Edição 1814 . 6 de agosto de 2003

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Stephen Kanitz
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
VEJA on-line
Veja essa
Arc
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Aventura
No céu, como um pássaro

Austríaco usa asas de fibra de carbono
para voar sobre o Canal da Mancha, entre
a Inglaterra e a França


José Eduardo Barella

AFP
Reuters

Baumgartner durante o vôo e, à direita, o pouso de pára-quedas na França: a fumaça no pé esquerdo, na foto maior, é um sinalizador para facilitar sua localização



DA INTERNET
Site do aventureiro Felix Baumgartner
Azul do vento

O austríaco Felix Baumgartner, de 34 anos, alcançou na semana passada uma das proezas mais espetaculares perseguidas pelo homem – a de voar como um pássaro. Na madrugada de quinta-feira, ele saltou de um avião bimotor a 9.000 metros de altitude, sobre a cidade de Dover, na Inglaterra, cruzou os 35 quilômetros do Canal da Mancha e pousou, menos de sete minutos depois, numa praia perto de Calais, na França. Para se manter no ar, valeu-se de asas de fibra de carbono presas às costas e só na hora da descida acionou o pára-quedas. Poucos segundos depois de saltar na atmosfera rarefeita e a uma temperatura de 40 graus negativos, Baumgartner chegou a atingir a velocidade de 360 quilômetros por hora – similar à de um carro de Fórmula 1 numa reta. Tudo isso foi possível com o uso de um equipamento que lhe deu a aparência de um herói de história em quadrinhos. Um tubo de oxigênio permitiu que respirasse no ar rarefeito, um equipamento de comunicação embutido no capacete lhe possibilitou manter contato com a equipe de apoio em terra e roupas térmicas o protegeram do frio.

Baumgartner é conhecido por façanhas no base jumping, como é chamado o salto de pára-quedas a partir de plataformas fixas. Em 1999, ele pulou de uma altura de 452 metros do prédio mais alto do mundo, o Petronas Towers, na Malásia. Meses depois, saltou do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro. Desde então, treinava duro para o desafio da semana passada. Estudou meticulosamente os riscos, incluindo o equipamento que seria utilizado, os ventos na região e a melhor data para o vôo livre. Para checar a resistência das asas, fez alguns testes inusitados. Num deles, ficou amarrado ao teto de um Porsche a mais de 300 quilômetros por hora. As asas de fibra de carbono foram desenvolvidas por uma universidade alemã – as utilizadas por outros pára-quedistas em provas de queda livre são de pano. A aerodinâmica dos acessórios lembra a de uma asa-delta em menor escala, mas com desempenho muito superior no quesito velocidade. Na prática, Baumgartner voou como se estivesse num planador, avançando em linha reta 4 metros para cada metro de queda livre.

O feito é notável por vários fatores. Um deles se deve à altitude de seu salto. A partir de 7.000 metros, o ar fica rarefeito. A queda, portanto, é mais rápida. Além disso, a falta de oxigênio afeta os sentidos, provocando um fenômeno conhecido como hipoxia – o pára-quedista pode sentir tontura ou até mesmo desmaiar. Um cilindro de oxigênio, portanto, é imprescindível. "Baumgartner teve de acrescentar esse acessório, o que aumentou o peso de seu equipamento e o grau de dificuldade do salto", disse a VEJA o pára-quedista paulista Ricardo Pettená, duas vezes recordista mundial de formação em queda livre. O austríaco enfrentou seu pior momento pouco depois do salto, quando viajava à velocidade máxima. O tempo nublado o impedia de visualizar o mar, que era seu ponto de referência. Usando o GPS, o sistema de navegação por satélite, a tripulação do avião de apoio que o acompanhava a distância descobriu que o austríaco estava 10 graus fora da rota preestabelecida. Alertado pelo sistema de comunicação, o pára-quedista corrigiu o rumo.

A maior parte do trajeto foi feita à velocidade constante de 220 quilômetros por hora. Nessa etapa, Baumgartner pôde esquecer o frio e desfrutar o sabor de voar livre como um pássaro. "Nos últimos 2.000 metros, consegui avistar a costa francesa e prever que tudo acabaria bem; foi uma sensação maravilhosa", contou depois. Ainda haveria, contudo, um contratempo, que ameaçou transformar a aventura numa tragédia. No momento em que acionou o pára-quedas, a 300 metros de altura, alguns fios se engancharam numa das pernas. O austríaco teve de cortá-los em queda livre, com a ajuda de uma faca que levava num dos tornozelos justamente para uma emergência. Baumgartner já planeja uma nova aventura, ainda mais espetacular. Por enquanto, não quer dar detalhes, mas diz que será sua consagração como um Ícaro dos tempos modernos. A diferença para o trágico herói da mitologia grega, que morre quando o calor do Sol derrete a cera que segurava as penas de suas asas, é que, podemos dizer, o vôo do austríaco não é uma lenda.

 

 

 
 
 
topo voltar