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Edição 1972 . 6 de setembro de 2006

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Millôr
Lya Luft
Diogo Mainardi
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
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Contexto
Datas
Gente
Auto-retrato
Artigo: Reinaldo Azevedo
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Tecnologia
Banda de um homem só

Softwares permitem compor e gravar
músicas no computador mesmo que
não se saiba tocar um instrumento


Gabriela Carelli

 

Everton Ballardin
PASSATEMPO SONORO
O engenheiro paulista Adriano Mendes, de 34 anos, não participou de bandas de garagem e aprendeu a tocar guitarra depois de adulto. "Já estreei na carreira-solo", brinca. Ele é o exemplo do homem-banda. Freqüenta uma escola para aprender a mexer com os softwares e gravar suas próprias composições com os sons de vários instrumentos

Desde que os Beatles conquistaram o mundo, nos anos 60, montar uma banda de garagem com os amigos se tornou uma das diversões favoritas dos jovens. Esses grupos, mesmo os que não tencionam se tornar profissionais, costumam ter um sonho em comum: gravar um disco. Antigamente, poucos conseguiam, já que alugar um estúdio custa um dinheirão. Hoje, com um computador, uma placa de som e um software especializado qualquer músico diletante faz uma gravação de qualidade. Até mesmo a banda é dispensável: os softwares se encarregam de fornecer o som dos instrumentos. Também não é necessário entender de música – a tecnologia dá conta de tudo. Os apreciadores de música eletrônica, por exemplo, podem fazer colagens com os trechos pré-gravados de música contidos nos programas. Um guitarrista iniciante pode ligar o instrumento no computador, arranhar algumas notas, gravá-las e acrescentar baixo, bateria e órgão virtuais no estilo que desejar – do heavy metal ao blues. Atualmente, com 5.000 reais, computador incluído, pode-se montar um bom estúdio em casa. Para muitos jovens – e também para muitos quarentões saudosos do rock que produziam na juventude – a banda de garagem se tornou a banda de um homem só.

A multiplicação dos homens-banda pode ser medida pelo crescimento dos sites especializados em arquivar gravações caseiras e disponibilizá-las para quem quiser ouvir. O ACIDPlanet.com, usado principalmente por quem tem o software de música Acid, já tem 100.000 pessoas com músicas cadastradas. O site brasileiro Trama Virtual conta com 30.000 inscritos, entre artistas solitários e bandas de fundo de quintal. O site MySpace tem meio milhão de cadastros só no gênero rock em seu catálogo. As escolas de música também já identificaram o fenômeno dos homens-banda. "A maioria delas teve de remontar a grade curricular para incluir cursos de música virtual, ensinando alunos que não entendem nada de informática a fazer sua música no computador", diz o professor paulista Tomi Terahata, da Escola de Música e Tecnologia.

Para gravar músicas em casa, o primeiro passo é escolher uma placa de som. A maioria dos computadores tem uma delas embutida na placa-mãe, mas sua qualidade não é das melhores. As placas externas, ligadas ao computador por cabos USB ou FireWire, são mais indicadas porque podem ser transportadas para qualquer lugar e conectadas a outro computador ou notebook. O próximo passo é escolher um software, o coração de toda gravação digital. Os softwares atuais funcionam como gravadores e mesas de som, fazem arranjos e até imprimem partituras. Todos vêm com trechos pré-gravados de música dos mais variados instrumentos e estilos, os chamados loops. Usando os loops, quem toca só um instrumento pode gravá-lo e acrescentar vários outros. Depois, é só mixar as faixas, escolhendo o volume de cada instrumento.

 
Lailson Santos
AMIGOS NA PLATÉIA
O publicitário Marco Aurélio de Brito Vieira, de 26 anos, aprendeu bateria e guitarra quando era adolescente. Tinha uma banda, mas precisou abandoná-la depois de entrar na faculdade e arrumar um estágio. Há quatro meses, instalou um software e aprendeu a mexer no programa sozinho. "Não pretendo ficar famoso, mas coloquei minhas músicas próprias no MySpace para mostrar aos amigos", diz

Uma alternativa para imprimir mais recursos à gravação é usar os plug-ins, acessórios que alteram o som dos instrumentos. Eles são capazes, por exemplo, de modificar o timbre de guitarras ou dar ao som do baixo uma atmosfera mais para o funk ou mais para o jazz. Quem quiser ir além nos recursos tecnológicos pode comprar um controlador MIDI. Esses aparelhos, que têm formatos variados, são instrumentos que não geram sons, apenas repassam informações de notas para o computador. O software se encarrega de transformar as notas emitidas pelo controlador no instrumento digital que o músico quiser. É possível, por exemplo, usar um MIDI em formato de teclado para enviar notas que serão transformadas em uma linha de guitarra. Ou usar uma guitarra MIDI para emitir notas que vão se tornar um solo de bateria. É uma forma de criar seu próprio loop, sem ter de recorrer aos trechos pré-gravados.

Existe mais de uma dezena de softwares para gravação doméstica no mercado. Acid, Live e Reason são os favoritos dos DJs. GarageBand, Pro Tools e Sonar são preferidos por quem sabe tocar um instrumento de verdade. O engenheiro mecânico paulista Adriano Mendes, de 34 anos, que usa o Sonar, aprendeu a tocar guitarra já adulto e nunca teve uma banda. "Passei da idade de tocar em conjuntinho e tive de estrear já na carreira-solo", ele brinca. Com vida profissional atribulada, Adriano passa cerca de duas horas por dia brincando de música no computador. "Gravo todas as idéias musicais que tenho e vou armazenando-as num CD. Aproveito as horas perdidas no trânsito para ouvi-las e aprimorar as composições", diz ele. Os softwares musicais, evidentemente, não substituem o talento, mas garantem boa diversão – tanto para quem é fã do Franz Ferdinand quanto para quem tem saudade dos Beatles.

 

SUCESSO FEITO EM CASA

Divulgação
BR6: CD doméstico do grupo carioca já foi lançado até no exterior

As gravações caseiras são território de amadores, mas também podem servir como plataforma para a fama. Foi o que aconteceu com o sexteto vocal carioca BR6. O grupo, especializado em música popular brasileira a capela – sem acompanhamento de instrumentos –, faz barulho há dois anos no mercado internacional com um CD produzido em casa. Tudo começou em 2001, quando o matemático Cylan Delgado, marido de uma das integrantes do BR6, Crismarie, resolveu fazer um curso de música digital para gravar as músicas do grupo. Na época, o sonho de produzir um CD num estúdio profissional era inviável: custaria 80 000 dólares. Depois de um ano de estudo, Cylan, que já tinha um PC e uma pequena mesa de som, comprou uma placa de áudio de 500 dólares e instalou o software Sonar. No caso da gravação de música a capela, os softwares musicais servem para mixar as vozes – ou seja, determinar o volume de cada uma delas – e corrigir imperfeições na emissão dos cantores. Em 2004, seu primeiro CD como produtor – Música Popular Brasileira a Capella – caiu nas graças da gravadora Biscoito Fino, a mesma de Chico Buarque e Maria Bethânia, que resolveu lançá-lo. O disco valeu ao sexteto uma recomendação ao Grammy por parte de um grupo de produtores americanos e hoje pode ser encontrado em lojas dos Estados Unidos, do Japão e da Argentina. Recentemente, Delgado fechou um contrato com uma gravadora americana para produzir um álbum em inglês. A produção, ele garante, será feita do mesmo jeito: em sua casa. Exigência do grupo.

 

 

 
 
 
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