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Negócios
Um caminho sem volta
Produtividade é a base da sobrevivência
das montadoras em todo o mundo. Sua
ausência explica a crise da Volks no Brasil

Carlos Rydlewski e Chrystiane Silva
Wilson Chu/Reuters
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| O novo e o velho: fábrica chinesa da
Toyota, uma das empresas mais eficientes do planeta, e grevistas
do ABC (abaixo) |
J. F. Diorio/AE
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A General Motors dos Estados Unidos,
a maior fabricante de automóveis do mundo, anunciou em novembro
do ano passado a demissão de 30.000 funcionários e
o fechamento de doze fábricas. A empresa mergulhava em dívidas
ligadas a generosos planos de saúde de seus trabalhadores
aposentados. Havia um déficit estimado em 47 bilhões
de dólares valor equivalente a seis vezes o faturamento
registrado pela mineradora Vale do Rio Doce em 2005. Com rumores
de que a GM poderia falir, as agências de classificação
de risco rebaixaram os títulos da companhia para a categoria
de "crédito podre" a pior das classificações,
conhecida no mercado americano como junk bond. Em janeiro,
a Ford seguiu o mesmo caminho. Comunicou cortes de mais 30 000 postos
de trabalho, além do fechamento de catorze plantas industriais.
Enquanto GM e Ford sangravam, montadoras japonesas como a Toyota
e a Honda aproveitaram-se para roubar fatias do mercado americano.
Para isso, usaram uma estratégia baseada em fábricas
mais eficientes, tocadas por um número menor de funcionários,
com benefícios trabalhistas mais contidos e em sintonia finíssima
com o consumidor.
Esses conceitos se tornaram a
base do movimento sísmico que revoluciona a indústria
automobilística e explica não só a debacle
da GM e da Ford americanas como também a crise da Volkswagen
do Brasil. Na semana passada, a companhia divulgou que demitirá
1.800 metalúrgicos a partir de novembro. Também sinalizou
que pode fechar até 2010 a indústria de São
Bernardo do Campo, no ABC paulista, ali instalada desde a década
de 1950, e que serviu de berço político do presidente
Luiz Inácio Lula da Silva. No cerne da crise da Volks aparece
um problema de natureza trabalhista: um acordo de 2001 que garantiu
a estabilidade para os trabalhadores por cinco anos, engessando
ainda mais a montadora. Na média, os salários pagos
pela empresa no ABC representam o dobro da remuneração
oferecida pelas concorrentes. O problema impede a companhia de lucrar
num momento em que o mercado interno cresce. Avançou 4,4%
entre janeiro e julho de 2006. Ocorre que vender é bem diferente
de lucrar. No Brasil, 60% dos carros comercializados são
populares, mais baratos e, portanto, com margens de lucro mais apertadas.
"É por isso que a exigência de eficácia é
ainda maior", diz Richard Dubois, diretor da consultoria AT Kearney.
Fotos divulgação
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vulgação
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| Fábrica da Volks no ABC
pode fechar até 2010: símbolo do avanço
da indústria automobilística no Brasil, a instalação
serviu de palco para presidentes como Juscelino Kubitschek e
Itamar Franco |
Foi a Ford quem promoveu a primeira
revolução na história da indústria automobilística,
com a criação da linha de montagem em 1913. Mas depois
da II Guerra Mundial coube à Toyota, hoje a montadora mais
rentável do globo, virar de ponta-cabeça o setor.
Ela se tornou um paradigma da produtividade aplicada à produção
de carros, criando um modelo enxutíssimo de planta. As instalações
permitiam a redução de estoques e despesas por meio
de um sistema conhecido como just in time, que elimina desperdícios
ao produzir na hora certa a quantidade correta de produtos. Nas
últimas décadas, a empresa aprimorou-se em definir
de maneira precisa o número de modelos que devem ser produzidos
em uma indústria. Além do mais, enquanto a GM e a
Ford apostavam em utilitários esportivos, beberrões
de combustíveis, numa época de aumentos sucessivos
no preço do petróleo, a Toyota foi no sentido oposto.
Lançou em 1997 o Prius, um híbrido que funciona com
gasolina e eletricidade e que se tornou sucesso de vendas, superando
a marca de mais de 500.000 unidades comercializadas desde então.
A empresa avançou ainda em agilidade. Hoje, enquanto a montadora
japonesa demora somente um ano para desenvolver o projeto de um
carro novo, as concorrentes americanas gastam até três
anos. O resultado geral da otimização dos recursos
faz com que o veículo produzido pela Toyota nos Estados Unidos
tenha custo entre 10% e 30% inferior ao das concorrentes. "A diferença
é tão grande que a GM praticamente paga para os americanos
comprarem seus carros", diz José Roberto Ferro, especialista
no setor automobilístico e presidente do Lean Institute Brasil.
"A montadora americana tem uma margem reduzidíssima de lucro
e ainda é obrigada a dar descontos para os consumidores ficarem
com os veículos."
Eliseo Fernandez/Reuters
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| Carros chineses desembarcam no Chile: a competição
vai derrubar ainda mais a margem de lucro |
Não são apenas os
ícones americanos que estão em apuros no cenário
mundial. Além do problema brasileiro, a Volkswagen também
está no meio de um processo de reestruturação
em sua sede, na Alemanha. Precisa cortar 15.000 dos 103.000 empregos
e, como no Brasil, enfrenta forte resistência sindical. A
concorrência global tende a se acirrar ainda mais nos próximos
cinco a dez anos, quando novas marcas chinesas devem começar
a avançar sobre as concessionárias de todo o mundo,
exigindo uma queda ainda maior dos custos de produção
das montadoras. Nesse setor, a busca frenética por eficiência
transformou-se num caminho sem volta.
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