'
 


    

 
Edição 1972 . 6 de setembro de 2006

Índice
Millôr
Lya Luft
Diogo Mainardi
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Gente
Auto-retrato
Artigo: Reinaldo Azevedo
Veja.com
Veja essa
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Medicina
Para conter a
tempestade cerebral

Realizadas no Brasil cirurgias que
controlam a epilepsia por meio do
implante de eletrodos na cabeça


Giuliana Bergamo

NESTA REPORTAGEM
Quadro: Como é a cirurgia

O cérebro humano é composto de 100 bilhões de células nervosas, os neurônios. Por meio de sinais elétricos, cada uma se liga a milhares de outras em mais de 100 trilhões de conexões. São essas conexões que comandam o funcionamento do organismo – dos movimentos às emoções, da memória às sensações. O nosso próprio "eu", enfim, depende delas. Existe, porém, uma condição capaz de pôr fim a esse equilíbrio: a epilepsia. Nas suas manifestações, um grupo de neurônios registra uma atividade elétrica bem mais intensa, levando a que ocorra uma espécie de curto-circuito e ao comprometimento da atividade cerebral. É o que o escritor russo Fiodor Dostoievski, ele mesmo epilético, definiu como "tempestade cerebral". Nas crises, o doente, em geral, perde a consciência, debate-se, revira os olhos e pode morder a própria língua. O impacto emocional desses episódios é devastador para as vítimas e familiares e o distúrbio continua a estigmatizar da mesma forma que na Antiguidade, quando os doentes faziam de tudo para escondê-lo, por medo de parecer possuídos por demônios ou algo que o valha – entre eles, o tirano romano Júlio César. Com o advento da medicina moderna, no século XX, avanços notáveis foram alcançados no sentido de entender a epilepsia, mas ainda é impossível falar em cura para boa parte dos pacientes. O que existem são formas de conter as crises. A mais recente é a cirurgia para o implante profundo de eletrodos. Os resultados das duas primeiras intervenções desse tipo realizadas no Brasil acabam de ser divulgados. Coordenadas pelo neurocirurgião Arthur Cukiert e realizadas no fim de julho e início de agosto, no Hospital Brigadeiro, em São Paulo, as cirurgias foram até agora um sucesso. Desde a alta, nenhum dos pacientes (uma mulher de 30 anos e um garoto de 16) relatou novas crises.

A cirurgia, desenvolvida no México, consiste no implante de dois eletrodos no tálamo, estrutura localizada no centro do cérebro que se comunica com todas as outras regiões do órgão (veja o quadro). O aparelho emite choques que mantêm o ritmo dos impulsos elétricos cerebrais. Com isso, a freqüência das crises tende a diminuir de 50% a 90%. Por se tratar de um procedimento novo, o implante profundo só é realizado quando todas as outras opções de tratamento falham. "Como é um procedimento com poucos riscos e bastante eficaz, esperamos que, em breve, ele possa ser dominante", diz o médico Cukiert. Há outros três tipos de operação para o controle da epilepsia. Um deles também visa ao equilíbrio da atividade elétrica cerebral, mas de forma indireta, com o implante de eletrodos no nervo vago, localizado no pescoço e responsável pela conexão entre o sistema nervoso e o resto do corpo. As demais técnicas são extremamente agressivas. Numa, os médicos desconectam os dois hemisférios do cérebro. Na outra, removem a porção cerebral que dá origem às convulsões.

A primeira opção de tratamento permanece a medicamentosa. Em meados do século XIX, um dos médicos da rainha Vitória, da Inglaterra, descobriu por acaso que um tipo de sedativo, os brometos, controlava as crises de epilepsia. Desde então, foi desenvolvida pelo menos uma dezena de remédios que modulam a atividade elétrica das células cerebrais. Lançados em meados da década de 90, os mais modernos, como a oxcarbazepina e o topiramato, além de agir mais especificamente sobre as células nervosas, sobrecarregam menos o fígado. Suas reações adversas são, desse modo, menos severas do que as causadas pelos remédios mais antigos, que incluíam sedação e alteração de humor, entre outras. O grande inconveniente dos antiepiléticos modernos é o preço. Uma caixa com sessenta comprimidos sai por cerca de 300 reais – a mesma quantidade dos medicamentos tradicionais custa 10 reais, em média. Cerca de 80% dos pacientes conseguem controlar as crises com os remédios. O restante tem de recorrer às cirurgias. No Brasil, existem 2,5 milhões de doentes. Por incrível que pareça, muita gente ainda associa a epilepsia a limitações intelectuais. Limitação intelectual é fazer esse tipo de associação.

 

OS ARTISTAS VÍTIMAS DO MAL

MACHADO DE ASSIS (1839-1908)
escritor brasileiro

Assim como a gagueira, a epilepsia era motivo de vergonha para Machado. Ele evitava até pronunciar o nome da doença e referia-se às crises como "fenômenos nervosos". Anotações pessoais revelam que o escritor sofria crises semanais e intensas. Acredita-se que o câncer na boca que o levou à morte foi decorrente das lacerações causadas durante os ataques.


Hulton Archives/
Getty Images


LORD BYRON (1788-1824)
poeta inglês

As crises de Byron começaram na adolescência, logo depois que descobriu que a mulher que amava estava pensando em se casar. Suspeita-se também que boa parte das crises ocorria depois que Byron bebia, sobretudo conhaque.

 

VINCENT VAN GOGH (1853-1890)
pintor holandês

Em 1889, depois de cortar a própria orelha, Van Gogh foi internado no asilo para loucos de Saint-Rémy, na França. O registro de entrada no sanatório supõe que a causa de seu comportamento seja a epilepsia. A seu irmão, Théo, o pintor descreveu suas sensações durante as crises: "Nesses episódios não sei o que fiz, disse ou queria. Antes deles, fiquei inconsciente por três vezes, sem nenhuma razão conhecida, e não me lembro do que senti nesses períodos".

 

 

FIODOR DOSTOIEVSKI (1821-1881)
escritor russo

Nos últimos trinta anos de vida, Dostoievski foi acometido por cerca de 400 crises de epilepsia. A doença serviu de substrato para a criação de muitos de seus personagens. Em O Idiota, o príncipe Michkin descrevia as crises como prazerosas – "Tudo imergia numa calma suave, cheia de terna e harmoniosa alegria e esperança". Em Os Irmãos Karamazov, o personagem Smerdiákov, epilético, assassina o pai, simulando uma crise. Depois do crime, durante uma convulsão de verdade, ele se mata.

 

 

GUSTAVE FLAUBERT (1821-1880)
escritor francês

As crises de Flaubert começaram por volta dos 22 anos e o acompanharam por quase quarenta anos, até a morte. Flaubert usou o primeiro remédio para o tratamento da doença, os brometos. Em uma carta a um amigo, enquanto escrevia Madame Bovary, Flaubert reclamou dos efeitos do medicamento: "Estou desperdiçando muito papel, rasgando tanto! Cada sentença só vem muito lentamente. Só consigo escrever três páginas por semana".

"Minha vida mental e minha consciência desapareciam, bem como todo o sentimento de estar vivo. Estou certo de que sei o que é morrer. Tenho sentido, em várias ocasiões, uma sensação muito definida de que minha alma está me deixando, como alguém sente o sangue fluindo de uma ferida aberta."

 
 
 
 
topovoltar