Edição 1814 . 6 de agosto de 2003

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Livros
Uma voz árabe

Em dois romances, a notável literatura
do escritor egípcio Naguib Mahfuz


Antonio Gonçalves Filho


Trechos dos livros
O Beco do Pilão
Miramar

Ignorado no Ocidente até 1988, quando recebeu o Nobel de Literatura, o filósofo e escritor egípcio Naguib Mahfuz oferece a seus leitores um valioso portal de acesso à cultura árabe. Dois livros seus, Miramar (tradução de Safa Chahla Jubran; Berlendis & Vertecchia; 236 páginas; 35 reais) e O Beco do Pilão (tradução de Paulo Daniel Farah; Planeta; 320 páginas; 49 reais), acabam de chegar às livrarias pelas mãos de competentes tradutores. A tradução do romance mais antigo, O Beco do Pilão, é tão criteriosa que vem acompanhada de glossário e posfácio. Neste, os nomes dos personagens são decodificados para melhor orientar o leitor em sua jornada oriental. Mahfuz, hoje com 92 anos, quase cego e surdo após ter sido vítima de um atentado praticado por um extremista religioso em 1994, dá muita importância aos nomes. Eles conduzem à alma dos protagonistas, destacados por sua posição social ou marcados por características nem sempre louváveis.

Em O Beco do Pilão, o nome mais curioso pertence ao dono do café desse bairro na parte mais antiga do Cairo. Kircha, segundo o tradutor, vem de "karicha" (murchar, enrugar). Visto com antipatia por Mahfuz, o protagonista é um homem sem qualidades, que troca a companhia da mulher e dos filhos por noites de sexo e drogas com rapazinhos no Cairo dos anos 40, dividido entre invasores nazistas e colonialistas ingleses. O trágico realismo de Mahfuz conduz a sedutora Hamida ("louvável") às mãos de lascivos súditos do Império Britânico, aos quais se entrega por dinheiro, a exemplo de outras jovens de sua geração. Entre os coadjuvantes, Zaita ("arruaceiro") é o mais sórdido. Rouba dentaduras de defuntos para vender aos vivos. Nas horas vagas, mutila corpos de candidatos à mendicância. Em meio a essa miséria moral vivem ainda uma viúva casadoura, o religioso Radwan e jovens que praticam o comércio clandestino. Como se vê, Mahfuz tem uma acentuada ligação com a literatura do inglês Charles Dickens. Politicamente, contudo, ele aponta para o conflito entre o Ocidente e o mundo muçulmano – tema explosivo meio século após a primeira edição de O Beco do Pilão.

Nesse romance, a chegada da modernidade ao Cairo é representada pela violenta introdução de um aparelho de rádio no Café de Kircha, derrubando a antiga tradição do trovador urbano. Já em Miramar, um crime é relatado em quatro diferentes versões por hóspedes de um hotel em Alexandria, entre eles um jornalista aposentado, um economista socialista e um monarquista desiludido. O Beco do Pilão é, por várias razões, mais importante e interessante. Primeiro, porque anuncia e sintetiza os temas principais de todos os livros posteriores de Mahfuz. Em segundo lugar, sua atualidade é impressionante. Ao criticar o imperialismo britânico e defender os valores culturais do povo árabe, Mahfuz evita o discurso extremista, mostrando, por intermédio do sábio Radwan Hussein, como intolerância religiosa e colonialismo político se equivalem. Não escapa, contudo, ao pessimismo. Ele faz em literatura o que o pintor gaúcho Iberê Camargo costumava fazer na tela: trazer à tona o passado, mas por meio de fantasmagorias, de coisas irrecuperáveis. É assim na obra de Mahfuz, em que escombros do passado sobrevivem numa modernidade laica, arrogante e sem memória.

 
 
 
 
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