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Filantropia
Meus
bilhões deixo para...
A
tendência entre ricos americanos
é legar toda a herança, ou boa parte
dela, à caridade

Juliana
Simão
O
americano Walter Hubert Annenberg foi dono de um império
de comunicações e de uma espetacular coleção
de obras de arte, avaliada em 1 bilhão de dólares.
Ao morrer, aos 94 anos, nove meses atrás, sua fortuna era
estimada em 4 bilhões de dólares. Menos da metade
ficou para a família. Em testamento, ele doou à caridade
metade de seus investimentos, a coleção de arte e
sua propriedade mais valiosa, uma fazenda de 100 hectares na Califórnia,
chamada Sunnylands. Não que faltassem herdeiros. Era casado,
tinha uma filha, enteados, netos e bisnetos. A lógica de
sua atitude foi a seguinte: a família está bem de
vida e a "riqueza não pode ficar restrita a poucos", como
ele resumiu em seu testamento. Annenberg é o exemplo mais
espetacular de uma nova tendência na filantropia nos Estados
Unidos: destinar tudo, ou quase tudo, o que se tem para causas sociais.
Dez das cinqüenta maiores doações individuais
feitas no ano passado foram de pessoas que morreram e deixaram o
grosso da herança para ajudar os outros.
Bill
Gates, dono da Microsoft e o homem mais rico do mundo, já
anunciou que depois de sua morte 98% de seu patrimônio, estimado
em 40,7 bilhões de dólares, irá para a Fundação
Bill & Melinda Gates. Com o dinheiro, a instituição
poderá prosseguir com seus projetos ambiciosos, que incluem
a pesquisa de vacinas contra a Aids e a malária. Os três
filhos de Gates não ficarão na mão. Cada um
herdará 10 milhões de dólares e eles dividirão
a mansão da família, cuja construção
custou 100 milhões de dólares. O segundo na lista
dos mais ricos, o mitológico financista Warren Buffett, 72
anos, também vai deixar a maior parte de seus 30,5 bilhões
de dólares para causas sociais. "Quero que meus três
filhos tenham o suficiente para que possam fazer qualquer coisa,
mas não o bastante para que não precisem fazer nada",
explicou Buffett. Como a de Gates, a herança do financista
está atrelada a causas específicas: financiar programas
de planejamento familiar e a concessão de bolsas de estudo
a jovens pobres.
Os
ricos americanos cultivam uma tradição de mecenato
e filantropia sem paralelo entre os brasileiros. A mais antiga universidade
dos Estados Unidos leva o nome de um doador, John Harvard, do século
XVII. No fim do século XIX e início do XX, magnatas
que tinham amealhado fortunas de modo um tanto suspeito limparam
a imagem com doações milionárias que resultaram
em magníficos museus, salas de concerto e universidades.
"O americano sente-se impelido a doar ao museu que freqüenta,
à escola onde estudou e ao partido político que apóia",
diz Yacoff Sarkovas, consultor de patrocínio empresarial
em São Paulo. Apesar da recessão econômica,
no ano passado as doações somaram 240 bilhões
de dólares nos EUA. O valor equivale à metade do produto
interno bruto (PIB) do Brasil. Uma diferença entre a geração
atual de filantropos e as anteriores é que já não
basta dar o doador quer influir no modo como o dinheiro será
usado. "Os novos doadores estão preocupados com questões
mais urgentes, como saúde e educação", explica
a VEJA a americana Patty Stonesifer, presidente da Fundação
Gates. "Sem essas necessidades básicas, quem pode apreciar
arte?" Os doadores também estão mais globalizados
e atentos aos problemas dos países pobres como a cura
da malária, uma doença tropical.
AP
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A
filantropia decorre de um fator cultural da sociedade americana
mas a estrutura fiscal ajuda a ser bondoso. Por exemplo,
o abatimento por doação pode chegar à metade
do imposto devido sobre a herança. No Brasil, não
existe o mesmo espírito de mecenato, ainda que se possam
citar exemplos isolados de generosidade. "Um problema é que
a legislação brasileira não é amiga
das doações", lamenta o paulista Marcos Kisil, presidente
do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social. Em séculos
passados, muitos brasileiros deixavam sua herança para a
Igreja na esperança de garantir um lugar no paraíso.
De modo geral, nem isso se vê mais por aqui.
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O
QUE A GENEROSIDADE CRIOU NOS ESTADOS UNIDOS
Alcir N. da Silva
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Carnegie Hall
A
mais conhecida casa de concertos dos Estados Unidos
foi criada com doações de Andrew Carnegie,
magnata do aço, no século XIX.
Carnegie gastou 56 milhões de dólares
na construção de 2 500 bibliotecas públicas.
Museu
Getty
Inaugurado em 1997, o complexo cultural em Los Angeles,
que inclui museu, escola de arte e auditórios,
custou 1 bilhão de dólares à
Fundação Getty.
John Paul Getty, bilionário do petróleo,
morreu em 1976. A fundação ficou com o
grosso de sua fortuna.
Universidade
Harvard
Recebeu 478 milhões de dólares em doações
no ano passado.
O nome homenageia John Harvard, pastor que deixou metade
de seus bens à universidade, no século
XVII.
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Com
reportagem de Adriana Negreiros
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