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Internacional
O
risco Kirchner
O
presidente argentino adota um discurso de confronto com investidores
estrangeiros

Raul Juste Lores
AP
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"Por
seus conceitos errados, o FMI tem muita responsabilidade pela
decadência da Argentina."
Néstor Kirchner, presidente da Argentina
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Todo
político enfrenta o mesmo dilema depois de eleito: decidir
a hora de descer do palanque e se pôr a trabalhar de acordo
com a liturgia do cargo. A diferença entre as duas fases
é notável. Um candidato pode fazer promessas à
vontade, visto que ainda lhe falta o poder necessário para
torná-las realidade. Após a posse, tudo o que diz
ou faz tem repercussões e é encarado como política
de Estado. Quase três meses depois de assumir a Presidência
da Argentina, Néstor Kirchner ainda parece um candidato.
Durante a campanha, ele culpava o empresariado local, as empresas
estrangeiras e o Fundo Monetário Internacional (FMI) por
quase todos os males do país. Não abrandou o tom depois
da posse. Pode-se argumentar que se trata de demonstração
de coerência. Mas é também uma atitude de alto
risco para um governo que tem entre seus desafios provar ao mundo
que a Argentina é um país sério. Se levadas
ao pé da letra, as bravatas presidenciais vão dificultar
o acesso àquilo de que os argentinos mais precisam no momento:
investimentos e empréstimos internacionais.
A visita de Kirchner à Europa, no mês passado, foi
uma sucessão de descortesias desnecessárias. Na Inglaterra,
em vez de aproveitar para tirar alguns trocados do primeiro-ministro
Tony Blair, ele desperdiçou o encontro reclamando a soberania
das Malvinas. Não há urgência em resolver a
pendenga em torno das ilhas, motivo de uma guerra entre os dois
países em 1982. Na Espanha, Kirchner declarou que "as empresas
espanholas se deram melhor do que os argentinos e foram cúmplices
das políticas dos anos 90". Os espanhóis são
os maiores investidores estrangeiros na Argentina e detêm
as principais empresas em setores estratégicos como petróleo,
energia elétrica e telecomunicações. Diante
das queixas espanholas de que perderam dinheiro na Argentina nos
últimos quatro anos, o presidente saiu-se com ironias: "Vocês
deveriam demitir seus assessores econômicos porque eu, como
sabia da recessão, tirei do país o dinheiro da minha
província", disse. Quando governador da pequena Província
de Santa Cruz, Kirchner tirou mais de 500 milhões de dólares
das contas públicas e depositou em bancos na Suíça
e em Luxemburgo. Quem vai se sentir estimulado a investir na Argentina
depois de ouvir uma declaração presidencial como essa?
Kirchner faltou a um café-da-manhã em Paris, marcado
com empresários franceses, para se encontrar com ativistas
dos direitos humanos. Quando o ministro da Economia francês
anunciou que visitaria a Argentina, o ministro do Planejamento,
Julio De Vido, braço direito de Kirchner, ameaçou:
"Se vier falar de tarifas, é melhor que não venha".
A França é o terceiro maior investidor na Argentina,
com forte presença nas empresas de serviços públicos,
cujas tarifas estão congeladas há um ano e meio e
que processam o governo por quebra de contrato. Ao receber em Buenos
Aires a visita do chefão do FMI, Horst Koehler, Kirchner
avisou que sua prioridade era o crescimento econômico, não
a disciplina fiscal. E ainda colocou o visitante contra a parede:
"O senhor é responsável pela crise argentina". O nó
dessa atitude é que a Argentina implora ao FMI por um empréstimo
que lhe permita voltar a ter linhas de crédito internacionais.
Koehler adiou a decisão sobre o empréstimo para o
fim do ano.
O crescimento previsto do PIB argentino é de 5% neste ano.
O bom desempenho da economia decorre sobretudo do superávit
na balança comercial. O desemprego é alto -- 15,6%,
mas mais baixo que os 21% do ano passado. Apesar de todas as suas
crises, a Argentina exibe um quadro estrutural favorável
ao desenvolvimento e aos investimentos estrangeiros: a escolaridade
da população é alta, o setor agropecuário
é competitivo e há fartura de recursos naturais. O
perigo sempre presente é uma política populista transformar
essas vantagens em pó. Kirchner praticamente não recebe
empresários na Casa Rosada e anunciou que não irá
à cerimônia de abertura da Feira Rural, o maior evento
do poderoso setor agropecuário argentino. O que gosta de
fazer, na melhor linha do caudilhismo portenho, é visitar
escolas, asilos e hospitais na periferia de Buenos Aires. "Esta
é a Argentina que está oculta e que os defensores
da ortodoxia econômica não vêem", discursa. Kirchner
foi eleito com apenas 22% dos votos porque seu adversário,
o ex-presidente Carlos Menem, desistiu de disputar o segundo turno.
Parece que ele está ansioso por obter o reconhecimento popular
que foi impedido de aferir nas urnas. Desde a posse, priorizou ações
que visam a depurar algumas das instituições mais
impopulares: substituiu juízes corruptos da Corte Suprema
e mudou a lei para permitir a extradição de militares
acusados de tortura na última ditadura militar. A repercussão
doméstica foi tremendamente favorável: a popularidade
do presidente chegou a 75%. A questão é até
quando ele vai continuar jogando para a torcida.
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