Edição 1814 . 6 de agosto de 2003

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Filantropia
Meus bilhões deixo para...

A tendência entre ricos americanos
é legar toda a herança, ou boa parte
dela, à caridade


Juliana Simão


O americano Walter Hubert Annenberg foi dono de um império de comunicações e de uma espetacular coleção de obras de arte, avaliada em 1 bilhão de dólares. Ao morrer, aos 94 anos, nove meses atrás, sua fortuna era estimada em 4 bilhões de dólares. Menos da metade ficou para a família. Em testamento, ele doou à caridade metade de seus investimentos, a coleção de arte e sua propriedade mais valiosa, uma fazenda de 100 hectares na Califórnia, chamada Sunnylands. Não que faltassem herdeiros. Era casado, tinha uma filha, enteados, netos e bisnetos. A lógica de sua atitude foi a seguinte: a família está bem de vida e a "riqueza não pode ficar restrita a poucos", como ele resumiu em seu testamento. Annenberg é o exemplo mais espetacular de uma nova tendência na filantropia nos Estados Unidos: destinar tudo, ou quase tudo, o que se tem para causas sociais. Dez das cinqüenta maiores doações individuais feitas no ano passado foram de pessoas que morreram e deixaram o grosso da herança para ajudar os outros.


Bill Gates, dono da Microsoft e o homem mais rico do mundo, já anunciou que depois de sua morte 98% de seu patrimônio, estimado em 40,7 bilhões de dólares, irá para a Fundação Bill & Melinda Gates. Com o dinheiro, a instituição poderá prosseguir com seus projetos ambiciosos, que incluem a pesquisa de vacinas contra a Aids e a malária. Os três filhos de Gates não ficarão na mão. Cada um herdará 10 milhões de dólares e eles dividirão a mansão da família, cuja construção custou 100 milhões de dólares. O segundo na lista dos mais ricos, o mitológico financista Warren Buffett, 72 anos, também vai deixar a maior parte de seus 30,5 bilhões de dólares para causas sociais. "Quero que meus três filhos tenham o suficiente para que possam fazer qualquer coisa, mas não o bastante para que não precisem fazer nada", explicou Buffett. Como a de Gates, a herança do financista está atrelada a causas específicas: financiar programas de planejamento familiar e a concessão de bolsas de estudo a jovens pobres.

Os ricos americanos cultivam uma tradição de mecenato e filantropia sem paralelo entre os brasileiros. A mais antiga universidade dos Estados Unidos leva o nome de um doador, John Harvard, do século XVII. No fim do século XIX e início do XX, magnatas que tinham amealhado fortunas de modo um tanto suspeito limparam a imagem com doações milionárias que resultaram em magníficos museus, salas de concerto e universidades. "O americano sente-se impelido a doar ao museu que freqüenta, à escola onde estudou e ao partido político que apóia", diz Yacoff Sarkovas, consultor de patrocínio empresarial em São Paulo. Apesar da recessão econômica, no ano passado as doações somaram 240 bilhões de dólares nos EUA. O valor equivale à metade do produto interno bruto (PIB) do Brasil. Uma diferença entre a geração atual de filantropos e as anteriores é que já não basta dar – o doador quer influir no modo como o dinheiro será usado. "Os novos doadores estão preocupados com questões mais urgentes, como saúde e educação", explica a VEJA a americana Patty Stonesifer, presidente da Fundação Gates. "Sem essas necessidades básicas, quem pode apreciar arte?" Os doadores também estão mais globalizados e atentos aos problemas dos países pobres – como a cura da malária, uma doença tropical.


AP

A filantropia decorre de um fator cultural da sociedade americana – mas a estrutura fiscal ajuda a ser bondoso. Por exemplo, o abatimento por doação pode chegar à metade do imposto devido sobre a herança. No Brasil, não existe o mesmo espírito de mecenato, ainda que se possam citar exemplos isolados de generosidade. "Um problema é que a legislação brasileira não é amiga das doações", lamenta o paulista Marcos Kisil, presidente do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social. Em séculos passados, muitos brasileiros deixavam sua herança para a Igreja na esperança de garantir um lugar no paraíso. De modo geral, nem isso se vê mais por aqui.

 

O QUE A GENEROSIDADE CRIOU NOS ESTADOS UNIDOS

Alcir N. da Silva


Carnegie Hall

A mais conhecida casa de concertos dos Estados Unidos foi criada com doações de Andrew Carnegie, magnata do aço, no século XIX.
Carnegie gastou 56 milhões de dólares na construção de 2 500 bibliotecas públicas.

Museu Getty

Inaugurado em 1997, o complexo cultural em Los Angeles, que inclui museu, escola de arte e auditórios, custou 1 bilhão de dólares à Fundação Getty.
John Paul Getty, bilionário do petróleo, morreu em 1976. A fundação ficou com o grosso de sua fortuna.

Universidade Harvard

Recebeu 478 milhões de dólares em doações no ano passado.
O nome homenageia John Harvard, pastor que deixou metade de seus bens à universidade, no século XVII.


Com reportagem de Adriana Negreiros

 
 
 
 
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