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Aventura
No
céu, como um pássaro
Austríaco
usa asas de fibra de carbono
para voar sobre o Canal da Mancha, entre
a Inglaterra e a França

José
Eduardo Barella
AFP
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Reuters
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Baumgartner
durante o vôo e, à direita, o pouso de pára-quedas
na França: a fumaça no pé esquerdo, na
foto maior, é um sinalizador para facilitar sua localização
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O
austríaco Felix Baumgartner, de 34 anos, alcançou
na semana passada uma das proezas mais espetaculares perseguidas
pelo homem a de voar como um pássaro. Na madrugada
de quinta-feira, ele saltou de um avião bimotor a 9.000 metros
de altitude, sobre a cidade de Dover, na Inglaterra, cruzou os 35
quilômetros do Canal da Mancha e pousou, menos de sete minutos
depois, numa praia perto de Calais, na França. Para se manter
no ar, valeu-se de asas de fibra de carbono presas às costas
e só na hora da descida acionou o pára-quedas. Poucos
segundos depois de saltar na atmosfera rarefeita e a uma temperatura
de 40 graus negativos, Baumgartner chegou a atingir a velocidade
de 360 quilômetros por hora similar à de um
carro de Fórmula 1 numa reta. Tudo isso foi possível
com o uso de um equipamento que lhe deu a aparência de um
herói de história em quadrinhos. Um tubo de oxigênio
permitiu que respirasse no ar rarefeito, um equipamento de comunicação
embutido no capacete lhe possibilitou manter contato com a equipe
de apoio em terra e roupas térmicas o protegeram do frio.
Baumgartner é conhecido por façanhas no base jumping,
como é chamado o salto de pára-quedas a partir de
plataformas fixas. Em 1999, ele pulou de uma altura de 452 metros
do prédio mais alto do mundo, o Petronas Towers, na Malásia.
Meses depois, saltou do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro. Desde
então, treinava duro para o desafio da semana passada. Estudou
meticulosamente os riscos, incluindo o equipamento que seria utilizado,
os ventos na região e a melhor data para o vôo livre.
Para checar a resistência das asas, fez alguns testes inusitados.
Num deles, ficou amarrado ao teto de um Porsche a mais de 300 quilômetros
por hora. As asas de fibra de carbono foram desenvolvidas por uma
universidade alemã as utilizadas por outros pára-quedistas
em provas de queda livre são de pano. A aerodinâmica
dos acessórios lembra a de uma asa-delta em menor escala,
mas com desempenho muito superior no quesito velocidade. Na prática,
Baumgartner voou como se estivesse num planador, avançando
em linha reta 4 metros para cada metro de queda livre.
O feito é notável por vários fatores. Um deles
se deve à altitude de seu salto. A partir de 7.000 metros,
o ar fica rarefeito. A queda, portanto, é mais rápida.
Além disso, a falta de oxigênio afeta os sentidos,
provocando um fenômeno conhecido como hipoxia o pára-quedista
pode sentir tontura ou até mesmo desmaiar. Um cilindro de
oxigênio, portanto, é imprescindível. "Baumgartner
teve de acrescentar esse acessório, o que aumentou o peso
de seu equipamento e o grau de dificuldade do salto", disse a VEJA
o pára-quedista paulista Ricardo Pettená, duas vezes
recordista mundial de formação em queda livre. O austríaco
enfrentou seu pior momento pouco depois do salto, quando viajava
à velocidade máxima. O tempo nublado o impedia de
visualizar o mar, que era seu ponto de referência. Usando
o GPS, o sistema de navegação por satélite,
a tripulação do avião de apoio que o acompanhava
a distância descobriu que o austríaco estava 10 graus
fora da rota preestabelecida. Alertado pelo sistema de comunicação,
o pára-quedista corrigiu o rumo.
A maior parte do trajeto foi feita à velocidade constante
de 220 quilômetros por hora. Nessa etapa, Baumgartner pôde
esquecer o frio e desfrutar o sabor de voar livre como um pássaro.
"Nos últimos 2.000 metros, consegui avistar a costa francesa
e prever que tudo acabaria bem; foi uma sensação maravilhosa",
contou depois. Ainda haveria, contudo, um contratempo, que ameaçou
transformar a aventura numa tragédia. No momento em que acionou
o pára-quedas, a 300 metros de altura, alguns fios se engancharam
numa das pernas. O austríaco teve de cortá-los em
queda livre, com a ajuda de uma faca que levava num dos tornozelos
justamente para uma emergência. Baumgartner já planeja
uma nova aventura, ainda mais espetacular. Por enquanto, não
quer dar detalhes, mas diz que será sua consagração
como um Ícaro dos tempos modernos. A diferença para
o trágico herói da mitologia grega, que morre quando
o calor do Sol derrete a cera que segurava as penas de suas asas,
é que, podemos dizer, o vôo do austríaco não
é uma lenda.
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