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Edição 1972 . 6 de setembro de 2006

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Medicina
Harpa ao cair do bisturi

Essa é a receita para acelerar
a recuperação dos doentes e melhorar o desempenho dos cirurgiões


Anna Paula Buchalla

NESTA REPORTAGEM
Quadro: Os benefícios da música para os pacientes e para os médicos

A música entrou definitivamente para o cardápio médico. Ela ajuda cirurgiões a se concentrar melhor no seu trabalho de abrir, cortar, suturar e fechar – e auxilia na recuperação de pacientes que foram abertos, cortados, suturados e fechados. Tanto que unidades de terapia intensiva agora contam com fundo musical. Sons ritmados, suaves e harmoniosos reduzem a pressão arterial e facilitam a respiração. O coração passa a bater de forma mais compassada, um benefício e tanto para quem se submeteu a uma operação cardíaca, por exemplo. No caso de pacientes de cirurgias na região abdominal, como as cirurgias bariátricas para perda de peso, o uso da música foi efetivo na redução da intensidade da dor. Ela ainda atua no controle da náusea e do desconforto de pacientes submetidos à quimioterapia. No caso de crianças, a música parece ser ainda mais efetiva. "Quando a criança tem a opção de escolher a música, ela tende a se restabelecer mais rapidamente de uma cirurgia", diz a pediatra Thamine Hatem, da Universidade Federal de Pernambuco, coordenadora de um estudo sobre música para crianças hospitalizadas.

Que a música tem o poder de acalmar, relaxar e estimular sensações de prazer, isso sempre se soube. Mas só na última década seus benefícios para a saúde começaram a ser estudados e medidos. Atualmente, médicos e cientistas de mais de vinte centros clínicos de universidades dos Estados Unidos e do Canadá estão envolvidos em pesquisas sobre a relação entre música e funções cerebrais. Graças a exames de imagem, que flagram o cérebro em plena atividade, já se começa a desvendar como ela afeta as funções neurológicas, psicológicas e fisiológicas em áreas ligadas a aprendizado, processamento da fala, emoções, memória e respostas motoras. Exemplo clássico (sem trocadilhos) da influência da música no aumento da capacidade cognitiva é o "efeito Mozart". Um estudo da Universidade da Califórnia, conduzido em 1993, mostrou que os alunos se saíam melhor em testes após uma audição de peças do compositor austríaco. "Sons musicais também ativam o sistema de recompensa do cérebro, liberando neurotransmissores relacionados à sensação de prazer, como a dopamina e a serotonina", afirma o neurologista Mauro Muszkat, coordenador do grupo de estudos do efeito da música sobre o cérebro, da Universidade Federal de São Paulo.

A música arrefece a dor, até onde se sabe, por competir com os estímulos dolorosos. Em outras palavras, ela distrai o paciente e desvia a sua atenção (há, é claro, músicas que aumentam a dor, como as de Milton Nascimento, mas essa é outra história). "Quando um paciente está tenso, entra num circuito cerebral repetitivo. Preocupa-se com a dor, com o barulho do monitor, com o dreno, com o tubo de oxigênio. A música entra por outro circuito e o transporta para longe desses problemas", diz o cardiologista Carlos Alberto Pastore, do Instituto do Coração, em São Paulo.

O hospital Morristown Memorial, em Nova Jersey, nos Estados Unidos, está levando a cabo uma experiência curiosa. Contratou uma harpista para tocar na unidade de terapia intensiva para pacientes cardíacos. Durante duas horas por dia, a musicista Alix Weisz dedilha em sua harpa melodias eruditas, de preferência desconhecidas dos doentes – uma forma de tentar obter respostas cerebrais que não sejam resultado de lembranças pessoais eventualmente desagradáveis. A harpa foi escolhida porque um estudo concluiu que esse instrumento ajuda a regularizar com mais eficácia o ritmo cardíaco. Até o momento, o dado mais concreto foi o relato de um paciente. Ao acordar da anestesia e deparar com uma mulher tocando harpa, ele achou que havia morrido e estava no paraíso. Um otimista, evidentemente.

 

O que eles estão ouvindo

Ricardo Benichio


José Ribas Milanez de Campos,
cirurgião torácico

O que ouve: música erudita e MPB suave  

"Em cirurgias mais tranqüilas, a música ajuda até na concentração. Ela deixa o ambiente mais agradável e faz bem para toda a equipe"

 

Antonio Fernandes Moron, obstetra  

O que ouve: Beethoven,
Chopin e Tchaikovsky  

"Nem todo centro cirúrgico é equipado para ter som ambiente. Mas é possível levar o seu próprio aparelho. Uso muito esse recurso em parto normal. Há mães que até pedem para ouvir música para relaxar"

 

Helvio Romero/AE


Carlos Alberto Pastore,
cardiologista

O que ouve: música new age, como Enya  

"Gosto de música ambiente durante as consultas e já uso isso há muitos anos. Ajuda a aliviar a tensão tanto do médico, que passa horas seguidas num consultório, quanto do paciente, que, em geral, está ansioso. A música nas UTIs é um grande avanço no processo de humanização dos hospitais"

 

Oscar Cabral


Volney Pitombo,
cirurgião plástico

O que ouve: sinfonias de Mozart  

"As sinfonias de Mozart fluem como se fossem o próprio ar. Sinto seus efeitos, principalmente, sobre a equipe – da enfermeira ao anestesista, todos rendem mais. O procedimento, que pode levar até quatro horas, fica mais leve"

 
 
 
 
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