uma tendência – como a dos salários astronômicos de Hollywood – quase sempre é sinal de sua culminação e esgotamento. À luz da história, então, pode ser que a redução de cachês já estivesse se configurando como inevitável. Ao escolher Tom Cruise como vítima exemplar, porém, o intrépido Redstone, de 83 anos vividos com proveito, deu um belo empurrão na história – e mandou um recado cristalino para a categoria dos astros.

 

Eles valem quanto ganham?
(Valores em dólares)

Investimentos seguros

TOM HANKS
Salário: 25 milhões
Rendas: 219 milhões em O Terminal;
753 milhões em O Código Da Vinci
Custo-benefício: um astro cujas bilheterias "mornas" superam os 200 milhões é a própria definição de um investimento sólido. Ninguém tem uma folha corrida melhor em Hollywood


WILL SMITH
Salário: 25 milhões
Rendas: 273 milhões por Bad Boys II;
368 milhões por Hitch – Conselheiro Amoroso
Custo-benefício: críticas mornas não atrapalham o desempenho na bilheteria de Smith, que, juntamente com Denzel Washington, é o único astro negro que atrai todo tipo de público


JODIE FOSTER
Salário: 13 milhões
Rendas: 196 milhões por O Quarto do Pânico;
223 milhões por Plano de Vôo
Custo-benefício: mais até do que Julia Roberts (que ganha bem mais), Jodie é hoje a única estrela feminina capaz de garantir retornos regulares. E seu profissionalismo é um alívio para quem trabalha com ela

 

Apostas arriscadas

JIM CARREY
Salário: 25 milhões
Rendas: 484 milhões em Todo Poderoso;
37 milhões em Cine Majestic
Custo-benefício: quando explora seu talento para a comédia, Carrey vale seu peso em ouro. Em suas incursões dramáticas, obtém bons resultados artísticos – mas os financeiros são um fiasco


HARRISON FORD
Salário: 15 milhões
Rendas: 51 milhões em Divisão de Homicídios;
291 milhões em Revelação
Custo-benefício: aliado a uma estrela como Michelle Pfeiffer, como em Revelação, o ex-astro dá bilheterias razoáveis. Sozinho, não consegue mais segurar um filme


CAMERON DIAZ
Salário: 15 milhões
Rendas: 69 milhões por Tudo para Ficar com Ele;
83 milhões por Em Seu Lugar
Custo-benefício: juntos, os dois filmes da série As Panteras renderam mais de 500 milhões. Mas Cameron sofre do mesmo problema que Harrison Ford – sozinha, não chega a lugar nenhum

Fotos de Pascal Le Segretain, Frank Micelotta, Junko Kimura,
Piyal Hosain, Stephane L'Hostis e Sean Gallup/Getty Images

 
 
 
 
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