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Edição 1972 . 6 de setembro de 2006

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Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
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Gente
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Artigo: Reinaldo Azevedo
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50 coisas que o terror
mudou no mundo

Há cinco anos, o mais ousado ataque terrorista atingiu o coração de Nova York. Suas ondas de choque são sentidas até hoje


Diogo Schelp e Isabela Boscov

 

Foto AP


NESTA EDIÇÃO
A nova ordem do terror global
Os filhotes da Al Qaeda
O mundo lê, vê e ouve os atentados
EXCLUSIVO ON-LINE
Em Profundidade: 11 de Setembro

Na segunda-feira dia 11, completam-se cinco anos dos atentados terroristas que derrubaram as torres do World Trade Center, em Nova York, parte do prédio do Pentágono, em Washington, e feriram os Estados Unidos, pela primeira vez, no coração de seu próprio território. Para os milhões de pessoas que, no dia 11 de setembro de 2001, assistiram à tragédia ao vivo, pela TV, ficou claro imediatamente tratar-se de um daqueles fatos que modificam o curso da história. Na reportagem das páginas seguintes, VEJA mostra cinqüenta mudanças impactantes provocadas ou aceleradas pelo ataque terrorista. Algumas dizem respeito ao dia-a-dia mais próximo: um clima de insegurança se propagou, a vigilância sobre as pessoas cresceu e atividades como programar uma viagem e embarcar num avião já não são lúdicas e prazerosas quanto antes. Outras atingem valores e visões de mundo. A religião se misturou novamente de maneira perigosa com a política, o Ocidente e o Islã se chocaram. Outras, ainda, dizem respeito às relações internacionais. Na resposta à ameaça terrorista, os Estados Unidos se assumiram como império, e isso teve impacto em suas relações com todos os demais países – sejam eles aliados, sejam eles inimigos.

Interessante notar também que a ousadia do terror islâmico abalou estruturas, mas não teve repercussões tectônicas na vida civilizada. Os terroristas de Osama bin Laden não conseguiram interromper, nem mesmo desacelerar, o ritmo da globalização econômica – fenômeno que melhor define o mundo que começou a se formar depois do fim da Guerra Fria. Os atentados de 11 de setembro não frearam o comércio internacional, o fluxo de capitais nem o encurtamento da distância entre países e pessoas através dos meios de comunicação e de transporte. Nesse sentido, a queda do Muro de Berlim, em 1989, foi um acontecimento histórico mais decisivo do que o 11 de Setembro, porque alterou de maneira profunda a estrutura do poder global. No bojo daquele evento veio o desmoronamento da União Soviética, em 1991 – e com ele o fim da era em que os soviéticos, comunistas, e os americanos, capitalistas, equilibravam suas forças hegemônicas. Para a maioria dos historiadores, os arranjos geopolíticos globais definidos pelo esfacelamento da URSS ainda são os que prevalecem. O terror islâmico, pelo inesperado, conseguiu lançar ondas de choque. Elas continuam se propagando pelo mundo, tornando a vida mais nervosa e insegura, mas não fundamentalmente diversa da que existia.

 
Peter Eckel/AP
Ho New/Reuters
ANTES
As torres gêmeas reinavam imponentes no cenário de Manhattan, em Nova York
DEPOIS
Projeção em computador da Torre da Liberdade, que vai ocupar o lugar das torres gêmeas

Essa sensação de que o edifício da vida, mesmo abalado, continua intacto pode ser apenas uma negação psicológica? Talvez. O economista inglês John Maynard Keynes observou, em 1919, um comportamento curioso das pessoas que viveram as turbulências causadas pela I Guerra Mundial: no fim do conflito, muitas se negavam a reconhecer que a vida delas havia mudado. Os atentados de 11 de setembro podem ter disparado um mecanismo defensivo semelhante? O argumento corrente é que atribuir a um punhado de fanáticos suicidas a capacidade de mudar o mundo significa dar-lhes um valor exagerado. Essa idéia é verdadeira, mas não leva em conta o outro lado da questão: se um ataque terrorista sozinho não é capaz de colocar em movimento as engrenagens da história, a reação da maior superpotência a ele tem poder para isso. "O governo americano reagiu de maneira desproporcional ao 11 de Setembro. Bastava derrubar o Talibã, mas o presidente George W. Bush achou por bem aproveitar para invadir o Iraque", disse a VEJA o cientista político americano Francis Fukuyama, ele próprio um exemplo de transformação pós-11 de setembro: antes de 2001, Fukuyama era um dos expoentes do neoconservadorismo, ideologia em que se encaixam dois dos mais influentes membros do governo americano: o vice-presidente Dick Cheney e Donald Rumsfeld, secretário de Defesa. Neste ano, rompeu com essa turma, desgostoso com a insistência dela em resolver os problemas globais pela via militar. Diz Fukuyama: "A política externa de Bush estimulou o antiamericanismo e deu um álibi aos fundamentalistas, transformando o 11 de Setembro e a ameaça do terror islâmico em uma profecia que se auto-alimenta".

Os neoconservadores ao redor de Bush viram nos atentados a Nova York uma oportunidade para reformular a política externa americana, introduzindo o princípio do ataque preventivo (segundo o qual é justo fazer guerra a países que possam representar uma ameaça futura) e a idéia de que não é necessário ter a aprovação da comunidade internacional para interferir em outros países. Com isso, os Estados Unidos assumiram um papel que já vinham desempenhando com timidez durante a década de 90, nos anos que se seguiram ao fim da Guerra Fria: o de potência imperial, imbuída da missão de levar estabilidade ao mundo. O custo de se assumir como império veio de duas formas. A primeira foi a tensão que se criou com aliados vitais dos Estados Unidos, como a Alemanha e a França, insatisfeitos com a opção dos americanos pelo unilateralismo. O segundo ônus da reação imperial do governo Bush aos atentados de 11 de setembro foi dar munição para a Al Qaeda e outras vozes fundamentalistas acusarem os americanos de promover uma cruzada contra o Islã. Os Estados Unidos, é bom lembrar, foram atacados primeiro. Sob a ótica de muitos muçulmanos, no entanto, a presença de tropas ianques em território islâmico, como no Afeganistão e no Iraque, é considerada uma ofensa em qualquer circunstância. Com isso, como provam as estatísticas dos atentados dos últimos dez anos, multiplicou-se o número de muçulmanos dispostos a morrer pelo que consideram uma luta de resistência à "cruzada americana".

A resposta ao terrorismo islâmico que mais influência teve sobre o cotidiano de uma grande parcela da população mundial, no entanto, foi a adotada dentro das fronteiras dos países democráticos. Para impedir novos ataques terroristas, governos e empresas resolveram colocar em prática medidas de segurança que têm como efeito colateral reduzir a liberdade e a privacidade dos cidadãos. Nos Estados Unidos, os agentes de inteligência podem grampear ligações telefônicas, vasculhar e-mails e inspecionar extratos bancários sem precisar de indícios consistentes de que a pessoa investigada é suspeita. Na Inglaterra, a lei foi alterada para que a polícia possa manter possíveis terroristas presos por 28 dias, sem provas. Até os sistemas de distribuição de correspondência dentro das empresas, inclusive no Brasil, foram modificados para reduzir os riscos de atentados com agentes biológicos. Um dos símbolos da liberdade da vida moderna – a facilidade para vencer longas distâncias viajando de avião – tornou-se um suplício: a experiência de voar está cada vez mais parecida com a de fazer uma visita à prisão. Não se pode embarcar com nada além de um documento. Feitas as contas, o mundo criado pelo 11 de Setembro é o mesmo, mas é pior que o de cinco anos atrás.

Com reportagem de Duda Teixeira,
Thomaz Favaro e Ruth Costas

 

 
 
 
 
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