Edição 1814 . 6 de agosto de 2003

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Cinema
Cego de vaidade

Allen vai longe demais no papel
de um cineasta que dirige sem ver


Isabela Boscov

 
Divulgação
Allen, com Téa: caneladas sem graça


Trailer do filme
Galeria de fotos

Woody Allen é mestre em sacar idéias que parecem óbvias, mas ninguém ainda teve a presença de espírito de usar – como o ator que está sempre fora de foco em Desconstruindo Harry, ou a mãe que surge no céu de Manhattan para repreender seu filho, à vista de toda a cidade, em Contos de Nova York. Outra dessas idéias simples e efetivas é a base de Dirigindo no Escuro (Hollywood Ending, Estados Unidos, 2002), que estréia nesta sexta-feira no país. Depois de amargar anos de desgraça profissional, o cineasta Val Waxman (Allen) ganha, por influência de sua ex-mulher (Téa Leoni), a chance de dirigir uma superprodução de estúdio. No primeiro dia de filmagem, a catástrofe: Val descobre-se subitamente cego. Como não tem coragem de contar a verdade, ele decide seguir adiante, disfarçando sua completa incompetência para o cargo. O problema é o uso hipócrita e desprovido de imaginação que Allen dá a um ponto de partida tão bom. Em vez de tratá-lo como blague, ele faz como se estivesse criticando a indústria do cinema – se é que cotoveladas e caneladas (todas sem graça) constituem crítica. Allen gosta de fingir que não faz parte desse mundinho, mas filma com o dinheiro de Steven Spielberg. Em Dirigindo no Escuro, ele é como um daqueles convidados rudes que vão à festa dos outros, empanturram-se de salgadinhos e depois reclamam para quem quiser ouvir que o uísque era de segunda.

 
 
 
 
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