Edição 1814 . 6 de agosto de 2003

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Especial
Eles têm o poder


Carlos Graieb


Oscar Cabral


NESTA EDIÇÃO

Ranking com os nomes
mais poderosos do
showbiz nacional
1º ao 20º
21º ao 40º
DOS ARQUIVOS DE VEJA
"A era das celebridades"
(12/1/2000)
O ranking dos artistas mais ricos e famosos (12/6/1996)
Os cachês dos famosos (19/12/2001)

O sucesso na vida artística tem várias formas de manifestar-se: dinheiro, celebridade, aclamação pela crítica, influência entre os colegas de profissão. Nem sempre essas benesses vêm juntas. A fama pode não se traduzir em fortuna, boas vendagens podem não coincidir com elogios da crítica, e assim por diante. Mas existem momentos em que todos ou boa parte desses fatores se combinam. Nesse ponto feliz de sua carreira, o artista passa a desfrutar de algo mais: poder para ditar regras, impor tendências e realizar os projetos que desejar, da maneira como desejar. Quem pode se gabar desse status no Brasil hoje em dia? Nesta edição, VEJA apresenta um ranking com os nomes mais poderosos do showbiz nacional.

É a primeira vez que isso é feito na imprensa brasileira. Do grupo humorístico Casseta & Planeta, que encabeça a lista, ao maestro John Neschling, que a encerra, são quarenta personalidades da televisão, da música, do cinema e da literatura, numa combinação surpreendente.

Rankings de artistas são uma tradição na imprensa americana. Da irreverente Entertainment Weekly, dedicada ao showbiz, à Forbes, especializada em negócios, passando pela glamourosa Vogue e pela apimentada People, diversas revistas publicam, a cada ano, listagens que mensuram o poder dos famosos. Mais frívolas ou mais sisudas, as listas costumam ser uma leitura curiosa, uma espécie de guia de como funciona o mundo da cultura e do entretenimento na atualidade: artistas e criadores divertem, põem idéias em circulação, estimulam a fantasia do público, como sempre fizeram, mas também são agentes de um mercado bilionário. Só no ano passado, o mercado de mídia e entretenimento americano movimentou 479 bilhões de dólares. No Brasil, onde não há um levantamento global, o faturamento somado dos setores cinematográfico, fonográfico, editorial e televisivo se aproximou dos 12 bilhões de reais em 2002.

Dilmar Cavalhero/Strana


Uma das listas americanas mais recentes foi a da Forbes, divulgada em meados de junho. Voltada para celebridades em sentido amplo (o que inclui também esportistas), ela trouxe uma figura inesperada no topo, a atriz Jennifer Aniston, estrela do seriado Friends. Jennifer bateu nomes como Steven Spielberg e Tom Hanks, eternos candidatos ao poder supremo no mundo do entretenimento, ou, entre as mulheres, Julia Roberts, considerada a maior estrela do cinema americano. O resultado se explica pelo método empregado pela Forbes para auferir os resultados. Jennifer se saiu bem nos dois quesitos que compunham a pesquisa: ganhos em 2002 e exposição na mídia. "Ela embolsou 35 milhões de dólares no ano passado e embelezou mais capas de revista do que qualquer outra personalidade", registrou a publicação. Dinheiro e aparições na imprensa foram os critérios que a Forbes escolheu porque eles permitem comparar personalidades saídas de mundos tão distintos quanto o golfe e o rap. Para fazer o seu ranking – restrito aos artistas, ao contrário do que acontece na revista americana –, VEJA também levou em conta esses fatores, mas acrescentou alguns elementos à equação.

Cada candidato a figurar na lista de VEJA recebeu notas que iam de 1 a 5 em cinco quesitos diferentes: ganhos totais na carreira, ganhos nos últimos dois anos, presença na mídia, influência nos negócios e influência artística. Os quesitos tinham pesos diversos: peso 2 no primeiro e no terceiro casos, e peso 3 nos demais. Explica-se. Em relação aos ganhos, a intenção era dar mais valor ao sucesso presente do que ao patrimônio acumulado ao longo dos anos. Foi uma maneira de garantir que artistas em ascensão tivessem presença na lista ao lado de veteranos com carreira já firmada. As notas estão em relação direta uma com a outra. Xuxa, por exemplo, é dona da maior fortuna do showbiz brasileiro. Com um patrimônio de cerca de 250 milhões de reais, recebeu, obviamente, nota máxima no primeiro quesito. Ela desce um degrau, contudo, em "ganhos recentes", já que fatura menos hoje em dia do que no auge de sua trajetória. O raciocínio se inverte no caso de uma jovem atriz como Mariana Ximenes. Seu cofrinho ainda não está cheio até a borda, mas as moedas começaram a cair em ritmo acelerado nos últimos tempos. Para medir os ganhos de cada artista, computaram-se fatores como vendagem de discos e livros, cachê e número de shows realizados, salário na televisão e cachê publicitário. Esse último fator, por exemplo, se revelou importante para estabelecer a posição ocupada na lista por atores e atrizes jovens – e de fina estampa. Galãs como Reynaldo Gianecchini e beldades como Carolina Ferraz podem ganhar fortunas participando de eventos e comerciais, independentemente do prestígio de que desfrutem no trabalho propriamente artístico.

Um peso menor também foi dado à presença na mídia, porque esse tipo de exposição nem sempre redunda em poder. São bem conhecidos os casos de celebridades que causam mais barulho pelas estripulias da vida pessoal do que pelos seus feitos profissionais. O discreto ator Tony Ramos consta da lista apesar da nota baixa nesse critério; a espevitada Luana Piovani quase ficou de fora, apesar da nota 5. Duas avaliações foram feitas: número de menções na internet, segundo o programa de buscas Google, e número de referências nas revistas VEJA, Caras e Contigo, sempre ao longo dos últimos doze meses.

Arthur Cavalieri/Strana


Os dois critérios restantes são a influência nos negócios e a influência artística. O primeiro procura aferir o nível de autonomia de cada artista na hora de realizar seus projetos, ou o cacife de que cada um dispõe no momento, digamos, de discutir um novo contrato. Duas mulheres que aparecem nas primeiras posições do ranking receberam nota máxima nesse quesito e servem como bons exemplos: a cantora Marisa Monte e a atriz Fernanda Montenegro. Marisa, sozinha, conseguiu alguns feitos notáveis no ambiente musical. Ela é dona de sua própria obra, ou seja, cada faixa que gravou pertence a ela, e não ao acervo de sua gravadora, a EMI. Se um dia resolver mudar de casa, Marisa leva consigo os seus discos. A cantora ainda inovou na maneira de produzir CDs, e já há quem comece a imitá-la: em vez de esperar que a gravadora banque os seus custos de produção, ela tira esse dinheiro do próprio bolso e depois "vende" o produto acabado à gravadora, que cuida do marketing e da distribuição. Fernanda Montenegro tem atividades no teatro, no cinema e na televisão – e nesta última consegue o que poucos conseguem, ser altamente seletiva em relação aos trabalhos que aceita e negociar seu salário de maneira especial. Sem vínculo de emprego com a Rede Globo, ela só discute seus ganhos caso a caso com um representante da cúpula da emissora. Dona de um currículo único, aí incluída uma indicação ao Oscar de melhor atriz, Fernanda Montenegro também é um bom exemplo de personalidade com alto quociente de influência artística, o último critério avaliado. O mesmo se pode dizer de Rubem Fonseca, o mais imitado entre os escritores brasileiros vivos, e alguém cuja obra é tida em alta conta pela crítica literária. Numa lista dedicada a artistas, a excelência puramente estética tinha de ser levada em conta, assim como a capacidade de indicar caminhos e servir de modelo para outros. Em todas as áreas da cultura há figuras de grande renome que, no entanto, não são presenças tão vivas quanto já foram um dia. É o caso, por exemplo, do casal de atores Tarcísio Meira e Glória Menezes, que acabou não aparecendo no ranking. Eles pertencem à faixa salarial mais alta do elenco da Rede Globo e desfrutam de enorme respeito, mas seus trabalhos já não causam o frisson e a repercussão de outrora. O mesmo se pode dizer do cantor Gilberto Gil. Ele detém atualmente um poder político considerável como ministro da Cultura, mas sua influência artística repousa em grande parte em feitos passados, e não atuais.

Para chegar aos quarenta nomes desta lista de poder, partiu-se de um universo bem maior de figuras ligadas ao showbiz, incluídos aí alguns empresários. Esse é o modelo empregado, por exemplo, pela revista Entertainment Weekly, que divide o seu ranking entre artistas e executivos. Na reta final, contudo, VEJA optou por deixar de fora editores e executivos de gravadora – aqueles que atuam nos bastidores da indústria cultural. Jornalistas também ficaram de fora (inclusive aqueles cujo trabalho se confunde com o de apresentador), assim como diretores de televisão – que em geral têm muito menos autonomia para impor sua "visão autoral" do que os diretores de cinema. Feita essa primeira poda, restaram cantores, instrumentistas, cineastas, atores, atrizes, escritores e apresentadores, que tiveram suas notas registradas e calculadas até uma média final. A média 3 era de corte; caíram todos os que ficaram abaixo dela. Para efeito de desempate, levou-se em conta o momento na carreira de cada um, que podia acrescentar ou retirar até um décimo da média – um "reloginho" mostra, ao lado das fotos, se o artista está em alta, em baixa ou estável. O que faz lembrar que a lista é uma foto instantânea. Há carreiras com subidas e descidas abruptas, assim como artistas que se mantêm no topo por anos e anos a fio (como Roberto Carlos, que parece estar entrando, contudo, num declínio lento). Daqui a um ano, outros nomes certamente entrariam num ranking semelhante, alguns sumiriam e muitos mudariam de posição. O mundo do showbiz não pára.


Com reportagem de Isabela Boscov, Marcelo Marthe,
Ricardo Valladares e Sérgio Martins

 
 
 
 
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