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Medicina Harpa
ao cair do bisturi Essa é a receita para acelerar
a recuperação dos doentes e melhorar o desempenho dos cirurgiões
 Anna
Paula Buchalla
A música
entrou definitivamente para o cardápio médico. Ela ajuda cirurgiões
a se concentrar melhor no seu trabalho de abrir, cortar, suturar e fechar
e auxilia na recuperação de pacientes que foram abertos, cortados,
suturados e fechados. Tanto que unidades de terapia intensiva agora contam com
fundo musical. Sons ritmados, suaves e harmoniosos reduzem a pressão arterial
e facilitam a respiração. O coração passa a bater
de forma mais compassada, um benefício e tanto para quem se submeteu a
uma operação cardíaca, por exemplo. No caso de pacientes
de cirurgias na região abdominal, como as cirurgias bariátricas
para perda de peso, o uso da música foi efetivo na redução
da intensidade da dor. Ela ainda atua no controle da náusea e do desconforto
de pacientes submetidos à quimioterapia. No caso de crianças, a
música parece ser ainda mais efetiva. "Quando a criança tem a opção
de escolher a música, ela tende a se restabelecer mais rapidamente de uma
cirurgia", diz a pediatra Thamine Hatem, da Universidade Federal de Pernambuco,
coordenadora de um estudo sobre música para crianças hospitalizadas.
Que a música tem o poder de acalmar, relaxar
e estimular sensações de prazer, isso sempre se soube. Mas só
na última década seus benefícios para a saúde começaram
a ser estudados e medidos. Atualmente, médicos e cientistas de mais de
vinte centros clínicos de universidades dos Estados Unidos e do Canadá
estão envolvidos em pesquisas sobre a relação entre música
e funções cerebrais. Graças a exames de imagem, que flagram
o cérebro em plena atividade, já se começa a desvendar como
ela afeta as funções neurológicas, psicológicas e
fisiológicas em áreas ligadas a aprendizado, processamento da fala,
emoções, memória e respostas motoras. Exemplo clássico
(sem trocadilhos) da influência da música no aumento da capacidade
cognitiva é o "efeito Mozart". Um estudo da Universidade da Califórnia,
conduzido em 1993, mostrou que os alunos se saíam melhor em testes após
uma audição de peças do compositor austríaco. "Sons
musicais também ativam o sistema de recompensa do cérebro, liberando
neurotransmissores relacionados à sensação de prazer, como
a dopamina e a serotonina", afirma o neurologista Mauro Muszkat, coordenador do
grupo de estudos do efeito da música sobre o cérebro, da Universidade
Federal de São Paulo. A música arrefece
a dor, até onde se sabe, por competir com os estímulos dolorosos.
Em outras palavras, ela distrai o paciente e desvia a sua atenção
(há, é claro, músicas que aumentam a dor, como as de Milton
Nascimento, mas essa é outra história). "Quando um paciente está
tenso, entra num circuito cerebral repetitivo. Preocupa-se com a dor, com o barulho
do monitor, com o dreno, com o tubo de oxigênio. A música entra por
outro circuito e o transporta para longe desses problemas", diz o cardiologista
Carlos Alberto Pastore, do Instituto do Coração, em São Paulo.
O hospital Morristown Memorial, em Nova Jersey,
nos Estados Unidos, está levando a cabo uma experiência curiosa.
Contratou uma harpista para tocar na unidade de terapia intensiva para pacientes
cardíacos. Durante duas horas por dia, a musicista Alix Weisz dedilha em
sua harpa melodias eruditas, de preferência desconhecidas dos doentes
uma forma de tentar obter respostas cerebrais que não sejam resultado de
lembranças pessoais eventualmente desagradáveis. A harpa foi escolhida
porque um estudo concluiu que esse instrumento ajuda a regularizar com mais eficácia
o ritmo cardíaco. Até o momento, o dado mais concreto foi o relato
de um paciente. Ao acordar da anestesia e deparar com uma mulher tocando harpa,
ele achou que havia morrido e estava no paraíso. Um otimista, evidentemente.
O que eles estão ouvindo Ricardo
Benichio
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José
Ribas Milanez de Campos, cirurgião torácico
O que ouve: música erudita e MPB suave
"Em cirurgias mais tranqüilas, a música
ajuda até na concentração. Ela deixa o ambiente mais agradável
e faz bem para toda a equipe" Antonio
Fernandes Moron, obstetra O
que ouve: Beethoven, Chopin e Tchaikovsky "Nem
todo centro cirúrgico é equipado para ter som ambiente. Mas é
possível levar o seu próprio aparelho. Uso muito esse recurso em
parto normal. Há mães que até pedem para ouvir música
para relaxar" Helvio
Romero/AE
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Carlos
Alberto Pastore, cardiologista
O
que ouve: música new age, como Enya "Gosto
de música ambiente durante as consultas e já uso isso há
muitos anos. Ajuda a aliviar a tensão tanto do médico, que passa
horas seguidas num consultório, quanto do paciente, que, em geral, está
ansioso. A música nas UTIs é um grande avanço no processo
de humanização dos hospitais" Oscar
Cabral
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Volney
Pitombo, cirurgião plástico
O
que ouve: sinfonias de Mozart "As sinfonias
de Mozart fluem como se fossem o próprio ar. Sinto seus efeitos, principalmente,
sobre a equipe da enfermeira ao anestesista, todos rendem mais. O procedimento,
que pode levar até quatro horas, fica mais leve" | |
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