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Livros
Uma
voz árabe
Em dois romances, a notável literatura
do escritor egípcio Naguib Mahfuz

Antonio
Gonçalves Filho
Ignorado
no Ocidente até 1988, quando recebeu o Nobel de Literatura,
o filósofo e escritor egípcio Naguib Mahfuz oferece
a seus leitores um valioso portal de acesso à cultura árabe.
Dois livros seus, Miramar (tradução
de Safa Chahla Jubran; Berlendis & Vertecchia; 236 páginas;
35 reais) e O Beco do Pilão (tradução
de Paulo Daniel Farah; Planeta; 320 páginas; 49 reais), acabam
de chegar às livrarias pelas mãos de competentes tradutores.
A tradução do romance mais antigo, O Beco do Pilão,
é tão criteriosa que vem acompanhada de glossário
e posfácio. Neste, os nomes dos personagens são decodificados
para melhor orientar o leitor em sua jornada oriental. Mahfuz, hoje
com 92 anos, quase cego e surdo após ter sido vítima
de um atentado praticado por um extremista religioso em 1994, dá
muita importância aos nomes. Eles conduzem à alma dos
protagonistas, destacados por sua posição social ou
marcados por características nem sempre louváveis.
Em O Beco do Pilão, o nome mais curioso pertence ao
dono do café desse bairro na parte mais antiga do Cairo.
Kircha, segundo o tradutor, vem de "karicha" (murchar, enrugar).
Visto com antipatia por Mahfuz, o protagonista é um homem
sem qualidades, que troca a companhia da mulher e dos filhos por
noites de sexo e drogas com rapazinhos no Cairo dos anos 40, dividido
entre invasores nazistas e colonialistas ingleses. O trágico
realismo de Mahfuz conduz a sedutora Hamida ("louvável")
às mãos de lascivos súditos do Império
Britânico, aos quais se entrega por dinheiro, a exemplo de
outras jovens de sua geração. Entre os coadjuvantes,
Zaita ("arruaceiro") é o mais sórdido. Rouba dentaduras
de defuntos para vender aos vivos. Nas horas vagas, mutila corpos
de candidatos à mendicância. Em meio a essa miséria
moral vivem ainda uma viúva casadoura, o religioso Radwan
e jovens que praticam o comércio clandestino. Como se vê,
Mahfuz tem uma acentuada ligação com a literatura
do inglês Charles Dickens. Politicamente, contudo, ele aponta
para o conflito entre o Ocidente e o mundo muçulmano
tema explosivo meio século após a primeira edição
de O Beco do Pilão.
Nesse romance, a chegada da modernidade ao Cairo é representada
pela violenta introdução de um aparelho de rádio
no Café de Kircha, derrubando a antiga tradição
do trovador urbano. Já em Miramar, um crime é
relatado em quatro diferentes versões por hóspedes
de um hotel em Alexandria, entre eles um jornalista aposentado,
um economista socialista e um monarquista desiludido. O Beco
do Pilão é, por várias razões, mais
importante e interessante. Primeiro, porque anuncia e sintetiza
os temas principais de todos os livros posteriores de Mahfuz. Em
segundo lugar, sua atualidade é impressionante. Ao criticar
o imperialismo britânico e defender os valores culturais do
povo árabe, Mahfuz evita o discurso extremista, mostrando,
por intermédio do sábio Radwan Hussein, como intolerância
religiosa e colonialismo político se equivalem. Não
escapa, contudo, ao pessimismo. Ele faz em literatura o que o pintor
gaúcho Iberê Camargo costumava fazer na tela: trazer
à tona o passado, mas por meio de fantasmagorias, de coisas
irrecuperáveis. É assim na obra de Mahfuz, em que
escombros do passado sobrevivem numa modernidade laica, arrogante
e sem memória.
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