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Arte
Bacon
faz bem à saúde
Assim como Lucian Freud ou David Hockney, que
dão brilho a uma grande mostra de arte inglesa
Marcelo
Marthe
Fotos divulgação
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Foto
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Mr.
and Mrs. Clark and Percy, de Hockney (à esq.),
Figura Sentada, de Bacon (no centro), e Leigh
Bowery, de Freud: uma panorâmica da arte produzida
na Inglaterra dos anos 60 aos dias de hoje
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Dotada
de uma das cenas artísticas mais agitadas da atualidade,
a Inglaterra é um país que ainda leva adiante a velha
tradição modernista de produzir arte capaz de chocar.
A exposição Sensation, realizada em Londres
no fim dos anos 90, foi emblemática disso. Ela reunia obras
de apelo mórbido, feitas com materiais como sangue humano
e cadáveres de animais. Alguns dos principais nomes daquela
mostra, como Damien Hirst e Sarah Lucas, têm trabalhos seus
incluídos numa retrospectiva de arte contemporânea
inglesa que será inaugurada nesta quarta-feira em São
Paulo. Promovida pela BrasilConnects associação
que também esteve por trás de uma mostra de relíquias
da China visitada por 817.000 pessoas no primeiro semestre ,
a exposição A Bigger Splash é composta
de 109 obras pertencentes à Tate Gallery, instituição
que possui um dos mais importantes acervos artísticos da
Europa. Pode-se dizer que é uma seleção bem-comportada
para os padrões britânicos. Os curadores evitaram o
enfoque sensacionalista e se concentraram naquilo que se produziu
de mais consistente naquele país desde os anos 60, dos retratos
torturados do pintor Francis Bacon às videoinstalações
atuais. Ao contrário do que ocorre nas seções
de arte contemporânea das bienais, trata-se de um cardápio
enxuto: como um menu de degustação, a exposição
fornece poucos e bons exemplos do que seja uma obra
pop ou conceitual, entre outros rótulos às vezes imperscrutáveis
para os leigos.
Divulgação
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| A
prisão do roqueiro Mick Jagger, por Hamilton: ícone
da pop art |
A
Bigger Splash ocupará dois espaços simultaneamente:
o Instituto Tomie Ohtake, onde serão exibidas sete videoinstalações,
e o prédio da Oca, no Parque do Ibirapuera, que abrigará
a maior e mais significativa parte do acervo. Disposta em ordem
cronológica, a mostra começa com aquilo que tem de
melhor: a ala devotada aos anos 60. Ali estão, por exemplo,
obras de dois artistas fundamentais. Do brilhante Bacon (1909-1992),
irlandês que passou grande parte da vida em Londres e se tornou
para muitos o maior nome da pintura britânica no século
XX, há quatro trabalhos que exibem os corpos retorcidos e
os rostos dilacerados que se tornaram sua marca. Já do pintor
Lucian Freud, neto do fundador da psicanálise, está
exposta apenas uma tela um retrato do artista performático
australiano Leigh Bowery, um de seus principais modelos. Com uma
técnica comparável à dos velhos mestres, Freud
usa de artifícios naturalistas para subverter a realidade
que retrata. Um olhar mais atento é capaz de flagrar perspectivas
improváveis, assim como proporções estranhas,
em suas figuras. Pena que a mostra não conte com outras telas
do artista.
No mesmo segmento encontra-se a pop art. O expoente mais notório
dessa vertente pode até ser o americano Andy Warhol
mas a contribuição de britânicos como David
Hockney e Richard Hamilton também foi crucial para o movimento.
Com sua visão a um só tempo irônica e celebratória
da sociedade de consumo, esses artistas encontraram terreno fértil
na Londres da década da liberação sexual, do
rock'n'roll e das drogas. Embora renegue o rótulo de pop,
Hockney produziu alguns de seus ícones máximos. Vários
deles, aliás, presentes na exposição, como
A Bigger Splash, que lhe dá título, e Mr.
and Mrs. Clark and Percy (1970-71), que brinca com as convenções
do retrato tradicional cristalizadas desde o Renascimento. A parte
dedicada a Hamilton contém treze obras, dentre as quais uma
estampa sobre papel que integra a série célebre que
o artista fez para protestar contra a prisão dos roqueiros
Mick Jagger e Keith Richards, dos Rolling Stones, por porte de drogas.
Divulgação
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| Pauline
Bunny, de Sarah Lucas: o efeito
é só engraçado |
Por meio do acervo da Tate é possível recapitular
as pós-modernices das últimas décadas. Como
num catálogo, todas as temáticas e procedimentos adotados
no período são exemplificados. A arte conceitual,
que brinca com a questão da representação,
está representada em obras como An Oak Tree (1973),
de Michael Craig-Martin. Ela consiste num copo d'água colocado
sobre uma prateleira conjunto que, segundo o artista, simboliza
uma árvore. Arte política, arte feminista e as indefectíveis
instalações há de tudo isso um pouco
na mostra.
Se há motivo para decepção em A Bigger Splash,
é em relação à geração
dos anos 90 justamente aquela que tenta manter viva a tradição
do choque na arte inglesa. A feminista Sarah Lucas comparece com
auto-retratos que tentam questionar a imagem feminina tal como é
veiculada em meios convencionais e uma escultura de inspiração
surrealista que pretende denunciar a mercantilização
do corpo feminino nas revistas eróticas. O efeito é
apenas engraçado. Considerado o enfant terrible da
arte inglesa, Damien Hirst chocou o público na exposição
Sensation com uma obra que mostrava uma cabeça de
vaca (de verdade) sendo devorada por moscas (de verdade). Em São
Paulo, será apresentada uma série de estampas na qual
ele critica a obsessão com a saúde criando embalagens
de remédio fictícias que levam o nome de pratos da
cozinha inglesa. É um trabalho tão insosso quanto
a comida de seu país. Na exposição, é
mesmo Bacon que faz bem à saúde.
| Em
nome do pai |
| A
série de catorze quadros conhecida como Pinturas
Negras está entre os trabalhos mais importantes
do espanhol Francisco Goya (1746-1828). Saturno, a
principal dessas obras, que exibe a imagem do deus mitológico
que devorava seus filhos, sempre foi tida pelos historiadores
como uma peça essencial para compreender a gênese
da pintura moderna. Não é à toa,
portanto, que está causando polêmica a divulgação
de um estudo que sugere não ter sido Goya o verdadeiro
autor das Pinturas Negras. Contratado para escrever
um livro sobre a série, o historiador Juan José
Junquera, da Universidade Complutense de Madri, mergulhou
nos arquivos da época e chegou à conclusão
de que Goya não poderia ter pintado os quadros.
Até onde se sabe, as peças foram feitas
para enfeitar as paredes do 2º andar da casa do pintor,
num subúrbio da capital espanhola e Junquera
colheu indícios de que o pavimento só teria
sido construído anos depois de sua morte. A esse
argumento inicial, ele juntou outros vários que
apontam para a tese de que Javier, filho do artista, seria
o verdadeiro autor dos quadros, ou os teria encomendado
a terceiros. Embora não se tenha notícia
de nenhuma obra de sua autoria, Javier estudou pintura
ainda que seu talento inequívoco fosse para
os negócios. "Se tivesse de vender sua mãe,
ele o faria", diz Junquera. O estudo do pesquisador espanhol
divide a opinião dos historiadores. E tem tirado
o sono dos administradores do Museu do Prado, onde as
magníficas Pinturas Negras estão
expostas. |
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