Edição 1814 . 6 de agosto de 2003

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Conjuntura
Um desvio de rota

Os investidores estrangeiros estão colocando
seus dólares em outros países. O Brasil teve
queda de 50% na atração de capital


Leandra Peres

 
Joel Rocha
Montadora de automóveis: recorde de novas fábricas nos anos 90 e excesso de produção agora


NESTA EDIÇÃO
O investimento estrangeiro no Brasil
NA INTERNET
Notícias diárias sobre economia

O Brasil parece estar em um desvio na rota dos negócios internacionais. Nos primeiros anos após o Plano Real, a abertura da economia e a privatização fizeram o Brasil disputar com outros países emergentes o posto de principal destino dos investimentos estrangeiros. Em 2000, entraram no Brasil 32,7 bilhões de dólares, um recorde histórico. O tempo dos investimentos gordos acabou. Neste ano, as empresas estrangeiras devem colocar no Brasil 8 bilhões de dólares, uma queda de cerca de 50% em relação ao ano passado. Embora o problema seja global, o Brasil proporcionalmente perdeu mais que outros emergentes. O México terá recebido no fim do ano 80% do volume de investimentos internados no país em 2002. A China e a Polônia, dois adversários do Brasil na disputa por dólares, devem receber o mesmo montante do ano passado.

O Brasil só entrou na lista dos países capazes de atrair investimentos estrangeiros na década de 90, depois da renegociação da dívida externa e da estabilização da economia. Nos anos 80, o país foi exportador de capital, pois o mercado financeiro internacional se negava a investir num país dado a calotes em sua dívida e com inflação anual na casa dos 1.000%. Para um país com poupança interna baixa, como é o caso do Brasil – apenas 17,96% do PIB contra 35% do PIB na Coréia do Sul –, os investimentos estrangeiros são vitais. O Brasil vem perdendo posições no ranking da atração dos investimentos. "Além de não haver tanta disponibilidade de recursos como nos anos 90, os investidores estão muito cautelosos", diz Fernando Ribeiro, economista-chefe da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet).

Pelas estimativas do professor José Alexandre Scheinkman, da Universidade Princeton, nos Estados Unidos, a diminuição do investimento estrangeiro no Brasil neste ano pode ser explicada 60% pelas incertezas domésticas e 40% pelo desaquecimento global. Ou seja, é possível melhorar o desempenho brasileiro mesmo num quadro mundial adverso. "O que atrapalha o Brasil atualmente é o receio em relação ao respeito às regras do jogo", afirma o economista. Na avaliação de Scheinkman, a confusão que vem afetando o setor elétrico foi em grande parte herdada do governo anterior e está sendo enfrentada pelo atual. "Na telefonia demos um passo atrás", diz Scheinkman. Segundo ele, a contestação judicial de decisões da Anatel, agência reguladora do setor, é admissível, mas não quando estimulada por setores do próprio governo.

A outra dificuldade enfrentada pelo Brasil na disputa pelos investimentos diretos tem a ver com a estagnação da economia. As empresas estrangeiras que olham o mercado brasileiro reconhecem o potencial de ganho numa economia de 170 milhões de pessoas. Mas, quando essa massa de consumidores está perdendo renda e as perspectivas de crescimento são baixas, o atrativo diminui. "O Brasil é um importante mercado emergente na América Latina. Atualmente, os investidores estão esperando para ver o que acontece. Se a economia entrar em ritmo de crescimento acelerado, essa atitude poderá ser revertida", escreveu Gerd Häusler, diretor do Departamento de Mercados de Capitais Internacionais do FMI. Questões de mais longo prazo como a sustentabilidade das contas públicas também são consideradas pelos investidores na hora de decidir onde aplicar seus dólares. Por isso a aprovação das reformas da Previdência e tributária passa a ser examinada com lupa. "É para as reformas e a qualidade da gestão macroeconômica que os investidores de longo prazo estão olhando", explica Otaviano Canuto, secretário de Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda.

Raciocínio semelhante vale para questões como a qualidade da mão-de-obra e a política de ciência e tecnologia. Nesses quesitos o Brasil ainda tem muito a fazer. O investimento do governo em ciência e tecnologia equivale hoje a 0,6% do PIB. Países como Coréia e China investem 2,5% e 1% do PIB, respectivamente.

A saída dos investidores estrangeiros poderia ser compensada por um aumento nos gastos dos empresários nacionais. O que vem acontecendo na prática não é isso. Os dados do IBGE mostram que a poupança interna brasileira, que equivale à capacidade de investimento genuinamente nacional, não cresce significativamente há tempos. Em 1997, era de 17,71% do PIB e no ano passado ainda não havia chegado a 18%. No contexto atual da economia mundial, não se pode esperar que o Brasil volte a receber os 32 bilhões de dólares que entraram em 2000. Mas está claro que o primeiro passo para atrair sócios estrangeiros é recuperar antes a confiança dos próprios investidores brasileiros. "Quando os países empatam em quesitos básicos como a estabilidade macroeconômica, o tamanho do mercado e a mão-de-obra mais barata, as decisões de investir passam a ser tomadas com base em 'pequenas' diferenças como o ambiente tecnológico e o grau de educação da população", avalia Scheinkman. Está passando da hora de o Brasil começar a fazer a diferença.

 
 
 
 
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