Edição 1814 . 6 de agosto de 2003

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Arte
Bacon faz bem à saúde

Assim como Lucian Freud ou David Hockney, que dão brilho a uma grande mostra de arte inglesa


Marcelo Marthe

 
Fotos divulgação
Foto
Mr. and Mrs. Clark and Percy, de Hockney (à esq.), Figura Sentada, de Bacon (no centro), e Leigh Bowery, de Freud: uma panorâmica da arte produzida na Inglaterra dos anos 60 aos dias de hoje



Galeria de imagens: outras obras em exposição

Dotada de uma das cenas artísticas mais agitadas da atualidade, a Inglaterra é um país que ainda leva adiante a velha tradição modernista de produzir arte capaz de chocar. A exposição Sensation, realizada em Londres no fim dos anos 90, foi emblemática disso. Ela reunia obras de apelo mórbido, feitas com materiais como sangue humano e cadáveres de animais. Alguns dos principais nomes daquela mostra, como Damien Hirst e Sarah Lucas, têm trabalhos seus incluídos numa retrospectiva de arte contemporânea inglesa que será inaugurada nesta quarta-feira em São Paulo. Promovida pela BrasilConnects – associação que também esteve por trás de uma mostra de relíquias da China visitada por 817.000 pessoas no primeiro semestre –, a exposição A Bigger Splash é composta de 109 obras pertencentes à Tate Gallery, instituição que possui um dos mais importantes acervos artísticos da Europa. Pode-se dizer que é uma seleção bem-comportada para os padrões britânicos. Os curadores evitaram o enfoque sensacionalista e se concentraram naquilo que se produziu de mais consistente naquele país desde os anos 60, dos retratos torturados do pintor Francis Bacon às videoinstalações atuais. Ao contrário do que ocorre nas seções de arte contemporânea das bienais, trata-se de um cardápio enxuto: como um menu de degustação, a exposição fornece poucos – e bons – exemplos do que seja uma obra pop ou conceitual, entre outros rótulos às vezes imperscrutáveis para os leigos.

 
Divulgação
A prisão do roqueiro Mick Jagger, por Hamilton: ícone da pop art

A Bigger Splash ocupará dois espaços simultaneamente: o Instituto Tomie Ohtake, onde serão exibidas sete videoinstalações, e o prédio da Oca, no Parque do Ibirapuera, que abrigará a maior e mais significativa parte do acervo. Disposta em ordem cronológica, a mostra começa com aquilo que tem de melhor: a ala devotada aos anos 60. Ali estão, por exemplo, obras de dois artistas fundamentais. Do brilhante Bacon (1909-1992), irlandês que passou grande parte da vida em Londres e se tornou para muitos o maior nome da pintura britânica no século XX, há quatro trabalhos que exibem os corpos retorcidos e os rostos dilacerados que se tornaram sua marca. Já do pintor Lucian Freud, neto do fundador da psicanálise, está exposta apenas uma tela – um retrato do artista performático australiano Leigh Bowery, um de seus principais modelos. Com uma técnica comparável à dos velhos mestres, Freud usa de artifícios naturalistas para subverter a realidade que retrata. Um olhar mais atento é capaz de flagrar perspectivas improváveis, assim como proporções estranhas, em suas figuras. Pena que a mostra não conte com outras telas do artista.

No mesmo segmento encontra-se a pop art. O expoente mais notório dessa vertente pode até ser o americano Andy Warhol – mas a contribuição de britânicos como David Hockney e Richard Hamilton também foi crucial para o movimento. Com sua visão a um só tempo irônica e celebratória da sociedade de consumo, esses artistas encontraram terreno fértil na Londres da década da liberação sexual, do rock'n'roll e das drogas. Embora renegue o rótulo de pop, Hockney produziu alguns de seus ícones máximos. Vários deles, aliás, presentes na exposição, como A Bigger Splash, que lhe dá título, e Mr. and Mrs. Clark and Percy (1970-71), que brinca com as convenções do retrato tradicional cristalizadas desde o Renascimento. A parte dedicada a Hamilton contém treze obras, dentre as quais uma estampa sobre papel que integra a série célebre que o artista fez para protestar contra a prisão dos roqueiros Mick Jagger e Keith Richards, dos Rolling Stones, por porte de drogas.

Divulgação
Pauline Bunny, de Sarah Lucas: o efeito é só engraçado


Por meio do acervo da Tate é possível recapitular as pós-modernices das últimas décadas. Como num catálogo, todas as temáticas e procedimentos adotados no período são exemplificados. A arte conceitual, que brinca com a questão da representação, está representada em obras como An Oak Tree (1973), de Michael Craig-Martin. Ela consiste num copo d'água colocado sobre uma prateleira – conjunto que, segundo o artista, simboliza uma árvore. Arte política, arte feminista e as indefectíveis instalações – há de tudo isso um pouco na mostra.

Se há motivo para decepção em A Bigger Splash, é em relação à geração dos anos 90 – justamente aquela que tenta manter viva a tradição do choque na arte inglesa. A feminista Sarah Lucas comparece com auto-retratos que tentam questionar a imagem feminina tal como é veiculada em meios convencionais e uma escultura de inspiração surrealista que pretende denunciar a mercantilização do corpo feminino nas revistas eróticas. O efeito é apenas engraçado. Considerado o enfant terrible da arte inglesa, Damien Hirst chocou o público na exposição Sensation com uma obra que mostrava uma cabeça de vaca (de verdade) sendo devorada por moscas (de verdade). Em São Paulo, será apresentada uma série de estampas na qual ele critica a obsessão com a saúde criando embalagens de remédio fictícias que levam o nome de pratos da cozinha inglesa. É um trabalho tão insosso quanto a comida de seu país. Na exposição, é mesmo Bacon que faz bem à saúde.

 
Em nome do pai
A série de catorze quadros conhecida como Pinturas Negras está entre os trabalhos mais importantes do espanhol Francisco Goya (1746-1828). Saturno, a principal dessas obras, que exibe a imagem do deus mitológico que devorava seus filhos, sempre foi tida pelos historiadores como uma peça essencial para compreender a gênese da pintura moderna. Não é à toa, portanto, que está causando polêmica a divulgação de um estudo que sugere não ter sido Goya o verdadeiro autor das Pinturas Negras. Contratado para escrever um livro sobre a série, o historiador Juan José Junquera, da Universidade Complutense de Madri, mergulhou nos arquivos da época e chegou à conclusão de que Goya não poderia ter pintado os quadros. Até onde se sabe, as peças foram feitas para enfeitar as paredes do 2º andar da casa do pintor, num subúrbio da capital espanhola – e Junquera colheu indícios de que o pavimento só teria sido construído anos depois de sua morte. A esse argumento inicial, ele juntou outros vários que apontam para a tese de que Javier, filho do artista, seria o verdadeiro autor dos quadros, ou os teria encomendado a terceiros. Embora não se tenha notícia de nenhuma obra de sua autoria, Javier estudou pintura – ainda que seu talento inequívoco fosse para os negócios. "Se tivesse de vender sua mãe, ele o faria", diz Junquera. O estudo do pesquisador espanhol divide a opinião dos historiadores. E tem tirado o sono dos administradores do Museu do Prado, onde as magníficas Pinturas Negras estão expostas.

 

 
 
 
 
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