|
|
Brasil As
verdades de Vedoin A lista de sanguessugas
não pára de crescer. Cabe somente à Justiça
definir suas eventuais imprecisões  Marcelo
Carneiro
Roberto
Setton
 | | Vedoin:
declarações a VEJA reiteradas na Justiça |
O empresário Luiz Antônio Vedoin fez estremecer o Congresso ao
detalhar, em depoimentos prestados no último mês de julho à
Justiça Federal, como subornou uma centena de parlamentares e ex-parlamentares
ao longo dos últimos cinco anos. Vedoin comandava um esquema de pagamento
de propinas em troca de emendas ao Orçamento destinando recursos a prefeituras
para a compra de ambulâncias que eram vendidas por sua empresa, a
Planam. Há duas semanas, em entrevista a VEJA, o empresário somou
mais um nome à lista de políticos que diz ter corrompido: o do senador
Antero Paes de Barros (PSDB-MT). Como, em declarações anteriores,
ele não havia comprometido o senador, imediatamente entrou em curso uma
estratégia com o fim de desqualificar as acusações do empresário.
Vedoin, sugeriram jornalistas ingênuos, estaria usando a imprensa para um
acerto de contas com os políticos: inocentaria alguns deles na esperança
de receber algumas dívidas e faria novas acusações
a outros, por razões ainda não muito claras.
É certo que o dono da Planam decidiu contar o que sabia
não por elevado sentimento de Justiça, mas para escapar da cadeia
afinal de contas, é o que prevê o benefício da delação
premiada do qual resolveu fazer uso. É evidente ainda que, por sua ação
corruptora e alto grau de envolvimento no esquema, suas declarações
devem ser encaradas como um ponto de partida para as investigações.
Mas é inegável também que todas as confissões que
fez até agora se revelaram bastante robustas, tanto do ponto de vista documental
como de testemunho. Essas confissões não podem, por obra daquela
costumeira associação entre ingenuidade jornalística e malandragem
política, ser descartadas por causa de eventuais fragilidades de outros
depoimentos de Vedoin.
Ueslei
Marcelino/Bg Press
 | | Antero:
indícios contra ele são "fortes", diz presidente da CPI |
Uma
das confissões mais consistentes do corruptor foi feita a VEJA, em entrevista
exclusiva publicada duas semanas atrás. Nela, Vedoin disse ter pago ao
senador Antero Paes de Barros (PSDB-MT) uma propina de 40.000 reais por emendas
apresentadas pelo parlamentar. O dinheiro, afirmou, foi repassado ao deputado
Lino Rossi (PP-MT) a pedido de Antero. Diante dessas declarações,
o senador jurou inocência. Dias depois, porém, o dono da Planam não
só ratificou as afirmações junto à 2ª Vara Federal
de Mato Grosso como deu detalhes da negociação. Segundo o depoimento,
foi seu pai, Darci, quem negociou diretamente com Antero, depois de ser recebido
no gabinete do senador por sua secretária. O empresário ainda entregou
à Justiça a cópia de um ofício enviado pelo deputado
Lino Rossi ao Ministério da Saúde. Nele, aparece detalhada a cota
do senador Antero no total de recursos das emendas da bancada de Mato Grosso para
a compra de ambulâncias valores e destinos coincidem com o que havia
dito Vedoin.
"Os indícios contra
o senador são fortes", afirma o presidente da CPI dos Sanguessugas, Antonio
Carlos Biscaia (PT-RJ). Na semana passada, VEJA teve acesso a outro documento
que prova, no mínimo, que Antero tinha o hábito de discutir emendas
com uma turma pouquíssimo recomendável. Trata-se de uma ata da reunião
da bancada de Mato Grosso que, em 2000, definiu a apresentação de
emendas ao Orçamento no valor total de 750.000 reais. Parte desses recursos
50.000 reais destinava-se à compra de ambulâncias.
Participaram da reunião dez políticos, além de Antero, que
assinou a ata. Desse grupo, nada menos que seis parlamentares estão sendo
investigados por participação no esquema dos sanguessugas. O senador,
bem como outros políticos acusados por Vedoin, tem, sim, de ser investigado.
Se o empresário está tentando jogadas desonestas para auferir benefícios,
isso não pode servir de pretexto para poupar culpados. Cabe à Justiça
e não à imprensa ou ao espírito de corpo dos políticos
separar o joio do trigo. |