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Conjuntura
Um
desvio de rota
Os investidores estrangeiros estão colocando
seus dólares em outros países. O Brasil teve
queda de 50% na atração de capital

Leandra
Peres
Joel Rocha
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| Montadora
de automóveis:
recorde de novas fábricas nos anos 90 e excesso de produção
agora |
O Brasil
parece estar em um desvio na rota dos negócios internacionais.
Nos primeiros anos após o Plano Real, a abertura da economia
e a privatização fizeram o Brasil disputar com outros
países emergentes o posto de principal destino dos investimentos
estrangeiros. Em 2000, entraram no Brasil 32,7 bilhões de
dólares, um recorde histórico. O tempo dos investimentos
gordos acabou. Neste ano, as empresas estrangeiras devem colocar
no Brasil 8 bilhões de dólares, uma queda de cerca
de 50% em relação ao ano passado. Embora o problema
seja global, o Brasil proporcionalmente perdeu mais que outros emergentes.
O México terá recebido no fim do ano 80% do volume
de investimentos internados no país em 2002. A China e a
Polônia, dois adversários do Brasil na disputa por
dólares, devem receber o mesmo montante do ano passado.
O
Brasil só entrou na lista dos países capazes de atrair
investimentos estrangeiros na década de 90, depois da renegociação
da dívida externa e da estabilização da economia.
Nos anos 80, o país foi exportador de capital, pois o mercado
financeiro internacional se negava a investir num país dado
a calotes em sua dívida e com inflação anual
na casa dos 1.000%. Para um país
com poupança interna baixa, como é o caso do Brasil
apenas 17,96% do PIB contra 35% do PIB na Coréia do
Sul , os investimentos estrangeiros são vitais. O Brasil
vem perdendo posições no ranking da atração
dos investimentos. "Além de não haver tanta disponibilidade
de recursos como nos anos 90, os investidores estão muito
cautelosos", diz Fernando Ribeiro, economista-chefe da Sociedade
Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização
Econômica (Sobeet).
Pelas
estimativas do professor José Alexandre Scheinkman, da Universidade
Princeton, nos Estados Unidos, a diminuição do investimento
estrangeiro no Brasil neste ano pode ser explicada 60% pelas incertezas
domésticas e 40% pelo desaquecimento global. Ou seja, é
possível melhorar o desempenho brasileiro mesmo num quadro
mundial adverso. "O que atrapalha o Brasil atualmente é o
receio em relação ao respeito às regras do
jogo", afirma o economista. Na avaliação de Scheinkman,
a confusão que vem afetando o setor elétrico foi em
grande parte herdada do governo anterior e está sendo enfrentada
pelo atual. "Na telefonia demos um passo atrás", diz Scheinkman.
Segundo ele, a contestação judicial de decisões
da Anatel, agência reguladora do setor, é admissível,
mas não quando estimulada por setores do próprio governo.
A
outra dificuldade enfrentada pelo Brasil na disputa pelos investimentos
diretos tem a ver com a estagnação da economia. As
empresas estrangeiras que olham o mercado brasileiro reconhecem
o potencial de ganho numa economia de 170 milhões de pessoas.
Mas, quando essa massa de consumidores está perdendo renda
e as perspectivas de crescimento são baixas, o atrativo diminui.
"O Brasil é um importante mercado emergente na América
Latina. Atualmente, os investidores estão esperando para
ver o que acontece. Se a economia entrar em ritmo de crescimento
acelerado, essa atitude poderá ser revertida", escreveu Gerd
Häusler, diretor do Departamento de Mercados de Capitais Internacionais
do FMI. Questões de mais longo prazo como a sustentabilidade
das contas públicas também são consideradas
pelos investidores na hora de decidir onde aplicar seus dólares.
Por isso a aprovação das reformas da Previdência
e tributária passa a ser examinada com lupa. "É para
as reformas e a qualidade da gestão macroeconômica
que os investidores de longo prazo estão olhando", explica
Otaviano Canuto, secretário de Assuntos Internacionais do
Ministério da Fazenda.
Raciocínio
semelhante vale para questões como a qualidade da mão-de-obra
e a política de ciência e tecnologia. Nesses quesitos
o Brasil ainda tem muito a fazer. O investimento do governo em ciência
e tecnologia equivale hoje a 0,6% do PIB. Países como Coréia
e China investem 2,5% e 1% do PIB, respectivamente.
A
saída dos investidores estrangeiros poderia ser compensada
por um aumento nos gastos dos empresários nacionais. O que
vem acontecendo na prática não é isso. Os dados
do IBGE mostram que a poupança interna brasileira, que equivale
à capacidade de investimento genuinamente nacional, não
cresce significativamente há tempos. Em 1997, era de 17,71%
do PIB e no ano passado ainda não havia chegado a 18%. No
contexto atual da economia mundial, não se pode esperar que
o Brasil volte a receber os 32 bilhões de dólares
que entraram em 2000. Mas está claro que o primeiro passo
para atrair sócios estrangeiros é recuperar antes
a confiança dos próprios investidores brasileiros.
"Quando os países empatam em quesitos básicos como
a estabilidade macroeconômica, o tamanho do mercado e a mão-de-obra
mais barata, as decisões de investir passam a ser tomadas
com base em 'pequenas' diferenças como o ambiente tecnológico
e o grau de educação da população",
avalia Scheinkman. Está passando da hora de o Brasil começar
a fazer a diferença.
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