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coisas que o terror mudou no mundo
Há
cinco anos, o mais ousado ataque terrorista atingiu o coração de
Nova York. Suas ondas de choque são sentidas até hoje  Diogo
Schelp e Isabela Boscov
Foto
AP
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Na segunda-feira
dia 11, completam-se cinco anos dos atentados terroristas que derrubaram as torres
do World Trade Center, em Nova York, parte do prédio do Pentágono,
em Washington, e feriram os Estados Unidos, pela primeira vez, no coração
de seu próprio território. Para os milhões de pessoas que,
no dia 11 de setembro de 2001, assistiram à tragédia ao vivo, pela
TV, ficou claro imediatamente tratar-se de um daqueles fatos que modificam o curso
da história. Na reportagem das páginas seguintes, VEJA mostra cinqüenta
mudanças impactantes provocadas ou aceleradas pelo ataque terrorista. Algumas
dizem respeito ao dia-a-dia mais próximo: um clima de insegurança
se propagou, a vigilância sobre as pessoas cresceu e atividades como programar
uma viagem e embarcar num avião já não são lúdicas
e prazerosas quanto antes. Outras atingem valores e visões de mundo. A
religião se misturou novamente de maneira perigosa com a política,
o Ocidente e o Islã se chocaram. Outras, ainda, dizem respeito às
relações internacionais. Na resposta à ameaça terrorista,
os Estados Unidos se assumiram como império, e isso teve impacto em suas
relações com todos os demais países sejam eles aliados,
sejam eles inimigos. Interessante
notar também que a ousadia do terror islâmico abalou estruturas,
mas não teve repercussões tectônicas na vida civilizada. Os
terroristas de Osama bin Laden não conseguiram interromper, nem mesmo desacelerar,
o ritmo da globalização econômica fenômeno que
melhor define o mundo que começou a se formar depois do fim da Guerra Fria.
Os atentados de 11 de setembro não frearam o comércio internacional,
o fluxo de capitais nem o encurtamento da distância entre países
e pessoas através dos meios de comunicação e de transporte.
Nesse sentido, a queda do Muro de Berlim, em 1989, foi um acontecimento histórico
mais decisivo do que o 11 de Setembro, porque alterou de maneira profunda a estrutura
do poder global. No bojo daquele evento veio o desmoronamento da União
Soviética, em 1991 e com ele o fim da era em que os soviéticos,
comunistas, e os americanos, capitalistas, equilibravam suas forças hegemônicas.
Para a maioria dos historiadores, os arranjos geopolíticos globais definidos
pelo esfacelamento da URSS ainda são os que prevalecem. O terror islâmico,
pelo inesperado, conseguiu lançar ondas de choque. Elas continuam se propagando
pelo mundo, tornando a vida mais nervosa e insegura, mas não fundamentalmente
diversa da que existia. Peter
Eckel/AP
 | Ho
New/Reuters
 | ANTES
As torres gêmeas reinavam imponentes no cenário de Manhattan, em Nova York | DEPOIS
Projeção em computador da Torre da Liberdade, que vai ocupar o lugar das torres
gêmeas |
Essa sensação
de que o edifício da vida, mesmo abalado, continua intacto pode ser apenas
uma negação psicológica? Talvez. O economista inglês
John Maynard Keynes observou, em 1919, um comportamento curioso das pessoas que
viveram as turbulências causadas pela I Guerra Mundial: no fim do conflito,
muitas se negavam a reconhecer que a vida delas havia mudado. Os atentados de
11 de setembro podem ter disparado um mecanismo defensivo semelhante? O argumento
corrente é que atribuir a um punhado de fanáticos suicidas a capacidade
de mudar o mundo significa dar-lhes um valor exagerado. Essa idéia é
verdadeira, mas não leva em conta o outro lado da questão: se um
ataque terrorista sozinho não é capaz de colocar em movimento as
engrenagens da história, a reação da maior superpotência
a ele tem poder para isso. "O governo americano reagiu de maneira desproporcional
ao 11 de Setembro. Bastava derrubar o Talibã, mas o presidente George W.
Bush achou por bem aproveitar para invadir o Iraque", disse a VEJA o cientista
político americano Francis Fukuyama, ele próprio um exemplo de transformação
pós-11 de setembro: antes de 2001, Fukuyama era um dos expoentes do neoconservadorismo,
ideologia em que se encaixam dois dos mais influentes membros do governo americano:
o vice-presidente Dick Cheney e Donald Rumsfeld, secretário de Defesa.
Neste ano, rompeu com essa turma, desgostoso com a insistência dela em resolver
os problemas globais pela via militar. Diz Fukuyama: "A política externa
de Bush estimulou o antiamericanismo e deu um álibi aos fundamentalistas,
transformando o 11 de Setembro e a ameaça do terror islâmico em uma
profecia que se auto-alimenta". Os
neoconservadores ao redor de Bush viram nos atentados a Nova York uma oportunidade
para reformular a política externa americana, introduzindo o princípio
do ataque preventivo (segundo o qual é justo fazer guerra a países
que possam representar uma ameaça futura) e a idéia de que não
é necessário ter a aprovação da comunidade internacional
para interferir em outros países. Com isso, os Estados Unidos assumiram
um papel que já vinham desempenhando com timidez durante a década
de 90, nos anos que se seguiram ao fim da Guerra Fria: o de potência imperial,
imbuída da missão de levar estabilidade ao mundo. O custo de se
assumir como império veio de duas formas. A primeira foi a tensão
que se criou com aliados vitais dos Estados Unidos, como a Alemanha e a França,
insatisfeitos com a opção dos americanos pelo unilateralismo. O
segundo ônus da reação imperial do governo Bush aos atentados
de 11 de setembro foi dar munição para a Al Qaeda e outras vozes
fundamentalistas acusarem os americanos de promover uma cruzada contra o Islã.
Os Estados Unidos, é bom lembrar, foram atacados primeiro. Sob a ótica
de muitos muçulmanos, no entanto, a presença de tropas ianques em
território islâmico, como no Afeganistão e no Iraque, é
considerada uma ofensa em qualquer circunstância. Com isso, como provam
as estatísticas dos atentados dos últimos dez anos, multiplicou-se
o número de muçulmanos dispostos a morrer pelo que consideram uma
luta de resistência à "cruzada americana".
A resposta ao terrorismo islâmico que mais influência teve sobre o
cotidiano de uma grande parcela da população mundial, no entanto,
foi a adotada dentro das fronteiras dos países democráticos. Para
impedir novos ataques terroristas, governos e empresas resolveram colocar em prática
medidas de segurança que têm como efeito colateral reduzir a liberdade
e a privacidade dos cidadãos. Nos Estados Unidos, os agentes de inteligência
podem grampear ligações telefônicas, vasculhar e-mails e inspecionar
extratos bancários sem precisar de indícios consistentes de que
a pessoa investigada é suspeita. Na Inglaterra, a lei foi alterada para
que a polícia possa manter possíveis terroristas presos por 28 dias,
sem provas. Até os sistemas de distribuição de correspondência
dentro das empresas, inclusive no Brasil, foram modificados para reduzir os riscos
de atentados com agentes biológicos. Um dos símbolos da liberdade
da vida moderna a facilidade para vencer longas distâncias viajando
de avião tornou-se um suplício: a experiência de voar
está cada vez mais parecida com a de fazer uma visita à prisão.
Não se pode embarcar com nada além de um documento. Feitas as contas,
o mundo criado pelo 11 de Setembro é o mesmo, mas é pior que o de
cinco anos atrás. Com
reportagem de Duda Teixeira, Thomaz Favaro
e Ruth Costas 
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