Edição 1814 . 6 de agosto de 2003

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Internacional
O risco Kirchner

O presidente argentino adota um discurso de confronto com investidores estrangeiros


Raul Juste Lores

 
AP

"Por seus conceitos errados, o FMI tem muita responsabilidade pela decadência da Argentina."
Néstor Kirchner, presidente da Argentina

Todo político enfrenta o mesmo dilema depois de eleito: decidir a hora de descer do palanque e se pôr a trabalhar de acordo com a liturgia do cargo. A diferença entre as duas fases é notável. Um candidato pode fazer promessas à vontade, visto que ainda lhe falta o poder necessário para torná-las realidade. Após a posse, tudo o que diz ou faz tem repercussões e é encarado como política de Estado. Quase três meses depois de assumir a Presidência da Argentina, Néstor Kirchner ainda parece um candidato. Durante a campanha, ele culpava o empresariado local, as empresas estrangeiras e o Fundo Monetário Internacional (FMI) por quase todos os males do país. Não abrandou o tom depois da posse. Pode-se argumentar que se trata de demonstração de coerência. Mas é também uma atitude de alto risco para um governo que tem entre seus desafios provar ao mundo que a Argentina é um país sério. Se levadas ao pé da letra, as bravatas presidenciais vão dificultar o acesso àquilo de que os argentinos mais precisam no momento: investimentos e empréstimos internacionais.

A visita de Kirchner à Europa, no mês passado, foi uma sucessão de descortesias desnecessárias. Na Inglaterra, em vez de aproveitar para tirar alguns trocados do primeiro-ministro Tony Blair, ele desperdiçou o encontro reclamando a soberania das Malvinas. Não há urgência em resolver a pendenga em torno das ilhas, motivo de uma guerra entre os dois países em 1982. Na Espanha, Kirchner declarou que "as empresas espanholas se deram melhor do que os argentinos e foram cúmplices das políticas dos anos 90". Os espanhóis são os maiores investidores estrangeiros na Argentina e detêm as principais empresas em setores estratégicos como petróleo, energia elétrica e telecomunicações. Diante das queixas espanholas de que perderam dinheiro na Argentina nos últimos quatro anos, o presidente saiu-se com ironias: "Vocês deveriam demitir seus assessores econômicos porque eu, como sabia da recessão, tirei do país o dinheiro da minha província", disse. Quando governador da pequena Província de Santa Cruz, Kirchner tirou mais de 500 milhões de dólares das contas públicas e depositou em bancos na Suíça e em Luxemburgo. Quem vai se sentir estimulado a investir na Argentina depois de ouvir uma declaração presidencial como essa?

Kirchner faltou a um café-da-manhã em Paris, marcado com empresários franceses, para se encontrar com ativistas dos direitos humanos. Quando o ministro da Economia francês anunciou que visitaria a Argentina, o ministro do Planejamento, Julio De Vido, braço direito de Kirchner, ameaçou: "Se vier falar de tarifas, é melhor que não venha". A França é o terceiro maior investidor na Argentina, com forte presença nas empresas de serviços públicos, cujas tarifas estão congeladas há um ano e meio e que processam o governo por quebra de contrato. Ao receber em Buenos Aires a visita do chefão do FMI, Horst Koehler, Kirchner avisou que sua prioridade era o crescimento econômico, não a disciplina fiscal. E ainda colocou o visitante contra a parede: "O senhor é responsável pela crise argentina". O nó dessa atitude é que a Argentina implora ao FMI por um empréstimo que lhe permita voltar a ter linhas de crédito internacionais. Koehler adiou a decisão sobre o empréstimo para o fim do ano.

O crescimento previsto do PIB argentino é de 5% neste ano. O bom desempenho da economia decorre sobretudo do superávit na balança comercial. O desemprego é alto -- 15,6%, mas mais baixo que os 21% do ano passado. Apesar de todas as suas crises, a Argentina exibe um quadro estrutural favorável ao desenvolvimento e aos investimentos estrangeiros: a escolaridade da população é alta, o setor agropecuário é competitivo e há fartura de recursos naturais. O perigo sempre presente é uma política populista transformar essas vantagens em pó. Kirchner praticamente não recebe empresários na Casa Rosada e anunciou que não irá à cerimônia de abertura da Feira Rural, o maior evento do poderoso setor agropecuário argentino. O que gosta de fazer, na melhor linha do caudilhismo portenho, é visitar escolas, asilos e hospitais na periferia de Buenos Aires. "Esta é a Argentina que está oculta e que os defensores da ortodoxia econômica não vêem", discursa. Kirchner foi eleito com apenas 22% dos votos porque seu adversário, o ex-presidente Carlos Menem, desistiu de disputar o segundo turno. Parece que ele está ansioso por obter o reconhecimento popular que foi impedido de aferir nas urnas. Desde a posse, priorizou ações que visam a depurar algumas das instituições mais impopulares: substituiu juízes corruptos da Corte Suprema e mudou a lei para permitir a extradição de militares acusados de tortura na última ditadura militar. A repercussão doméstica foi tremendamente favorável: a popularidade do presidente chegou a 75%. A questão é até quando ele vai continuar jogando para a torcida.

 

 
 
 
 
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