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Medicina
Para conter a
tempestade cerebral
Realizadas no Brasil cirurgias que
controlam a epilepsia por meio do
implante de eletrodos na cabeça

Giuliana Bergamo
O cérebro humano é composto de
100 bilhões de células nervosas, os neurônios.
Por meio de sinais elétricos, cada uma se liga a milhares
de outras em mais de 100 trilhões de conexões. São
essas conexões que comandam o funcionamento do organismo
dos movimentos às emoções, da memória
às sensações. O nosso próprio "eu",
enfim, depende delas. Existe, porém, uma condição
capaz de pôr fim a esse equilíbrio: a epilepsia. Nas
suas manifestações, um grupo de neurônios registra
uma atividade elétrica bem mais intensa, levando a que ocorra
uma espécie de curto-circuito e ao comprometimento da atividade
cerebral. É o que o escritor russo Fiodor Dostoievski, ele
mesmo epilético, definiu como "tempestade cerebral". Nas
crises, o doente, em geral, perde a consciência, debate-se,
revira os olhos e pode morder a própria língua. O
impacto emocional desses episódios é devastador para
as vítimas e familiares e o distúrbio continua a estigmatizar
da mesma forma que na Antiguidade, quando os doentes faziam de tudo
para escondê-lo, por medo de parecer possuídos por
demônios ou algo que o valha entre eles, o tirano romano
Júlio César. Com o advento da medicina moderna, no
século XX, avanços notáveis foram alcançados
no sentido de entender a epilepsia, mas ainda é impossível
falar em cura para boa parte dos pacientes. O que existem são
formas de conter as crises. A mais recente é a cirurgia para
o implante profundo de eletrodos. Os resultados das duas primeiras
intervenções desse tipo realizadas no Brasil acabam
de ser divulgados. Coordenadas pelo neurocirurgião Arthur
Cukiert e realizadas no fim de julho e início de agosto,
no Hospital Brigadeiro, em São Paulo, as cirurgias foram
até agora um sucesso. Desde a alta, nenhum dos pacientes
(uma mulher de 30 anos e um garoto de 16) relatou novas crises.
A cirurgia, desenvolvida no México,
consiste no implante de dois eletrodos no tálamo, estrutura
localizada no centro do cérebro que se comunica com todas
as outras regiões do órgão (veja
o quadro). O aparelho emite choques que mantêm
o ritmo dos impulsos elétricos cerebrais. Com isso, a freqüência
das crises tende a diminuir de 50% a 90%. Por se tratar de um procedimento
novo, o implante profundo só é realizado quando todas
as outras opções de tratamento falham. "Como é
um procedimento com poucos riscos e bastante eficaz, esperamos que,
em breve, ele possa ser dominante", diz o médico Cukiert.
Há outros três tipos de operação para
o controle da epilepsia. Um deles também visa ao equilíbrio
da atividade elétrica cerebral, mas de forma indireta, com
o implante de eletrodos no nervo vago, localizado no pescoço
e responsável pela conexão entre o sistema nervoso
e o resto do corpo. As demais técnicas são extremamente
agressivas. Numa, os médicos desconectam os dois hemisférios
do cérebro. Na outra, removem a porção cerebral
que dá origem às convulsões.
A primeira opção
de tratamento permanece a medicamentosa. Em meados do século
XIX, um dos médicos da rainha Vitória, da Inglaterra,
descobriu por acaso que um tipo de sedativo, os brometos, controlava
as crises de epilepsia. Desde então, foi desenvolvida pelo
menos uma dezena de remédios que modulam a atividade elétrica
das células cerebrais. Lançados em meados da década
de 90, os mais modernos, como a oxcarbazepina e o topiramato, além
de agir mais especificamente sobre as células nervosas, sobrecarregam
menos o fígado. Suas reações adversas são,
desse modo, menos severas do que as causadas pelos remédios
mais antigos, que incluíam sedação e alteração
de humor, entre outras. O grande inconveniente dos antiepiléticos
modernos é o preço. Uma caixa com sessenta comprimidos
sai por cerca de 300 reais a mesma quantidade dos medicamentos
tradicionais custa 10 reais, em média. Cerca de 80% dos pacientes
conseguem controlar as crises com os remédios. O restante
tem de recorrer às cirurgias. No Brasil, existem 2,5 milhões
de doentes. Por incrível que pareça, muita gente ainda
associa a epilepsia a limitações intelectuais. Limitação
intelectual é fazer esse tipo de associação.
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OS ARTISTAS VÍTIMAS DO
MAL
MACHADO
DE ASSIS (1839-1908)
escritor brasileiro
Assim como a gagueira,
a epilepsia era motivo de vergonha para Machado. Ele
evitava até pronunciar o nome da doença
e referia-se às crises como "fenômenos
nervosos". Anotações pessoais revelam
que o escritor sofria crises semanais e intensas. Acredita-se
que o câncer na boca que o levou à morte
foi decorrente das lacerações causadas
durante os ataques.
Hulton Archives/
Getty Images
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LORD BYRON (1788-1824)
poeta inglês
As crises de Byron
começaram na adolescência, logo depois
que descobriu que a mulher que amava estava pensando
em se casar. Suspeita-se também que boa parte
das crises ocorria depois que Byron bebia, sobretudo
conhaque.
VINCENT
VAN GOGH (1853-1890)
pintor holandês
Em 1889, depois de
cortar a própria orelha, Van Gogh foi internado
no asilo para loucos de Saint-Rémy, na França.
O registro de entrada no sanatório supõe
que a causa de seu comportamento seja a epilepsia. A
seu irmão, Théo, o pintor descreveu suas
sensações durante as crises: "Nesses episódios
não sei o que fiz, disse ou queria. Antes deles,
fiquei inconsciente por três vezes, sem nenhuma
razão conhecida, e não me lembro do que
senti nesses períodos".
FIODOR
DOSTOIEVSKI (1821-1881)
escritor russo
Nos últimos
trinta anos de vida, Dostoievski foi acometido por cerca
de 400 crises de epilepsia. A doença serviu de
substrato para a criação de muitos de
seus personagens. Em O Idiota, o príncipe
Michkin descrevia as crises como prazerosas "Tudo
imergia numa calma suave, cheia de terna e harmoniosa
alegria e esperança". Em Os Irmãos
Karamazov, o personagem Smerdiákov, epilético,
assassina o pai, simulando uma crise. Depois do crime,
durante uma convulsão de verdade, ele se mata.
GUSTAVE
FLAUBERT (1821-1880)
escritor francês
As crises de Flaubert
começaram por volta dos 22 anos e o acompanharam
por quase quarenta anos, até a morte. Flaubert
usou o primeiro remédio para o tratamento da
doença, os brometos. Em uma carta a um amigo,
enquanto escrevia Madame Bovary, Flaubert reclamou
dos efeitos do medicamento: "Estou desperdiçando
muito papel, rasgando tanto! Cada sentença só
vem muito lentamente. Só consigo escrever três
páginas por semana".
"Minha vida mental
e minha consciência desapareciam, bem como todo
o sentimento de estar vivo. Estou certo de que sei o
que é morrer. Tenho sentido, em várias
ocasiões, uma sensação muito definida
de que minha alma está me deixando, como alguém
sente o sangue fluindo de uma ferida aberta."
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