Edição 1814 . 6 de agosto de 2003

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Economia e Negócios
A multiplicação dos pães

A Casa do Pão de Queijo duplica o faturamento em três anos e abre franquia no exterior
Adriana Souza Silva

Leo Feltran

O empresário Alberto Carneiro Neto aposta que o pão de queijo está a caminho de se globalizar

Arthêmia seria uma vovó como todas as outras, que conta histórias e mima os netos, não fosse por um talento muito desenvolvido: criar receitas. Foi ela quem, depois de várias tentativas, chegou à mistura de queijo, leite, ovos, manteiga e amido de mandioca que se tornou o sucesso de vendas da Casa do Pão de Queijo, a maior rede brasileira de franquias de alimentação. Com 400 lojas espalhadas por 22 Estados, a Casa do Pão de Queijo perde, no Brasil, apenas para a gigante americana McDonald's. Está presente em Portugal, mantém uma fábrica na Espanha e tem planos de chegar ao México e aos Estados Unidos ainda neste ano. Além disso, foi a rede de franquias da área de alimentação que mais cresceu em número de lojas no Brasil desde 2000. O faturamento também aumentou em ritmo alucinante, cerca de 30% ao ano, enquanto a média de crescimento do setor ficou em 9%.

O neto de Arthêmia, o empresário Alberto Carneiro Neto, esteve em Portugal para acompanhar a abertura das cinco lojas-piloto em 2001. O diretor-presidente da franquia descobriu que a concorrência com o pastel de nata local é alta, que os clientes preferem as lojas com mesas e que as vendas só ocorrem em lugares bem movimentados. Com a fase de testes quase concluída, ele agora está mais seguro para vender seu modelo de loja aos empreendedores portugueses. Em junho, foi inaugurada a primeira franquia em Lisboa. "Não importa quanto tempo demore, mas o pão de queijo será um produto globalizado", diz Carneiro Neto.

Além da receita de vovó Arthêmia, morta em 1997 aos 92 anos, o sucesso da Casa do Pão de Queijo se deve a um fermento adicionado no fim de 1999. Na época, as 150 lojas da rede, concentradas no Rio de Janeiro e em São Paulo, consumiam quase toda a produção da fábrica. Ou seja, havia muito mais empreendedores dispostos a abrir uma franquia da Casa do Pão de Queijo do que a empresa estava preparada para receber. O único modo de garantir o surgimento de novas franquias era aumentar a produção de pão de queijo. Como não tinha o capital necessário, Carneiro Neto vendeu 70% da empresa para um fundo de investimentos do então banco Patrimônio, hoje Banco Pátria. Com 10 milhões de reais em caixa, uma nova unidade industrial foi inaugurada em Itupeva, interior de São Paulo, e mais três centrais de abastecimento – no Rio, em São Paulo e na Bahia – surgiram para dar conta do abastecimento de outros Estados.

A expansão da Casa do Pão de Queijo foi turbinada por dois fatores. Primeiro porque o investimento inicial para o franqueado abrir uma loja é baixo. Custa a partir de 35 000 reais, contra o 1,5 milhão de uma franquia do McDonald's. Segundo porque a operação requer um espaço pequeno, cerca de 30 metros quadrados, em média. Como bem sabem os franqueados, investir também tem seus perigos. O empresário Wallace Bastos, da loja do ParkShopping, em Brasília, fatura cerca de 27.000 reais, mas sofre com os altos custos de mão-de-obra e do aluguel, que consome um quarto de seu faturamento. Além de trabalhar o dia inteiro atrás do balcão, Bastos precisa ficar de olho nos concorrentes.

A rede Rei do Mate, que saltou de 64 lojas em 2000 para as atuais 136, ataca com o copão, uma porção de 160 gramas de minipães de queijo dentro de um copo. A estratégia da segunda colocada no ranking de franquias de cafeterias foi bem recebida e hoje representa 20% do faturamento da rede. A Casa do Pão de Queijo se firmou como líder nesse segmento do fast food nacional, mas seu consumidor típico é disputado por outras seis franquias, que juntas somam cerca de 500 lojas no país. "Na hora da fome, o consumidor não vai andar um quarteirão a mais só para comprar o pão de queijo de determinada marca", diz o consultor de franchising Marcelo Cherto. A criação da primeira loja da Casa do Pão de Queijo foi o resultado do encontro de dois nomes da gastronomia paulistana. Foi Belarmino Iglesias, fundador e dono do Rubaiyat, de São Paulo, um dos melhores restaurantes de carne do Brasil, quem descobriu o potencial comercial do quitute de Arthêmia. Certa noite, ao jantar na casa da família Carneiro, Belarmino gostou tanto do pão de queijo que encomendou alguns quilos de massa para o couvert de seu restaurante. O sucesso foi tamanho que animou os donos a abrir em 1967 a primeira loja da Casa do Pão de Queijo.

 

 

 

 
 
 
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